<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738</id><updated>2011-07-30T13:11:02.186-03:00</updated><title type='text'>Mal localizado</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><link rel='next' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default?start-index=101&amp;max-results=100'/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>103</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-3857397659279674208</id><published>2010-08-10T07:03:00.000-03:00</published><updated>2010-08-10T07:03:59.248-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;i&gt;Olá.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Para quem gostou desse blog e quer saber o que o autor anda fazendo,&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;pode me procurar &lt;a href="http://oadversario.blogspot.com/"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Abraços,&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Maurício&lt;/i&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-3857397659279674208?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/3857397659279674208/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=3857397659279674208&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3857397659279674208'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3857397659279674208'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/08/ola.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7186999715024850443</id><published>2010-04-10T09:32:00.000-03:00</published><updated>2010-04-10T09:32:32.723-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;i&gt;Olá,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu nome é Maurício. Sou o autor das postagens do blog &lt;b&gt;Mal Localizado&lt;/b&gt;, cujas atividades foram encerradas em 5 de abril de 2010.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essa postagem é um agradecimento, um balanço e uma explicação. Não nessa ordem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;Mal Localizado&lt;/b&gt; é um romance que ainda estou finalizando. Além de reler o que já está pronto, falta inserir um prólogo e um epílogo, mostrando as circunstâncias em que o diário do Sr. J foi encontrado e que consequências trouxe para quem o encontrou. Nem o prólogo, nem o epílogo, serão postados aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem escreve, sabe o quão solitária é essa atividade. A internet trouxe o prazer de compartilhar a escrita já no nascedouro, poder mostrar e observar a reação de quem lê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A opção pelo anonimato (criticada em alguns mails recebidos) se deve a um desejo do autor em não ser confundido com o personagem, situação já enfrentada. Em experiência anterior, publiquei contos na internet e diversas vezes o espaço de comentários trazia coisas como “Ah, não acho que você seja assim” ou “Você não faria isso”, como se o texto representasse apenas a verdade e nada ali houvesse de criação. Não nego a presença da experiência pessoal no que escrevo, mas certamente sua porcentagem é bem menor do que espera ou deseja o leitor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, imagino que escritores vaidosos não gostem muito de tal confusão. Ela acaba sugerindo que o autor só é capaz de escrever em cima de fatos que aconteceram, e que a imaginação não dá conta de criar sozinha uma personalidade, um evento ou um cenário. Mas ela dá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, por não querer que o texto em si ficasse em segundo plano diante da curiosidade quanto até onde o autor está inventando e até onde está se expondo, preferi esconder meu nome e não mostrar &lt;b&gt;Mal Localizado&lt;/b&gt; para pessoas conhecidas. Pesquisei em blogs literários pessoas que talvez se interessassem pelo que estava sendo escrito aqui e as incluí na mala direta. A resposta, embora quantitativamente bem menor do que o esperado (apesar dos 110 seguidores do blog, a média diária de visitantes não passou de 20 leitores), surpreendeu-me na qualidade. A identificação, a sensibilidade e a inteligência de alguns comentários não raro me comoveram, e não há como não citar – e agradecer – especificamente a presença do leitor SSS, dono de uma simpatia e profundidade que deixavam não apenas a mim, como aos outros leitores, ansiosos por sua participação. Para alguns que me perguntaram via email, informo categoricamente que eu não sou o SSS. A propósito, ainda espero conhecê-lo pessoalmente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pretendo manter esse blog. Meus planos são informar, via email, do andamento do romance. Acredito ter feito alguns amigos por aqui, cujo contato espero não perder com o fim do blog. O endereço &lt;a href="mailto:comninguem@gmail.com"&gt;comninguem@gmail.com&lt;/a&gt; continuará ativo, e responderei qualquer comentário, sugestão ou crítica. Também gostei muito da experiência, mesmo sendo desgastante a tarefa de escrever um texto novo por dia, e não descarto a possibilidade de vir a repeti-la no futuro, em um novo livro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A todos os que chegaram até aqui, o meu muito obrigado e, espero, até breve.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraços,&lt;br /&gt;Maurício&lt;/i&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7186999715024850443?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7186999715024850443/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7186999715024850443&amp;isPopup=true' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7186999715024850443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7186999715024850443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/04/ola-meu-nome-e-mauricio.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6557503172037137497</id><published>2010-04-05T19:47:00.001-03:00</published><updated>2010-04-05T19:47:53.048-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>“Os demônios não deixaram você em paz. Não esqueceram você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu apenas ouço, sem me mexer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não está livre. Não está livre agora e nem estará jamais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro os olhos. Não era sonho. Eu não estava dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As últimas palavras ainda ecoam em meus ouvidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Logo você estará junto de nós.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No telefone, tento novamente falar com os vizinhos. Ninguém atende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resolvo então ligar para a empresa. Lá atendem. Mas também eles estão falando naquele idioma que não conheço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez eu é que esteja me distanciando, e perdendo a compreensão das coisas. Talvez esse distanciamento faça parte do processo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje finalmente aconteceu. Tentei lembrar-me do seu rosto e não consegui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro de um sentimento muito comovente. Mas não consigo sentir isso de novo. O sabor do seu nome se desvaneceu no céu da minha memória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deveria doer muito. Mas nem isso estou conseguindo sentir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todo caso, a vida não me vale a pena sem essa lembrança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo a arrumar minhas coisas. Penso em agradecer, mas não tenho a quem. Sequer o nome da mulher a quem dedicaria este diário eu consigo lembrar. Na verdade, já nem estou bem certo se ela realmente existiu, ou se uma face romântica minha a criou, para dar um mínimo de significado a uma vida infeliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixarei o diário sobre a mesa. Sei que alguém vai encontrá-lo um dia. Espero que ao menos se divirta. Agora vou me deitar. Posso sentir que eles estão chegando para me buscar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6557503172037137497?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6557503172037137497/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6557503172037137497&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6557503172037137497'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6557503172037137497'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/04/os-demonios-nao-deixaram-voce-em-paz.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5882318905723961710</id><published>2010-04-04T17:00:00.000-03:00</published><updated>2010-04-04T17:00:18.036-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Quando chamados às pressas pela mãe, o casal de irmãos achou que haviam descoberto o seu segredo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegaram diante dela, que os esperava na frente da casa, cabisbaixos e amedrontados. Estavam de mãos dadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde vocês estavam?”, a mãe perguntou com irritação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Brincando”, responderam quase ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vão ter com seu pai. Ele quer falar com vocês dois agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Limparam os sapatinhos no capacho, passaram pela mãe e entraram na casa. Atravessaram a sala, percorreram o pequeno corredor e pararam na porta do quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai estava deitado. Há um mês não saía daquela cama. Doente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Papai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entrem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto cheirava a hospital. Os irmãos puseram-se de um lado da cama, o lado em que o pai estava, e esperaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai começou a tossir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Feche a porta”, disse ao menino. Ele foi, fechou e voltou ao mesmo lugar ao lado da irmã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Filhos. O pai de vocês está morrendo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A frase, profunda demais para a cabeça de uma criança, não teve o efeito desejado pelo patriarca enfermo. Os irmãos apenas arregalaram os olhos e permaneceram em silêncio. Não sabiam o que fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um adulto não saberia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vocês precisam me ajudar”, ele enfim continuou. “Eu estou morrendo, e não posso, não quero morrer desse jeito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor está doente, papai?”, a menina perguntou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pior do que isso, minha filha. Papai está sendo assassinado. Estão me envenenando. Estão matando o pai de vocês. Gente muito má, muito cruel.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora a menina chorava. O menino ainda conseguia se conter. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem está fazendo isso com o senhor, papai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A mãe de vocês. Ela está me envenenando com a ajuda daquele médico que vem sempre aqui. O doutor Quintanilha. Eu sei porque eu descobri tudo. Os dois tem um caso. O médico e a mãe de vocês. Os desgraçados.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As duas crianças não sabiam ainda o que significava ter um caso. Mas entenderam que era errado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora querem se livrar de mim. Não se satisfazem com a minha desonra. É preciso que eu morra para que o seu êxtase seja completo. Com a minha morte, a desonra se alastrará. Tomará esta casa. Tomará vocês dois, meus filhos e herdeiros.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cenário pintado pelo pai, ainda que um ou outro vocábulo não tenha sido de todo compreendido pelas crianças, incutiu nelas o horror pretendido. Os irmãos entenderam que havia uma ameaça, e que era preciso se defender dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas o que podemos fazer, papai?”, as lágrimas ainda escorriam dos olhos da filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai teve nova crise de tosse, e então respondeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vocês precisam matar sua mãe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora eram as duas crianças que choravam convulsivamente. Na cozinha, a mãe ouviu os berros e foi até o quarto ver o que estava acontecendo. Deu com a cena grotesca das crianças chorando e do marido tossindo, e achou melhor retirar os filhos dali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você disse que os deixou daquele jeito?”, ela perguntou, depois que ficou a sós com o marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A verdade. Que eu vou morrer. Meus filhos me amam. Não querem ficar sem o pai.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eles não vão ficar sem o pai. Você logo vai estar bom.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi o doutor Quintanilha que disse isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante as duas crianças entraram correndo no quarto, atirando-se sobre a mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada uma carregava um pedaço de pau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caíram os três, mãe e filhos no chão. O pai recomeçou a tossir sem parar. Da posição em que se encontrava, apenas ouvia os gritos da mãe e o barulho seco das pancadas em seu corpo. As crianças também gritavam, enquanto batiam com toda a força. Continuaram batendo mesmo depois que a mãe parou de reagir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o doutor Quintanilha chegou, a porta de casa estava aberta. Ninguém respondeu ao seu “ô de casa”, então o doutor Quintanilha entrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontrou o marido e a mulher no quarto. Ele na cama, ela no chão. Ambos mortos. Mas nenhum sinal dos filhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A polícia foi encontrar os dois abraçados e apavorados, aos pés de uma árvore no meio do mato. Havia sangue materno em suas roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Unidos na data da morte, marido e esposa permaneceriam juntos após o desfecho de sua história em comum. Lado a lado no cemitério, as sepulturas com seus nomes iriam se tornar, ironicamente, local de peregrinação de casais e solitários apaixonados, que enxergaram na tragédia familiar o exemplo de um amor que durou até o fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém jamais soube ao certo a razão do crime. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Menores de idade, os irmãos foram levados a diferentes instituições para tratamento. O menino, ao saber que ficaria separado da irmã, enforcou-se com um fio de tomada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O doutor Quintanilha assumiu a guarda da menina, que foi morar com ele depois de receber alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As primeiras flores da primavera começam a despontar na paisagem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina entra em casa. O doutor Quintanilha interrompe a leitura do jornal para vê-la passar pela sala e fechar-se no quarto. Toda vez que ela passa, o suspiro dele a persegue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semelhança entre ela e a mãe jamais deixará de surpreendê-lo. É como se a morte da outra não passasse de sonho, delírio, boato. Como se apenas o marido tivesse morrido, e enfim deixado em paz aqueles que verdadeiramente se amavam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A menina, no entanto, não fala mais. Desde o suicídio do irmão que não pronuncia uma palavra sequer. O doutor Quintanilha cuida dela. Alimenta-a. Coloca-a para dormir. Dá-lhe banho como a uma criança. Suas mãos tremem quando em contato com a pele da enteada. Sua cabeça gira quando a envolve com a toalha, e o perfume dela lhe invade as narinas. Quase embriagado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa dessas ocasiões ele não resiste e comete estupro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Ele vai todas as noites ao quarto da enteada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, amanhece com tosse. Garganta ressecada, febre, amargor na boca. Um amigo, médico como ele, vem visitá-lo e o examina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Gripe. Uma gripe forte. Não tem com que se preocupar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no dia seguinte a tosse piora, e ele perde o movimento das pernas. Desesperado, grita o nome da enteada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi você?”, ele pergunta, com lágrimas nos olhos, quando ela entra no quarto. “Depois de tudo o que fizemos”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tarde demais ele se dá conta de que a mãe e a filha não são a mesma mulher, e que não foi por amor que a segunda o recebeu todas as noites dentro de si.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A enteada fica olhando o doutor Quintanilha morrer. Ele ainda demora, tosse, esbraveja, pede socorro. Ela não se importa. Não tem pressa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seus pensamentos, na verdade, estão longe dali. Estão no filho, que ela sabe que um dia virá para purificar a sua vida. Um filho belo, saudável e seu. E que trará o nome de seu irmão falecido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5882318905723961710?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5882318905723961710/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5882318905723961710&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5882318905723961710'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5882318905723961710'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/04/quando-chamados-as-pressas-pela-mae-o.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6698986711950278465</id><published>2010-04-03T17:54:00.001-03:00</published><updated>2010-04-03T17:54:06.991-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A mulher que arruma o apartamento acabou de perguntar pela segunda vez se eu estou bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca estive bem, e ela nunca perguntou nada. Agora repetiu a mesma frase duas vezes no mesmo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou bem, obrigado. E a senhora, está bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fala algumas coisas que não compreendo. Talvez misture idiomas. Ou invente palavras. É uma mulher esquista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou sentado no sofá enquanto ela limpa a sala. Às vezes deixo-a sozinha trabalhando e vou para a praça. Mas hoje estou com medo de sair e esquecer o caminho de volta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor não vai caminhar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Está com cara de chuva.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chuva? Que chuva? Está um dia lindo de sol lá fora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela então começa a falar as palavras estranhas a que eu respondo com acenos de cabeça, fingindo que entendo tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino até que ponto também ela não apenas finge me compreender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se encontrar pelo de gato por aí, não se espante. A gata dos vizinhos às vezes foge e vem para cá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pelo de gato.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Gato branco. O nome do bicho é Nefertiti. A senhora achou algum pelo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Os gatos são animais asseados. Eles se lavam. A senhora tem cara de quem não gosta de gatos. Acertei?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acertou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não encontrou nenhum pelo de gato na casa, então?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pelo branco, não?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. O senhor vai atender o telefone ou quer que eu atenda?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É verdade, o telefone está tocando e eu nem percebi. Me levanto para atender, imaginando que irei escutar a voz da vizinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não escuto. Do outro lado da linha, além de chiados, ouço uma voz muito distante falando num idioma que não domino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alô?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz desconhecida continua falando e eu não entendo. Então desligo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem era?”, pergunta a mulher da limpeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Trote.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou para o banheiro. Enquanto urino, ouço o telefone tocar de novo. Dessa vez, a mulher da limpeza é quem atende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego a segurar a bexiga, para escutar. E escuto, claramente, ela falando ao telefone com alguém, nesse idioma que não conheço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Termino minha necessidade. Aperto o botão da descarga. Lavo as mãos com sabonete, depois seco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai sair?”, ela pergunta, quando abro a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai para a praça?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finjo que não ouvi, e fecho a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez, não hesito. Bato na porta dos vizinhos. Ninguém, no entanto, atende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A praça deveria servir de refúgio. Não serve. Até aqui sinto medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passa por mim uma criança. Dando aquilo que provavelmente são seus primeiros passos. A mãe a acompanha de perto. Ambas sorriem para mim. O velhinho simpático que observa e retribui o sorriso. Até aqui sinto vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto para casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher da limpeza já foi embora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O demônio que habita o meu ombro foi embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os vizinhos foram embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez seja hora de eu ir, também.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6698986711950278465?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6698986711950278465/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6698986711950278465&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6698986711950278465'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6698986711950278465'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/04/mulher-que-arruma-o-apartamento-acabou.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7474172582947828857</id><published>2010-04-02T18:14:00.001-03:00</published><updated>2010-04-02T18:14:28.679-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Em minha história pouca coisa escapa da sucessão de erros, silêncios e remorsos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que deixei de fazer diz mais de mim do que o efetivamente feito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que fiz, não fiz direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca me senti à vontade com pessoas que falam demais, e sempre fugi de quem fala de menos. Nunca encontrei a beleza num cenário do qual eu fizesse parte. Nunca quis fazer parte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre olhei de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre obedeci.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora me sinto preso a essa falsa liberdade, autenticada num memorando e registrada numa folha de ponto. Estou de férias para fugir. Mas depois das férias devo voltar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sinto fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu escurece. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me quase enxerga quase acerta, e quase erra. Eu sou bem menos do que aparento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou menor do que o diminutivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou aquele que decepciona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me acovardo e termino engolindo a mensagem. O silêncio que fica é de desconforto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou me lembrando de frases e gestos que há quarenta anos deveriam ter sido cometidos e não foram. Ainda hoje me perseguem como moscas em dia quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez eu não saia mais dessa cama. Talvez não deva sair. Talvez não precise sair. Talvez não saiba sair. Talvez jamais tenha saído.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7474172582947828857?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7474172582947828857/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7474172582947828857&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7474172582947828857'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7474172582947828857'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/04/em-minha-historia-pouca-coisa-escapa-da.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7053488103648552957</id><published>2010-04-01T18:41:00.002-03:00</published><updated>2010-04-01T18:41:58.188-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O mau funcionamento de minha mente me preocupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Primeiro, a memória me priva da existência de um dia inteiro. O dia de ontem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Logo de mim, que tão poucos dias tenho pela frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo me lembrar do dia de ontem. Sei apenas que ele existiu porque está no calendário. Mas não sei onde, em minha vida, ele se perdeu. O que fiz ou o que deixei de fazer, talvez só saiba quando as consequências começarem a aparecer na minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E segundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, como sempre faço, acordei às seis da manhã. Cumpri todas as tarefas de minha rotina diária e saí. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do ônibus, o desinteresse pela paisagem me fez fechar os olhos e acomodar a cabeça no encosto do banco. Quando começava a relaxar, a lembrança me atingiu como uma lança com a ponta em chamas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu estou de férias”, pensei. “Não deveria estar nesse ônibus.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saltei, atravessei a pista e peguei o ônibus de volta. Praguejando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sair do elevador, pensei em procurar os vizinhos. Cheguei a ficar diante de sua porta. Mas voltei para o meu apartamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje passei o dia à espera de notícias. E as notícias me deixaram esperando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7053488103648552957?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7053488103648552957/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7053488103648552957&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7053488103648552957'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7053488103648552957'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/04/o-mau-funcionamento-de-minha-mente-me.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5157812221092721016</id><published>2010-03-30T21:10:00.001-03:00</published><updated>2010-03-30T21:10:05.841-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Trovões me acordaram durante a madrugada. Choveu a noite toda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São seis da manhã. O despertador está tocando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O quarto parece diferente. Como se, na minha ausência, alguém tivesse mudado a disposição dos móveis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não lembro, na verdade, de como era a arrumação original. É apenas impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o banho, ouço vozes vindas da sala. Chego a fechar a torneira do chuveiro para tentar ouvir melhor. Outra impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma coisa me lembra de que deveria ter tomado um medicamento. Mas não consigo lembrar qual, nem para quê, e a coisa acaba não passando disso mesmo. Coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei tossindo. Hoje o dia está mesmo muito estranho. Saio de casa desconfiado de ter esquecido algo, ou tudo. Bêbado sem ter bebido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora à noite, enquanto escrevo essas linhas, não sei a utilidade delas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5157812221092721016?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5157812221092721016/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5157812221092721016&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5157812221092721016'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5157812221092721016'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/trovoes-me-acordaram-durante-madrugada.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4459840532576432972</id><published>2010-03-29T21:13:00.000-03:00</published><updated>2010-03-29T21:13:02.397-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>“Quando somos jovens nós protagonizamos as cenas de amor. Depois de velhos, só assistimos o amor que os jovens fazem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você prefere fazer amor comigo ou assistir enquanto outro faz?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O despertador me tira do sonho antes que eu consiga responder. E antes que eu descubra quem estava fazendo a pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São seis da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que o chuveiro me espera. Nos próximos vinte minutos, isso é toda a informação que conseguirei armazenar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A água caindo na cara vai me fazendo recuperar a consciência. Ainda não me lembro do sonho. Vou lembrar no decorrer do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá vem o ônibus. Faço sinal com o braço estendido. Ele para e eu entro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você toma cuidado, rapaz”, o cobrador avisa ao motorista, depois que eu sento. “O fiscal vai acabar descobrindo o que você está fazendo com a mulher dele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fala baixo, Argemiro”, briga o motorista. “Vai que tem algum passageiro aqui que é parente do cara.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei por que o cobrador Argemiro olha diretamente para mim, depois da bronca do motorista. Devo ser parecido com o fiscal traído. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço no centro do Rio com o sol na cabeça e caminho devagar. Se eu caminhar bem devagar, talvez dê sorte e não chegue no meu destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a empresa surge logo adiante. Me espera sorridente, debochando da trapaça mal-sucedida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É no elevador que começo a lembrar o que sonhei durante a noite. Havia uma mulher me perguntando algo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico tentando puxar pela memória enquanto o computador inicia. Lembro de uma rua. Mas não me lembro de ter pisado nela em algum momento de minha vida. Uma rua de sonho. Desconhecida. Com chão de terra batida. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às nove horas os colegas vão chegando. Sou então informado de que na próxima quarta-feira, dia 31, haverá um almoço de páscoa na empresa. Sou praticamente intimado a participar, com dinheiro ou comida ou bebida. Contribuo com dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De uma casa na rua por onde eu passava no sonho, saía uma mulher. Carregava uma caixa grande, de papelão, que parecia pesada. Gentilmente abri o portão da casa, para que passasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na empresa, hoje, o assunto é um só. Mulheres e homens que gostam de cozinhar falam de pratos, salgados e doces. Organizam a lista de quem vai trazer o quê. O meu nome, como sempre, está escrito errado, mas deixo assim mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntam-me novamente se estou animado para as férias. Faço de conta que estou, e respondo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso ajudar?”, perguntei, no sonho, à mulher com a caixa de papelão. “Não quer que eu carregue para você?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me entregou a caixa. Só de olhar, não me pareceu que fosse tão pesada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigada”, ela disse, agora com as mãos livres. “Estou indo jogar isso fora. Está cheio de entulho do meu marido.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora que vou me lembrando do sonho é que me dou conta de que sonhei com a personagem do conto que escrevi ontem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei pra que ele guarda tanta tralha”, ela continuou. “O senhor não faz idéia do lixo que tem aqui dentro. Até o esqueleto de um rato dentro de um vidro. É nojento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deve ter algum valor para ele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Valor nada. Aposto que ele nem lembra que tem isso. Vai juntando lixo desde garoto e guardando aí dentro. Aposto que o senhor não tem dessas bobagens.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tenho bobagens piores, minha filha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desculpe a intimidade, mas o senhor não parece ser desses velhos cheios de manias.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que isso foi um elogio. Muito obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor tem olhos carinhosos. Aparenta ser um homem sensível. Tive essa impressão quando veio abrir o portão para mim. Esse é um homem que se emociona com cenas de amor, pensei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Atualmente é só o que me resta. Quando somos jovens nós protagonizamos as cenas de amor. Depois de velhos, só assistimos o amor que os jovens fazem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você prefere fazer amor comigo ou assistir enquanto outro faz?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico imaginando o que viria a seguir, caso o despertador não tocasse. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Volto para casa dentro de uma bolha quase sólida de exaustão e desânimo. O chão do Rio de Janeiro parece que se inclinou, e toda rua em que piso é uma ladeira que subo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4459840532576432972?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4459840532576432972/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4459840532576432972&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4459840532576432972'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4459840532576432972'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/quando-somos-jovens-nos-protagonizamos.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5788645189806865119</id><published>2010-03-28T19:10:00.003-03:00</published><updated>2010-03-28T19:14:19.109-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Puxou a cadeira para a varanda e sentou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai chover”, disse a esposa. “Traz isso pra dentro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estava bravo. Não queria conversa com a mulher. Se ele queria pegar chuva, ia pegar chuva. Era problema dele. Ela que não se metesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que mania. Tudo tem que dar pitaco. Velha intrometida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinquenta anos juntos. Dois filhos já crescidos, com suas próprias vidas. Uma história inteira nas costas, cujos capítulos ele está esquecendo a cada aniversário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, do nada ele lembrou de um desses capítulos. E aborreceu-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembrou que, há vinte e oito anos, ela jogou fora a caixa de quinquilharias que ele guardava no quartinho dos fundos. Havia todo tipo de coisa ali. Pedaços de papel com alguma anotação, uma válvula, moedas antigas, um fio de telefone, parafusos, sementes, coisas secas, uma ferradura, um relógio quebrado. Havia mais. Tudo numa caixa grande de papelão, que durante uma arrumação no quartinho foi parar no lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora, ela não entendeu a fúria dele, ao saber do fim da caixa. Para ela não passava de entulho. Brigaram. Depois, quando percebeu o valor que o entulho tinha para ele, veio pedir-lhe desculpas. Ofereceu-se para falar com o lixeiro e tentar reaver a caixa. Ele ficou emburrado durante quinze dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora lembrou da caixa e emburrou de novo. A mulher nem sabe o motivo da irritação, mas já conhece o marido que tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele fica sentado na cadeira que colocou na varanda. Fica olhando as nuvens escuras. Logo cobrirão o sol. O cachorro, que estava no quintal, veio deitar-se a seus pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um pouco mais nova que ele, a vizinha viúva aparece no portão. Vem fazer uma visita. Pergunta pela esposa, como se não soubesse que ela está em casa. Não tem nem meia hora que as duas conversaram. Ele manda ela entrar, diz que a esposa deve estar na cozinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vem chuva por aí”, a vizinha diz, quando passa por ele com seu sorriso banguela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No passado, marido ainda vivo, ela vivia a atentá-lo. De todo jeito provocava. Era só a esposa se afastar que ela vinha elogiar o corpo dele, se abaixava, cruzava as pernas mostrando as coxas. E quando descruzava era bem devagar, para deixar a calcinha à mostra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o marido virou falecido, então, aquilo se tornou um inferno. A convite da esposa, a vizinha vivia em sua casa. Praticamente se mudara para lá. A roupa até podia ser de luto, o discurso até podia ser de tristeza. Mas a calcinha agora era vermelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, no entanto, sempre se comportou de maneira exemplar. Orgulhava-se disso. Jamais trocou intimidade com ela ou com qualquer outra mulher. Mesmo quando passou a desconfiar de que a esposa incentivava a pulada da cerca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi na noite de um evento festivo em casa de amigos. Por sugestão da esposa, a vizinha iria acompanhando o casal. As duas inclusive se preparariam juntas, com a desculpa de que a esposa tinha bom gosto com roupas. Ficaram mais de uma hora trancadas no quarto, experimentando vestidos, enquanto ele esperava na sala. Durante a festa parecia que ele tinha mais de uma esposa, de tão agarradas estavam as duas a seu braço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele em nenhum momento viu no rosto da mulher qualquer sinal de ciúme ou desconforto. Pelo contrário. A mulher, sem deixar o comportamento reservado que era de seu costume, exibia um brilho incomum nos olhos. Chegou mesmo a deixá-lo a sós com a vizinha, recusando delicadamente a companhia dela para ir ao banheiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, já na cama, enquanto falavam da festa que acabaram de deixar, ela comentou a beleza da vizinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está muito bonita para a idade dela, você não acha?” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Trocamos de roupa juntas. Aqui nesse quarto. Ela ficou nua na frente do espelho do armário. Está com os seios bem firmes, tem os quadris largos. A cintura fina. Você nunca reparou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É do tipo que agrada bastante os homens.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não respondeu. Quando apagou a luz, a esposa veio procurá-lo colocando a mão dentro da calça do pijama. Ficou apertando carinhosamente até endurecer e ele subir em cima dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fizeram amor. Ela estava diferente. Mais ofegante. Mais ruidosa. Mexendo-se mais com o corpo. Ele não quis saber a razão. Quando terminaram, ele deu-lhe um beijo de boa noite e ela ajeitou-se em seu peito para dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso ainda iria durar. A partir daí, qualquer bobagem era razão para a vizinha vir trocar-se em sua casa. Não tardou para que, ao passar pelo quarto cuja porta estava aberta, flagrasse-a nua. Viu-a de costas. E, embora ela também o tivesse visto, pelo reflexo, não demonstrou surpresa. Nem tentou cobrir-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela só o deixou em paz quando conheceu outro e enamorou-se. As visitas foram se tornando mais esporádicas, e ela voltara a se trocar em casa. No entanto, o que para ele foi motivo de alívio, a esposa viu como razão para um sutil, muito sutil, recolhimento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está diferente”, ele comentou na ocasião. “Aconteceu alguma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já estava acostumada com a presença dela. Alegrava a casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, a vizinha se tornou uma velha desdentada. E ele, um velho rabugento e desmemoriado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um trovão soa bem longe. A tempestade ainda demora. A esposa, no entanto, veio para a varanda chamá-lo para dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha. Trovão. Vem pra dentro, homem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A seus pés, o cachorro levanta a cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se quiser, pode ir com ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cachorro olha para ele com as orelhas levantadas. Então baixa a cabeça de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teve pelo menos uns vinte cachorros. Mais. Uns trinta. Quarenta, até. Desde criança ele vem pegando, alimentando e cuidando deles. Acompanhando quando nascem, crescem, se reproduzem, envelhecem e então morrem. O mesmo valendo para os filhotes. Esse que está com ele provavelmente será seu último.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cai o primeiro pingo de chuva. Ele sente, atingiu-lhe a testa. Logo vem mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Começou a chuva”, diz a esposa. “Vem pra dentro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não responde, nem se mexe. O cachorro também não sai dali. Quando a chuva engrossa, ele manda o bicho para dentro, mas não sai da cadeira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vem pra dentro”, a mulher repete, já preocupada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chove forte, agora. Ele se levanta, mas não caminha em direção à porta de casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está doido, homem”, ela grita. “Volta pra casa, pelo amor de Deus.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele vai para o meio do quintal, na chuva. Sente que o coração acelerou. Fica em pé, parado, e abre os braços. A mulher olha sem entender. Não sabe se vai buscá-lo ou não. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Molhado dos pés à cabeça, os braços abertos, ele fecha os olhos.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5788645189806865119?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5788645189806865119/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5788645189806865119&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5788645189806865119'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5788645189806865119'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/puxou-cadeira-para-calcada-e-sentou.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4753317494592862036</id><published>2010-03-27T22:48:00.002-03:00</published><updated>2010-03-27T22:48:13.845-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Impasse. Sinto cansaço em cada osso do corpo. Mas não consigo ficar deitado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou até a porta dos vizinhos e aperto o botão da campainha. Ninguém atende. Volto para casa, troco os chinelos pelos sapatos e saio de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A rua está ensolarada e tranquila. Ando devagar em direção à praça e me sento num banco vazio. Um velhinho, mais velho do que eu, aparece logo depois e senta-se ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um belo dia”, ele diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É verdade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desses que a gente olha e não entende como é que pode acontecer alguma coisa ruim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor tem razão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nessas horas eu daria tudo para ter minha juventude de volta. Só para poder cortejar uma mocinha como aquela perto daquelas crianças. Está vendo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aquela jovem mãezinha ali, de vestido estampado. Perninhas de fora. Está vendo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou vendo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, o que eu não faria com ela. Levava ela e o filho para minha casa, deixava o menino brincando na sala e me trancava com ela no quarto. Ficava comendo o dia todo, até ela dizer que está na hora de ir embora porque o marido deve estar chegando do trabalho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor tem uma imaginação bastante fértil.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não é imaginação, meu caro. É experiência. Cansei de fazer isso quando era mais novo. Algumas até deixavam a calcinha lá em casa. Na verdade, não tem tipo de mulher que me atraia mais do que essas jovens mãezinhas. É tara, compreende isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu venderia a minha alma só para poder levar aquela mãezinha ali para o meu apartamento agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não respondo. Fico tentando entender por que ele está me dizendo essas coisas. Carência, talvez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o senhor? Não há nada que deseje tanto, a ponto de vender a própria alma?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que agora entendi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Não creio que minha alma esteja valendo grande coisa. Não conseguiria um bom preço por ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aproveito enquanto o velhinho está dando uma gargalhada para me levantar e dizer que preciso ir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se despede ainda rindo e continua olhando a jovem mãezinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A certa distância paro junto a uma árvore e me volto na direção do banco onde estava sentado. O velhinho continua lá, só que não está sozinho. Outro senhor, de mesma idade, vem sentar-se a seu lado. Vejo que conversam alguma coisa. Então levantam-se, juntos, e vão embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pressentimento ruim me faz segui-los. Atravesso a rua depois deles e finjo falar com alguém no orelhão, quando param diante de um prédio de quatro andares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O segundo senhor, no entanto, diz alguma coisa ao primeiro e se afasta. Vem em minha direção, deixando o outro à espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Finjo que estou falando ao telefone. Mas não adianta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor procura alguma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olha nos meus olhos. Fala com calma, mas traz a seriedade de um juiz. Me conhece. Me deixa tão intimidado que não consigo dizer nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se não procura, volte para casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desculpe”, é tudo o que consigo dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele vira-me as costas e retorna para a porta do prédio. Os dois entram. Eu atravesso a rua de volta. Me sinto covarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sento de novo no banco da praça. Sensação de não ter casa para voltar. Do orelhão até aqui, foram pelo menos dez anos somados à minha idade. Poderia acabar aqui mesmo. Não faria diferença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto lamento minha velhice, minha covardia e minha impotência, não percebo que o velhinho, o primeiro, retornou à praça. Quando me dou conta, ele está a alguns metros à minha frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Está conversando e trocando sorrisos com a jovem mãezinha por quem, há menos de uma hora atrás, revelou-me aquilo que classificou como tara. Estão sentados num banco, perto dos brinquedos e das crianças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois conversam como amigos de longa data. Ele toca-lhe os braços enquanto fala. Olha diretamente para as pernas cruzadas. Quando penso que ficará nisso, vejo-a chamar o filho e levantar-se. Ele também se levanta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do banco vejo os três, homem, mulher e criança, indo embora juntos. Na mesma direção de onde está o prédio de quatro andares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chega. Volto para casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deveria ter saído, não deveria ter acordado. Enterro-me na cama e, de olhos fechados, enxergo o apartamento para onde o velho levou mãe e filho. Enxergo o menino brincando na sala. Nem desconfia, coitado, o que acontece dentro do quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aperto os olhos na esperança de fugir de um pesadelo e acabo enxergando os dois na cama. Tal qual me foi descrito. O velho satisfazendo a sua tara na jovem mãezinha. Assim ficarão durante toda a tarde, até que ela diga que tem de ir embora por causa do marido. Provavelmente ele não permitirá que ela leve a calcinha. Aquela tarde custou-lhe a própria alma. Vai querer desfrutar tudo o que tiver direito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino se valerá a pena depois que ela for embora. No que ele pensará quando, estirado satisfeito na cama, ouvir na porta as batidas anunciando a chegada da conta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4753317494592862036?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4753317494592862036/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4753317494592862036&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4753317494592862036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4753317494592862036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/impasse.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2292372574343077086</id><published>2010-03-26T19:56:00.002-03:00</published><updated>2010-03-26T19:56:12.218-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da cama para o chuveiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão insiste. Durante o banho acontece. Fico sempre envergonhado depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fazia muito quando adolescente. Sempre sozinho. Sempre inquieto. Tudo era motivo para.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, só foi parar depois dos trinta, com o acidente. Como se essa parte do corpo a morte não tivesse poupado, levando-a e deixando o resto. Do desejo, sobraram apenas divertidas lembranças. Os momentos constrangedores. Os abusos sofridos pela tia, na casa dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você acha a tia bonita, J? E agora? Prefere assim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu preferia assim. Preferia quando, no lugar de mostrar e agir como professora, ela fingia dormir. Eu acreditava na farsa do sono, e subia na cama. Vasculhava-lhe o corpo, aproximava o rosto das cavidades e sentia o perfume. Transpirava como se ardesse em febre. E foi numa tarde dessas, com ela fingindo dormir, que deixei minha virgindade em sua casa. Com todo o cuidado, para que não a acordasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu lembro o seu nome, tia. Não vou repeti-lo aqui, mas eu lembro. Lembro com carinho. Nunca soube se o que você fazia era porque gostava de mim, ou porque eu era a criança que estava ao alcance. Hoje isso não importa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você ainda está viva, isso é o que importa. Está viva e bem, dizem as notícias que me chegam daí nas ocasiões festivas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do espelho, penso o que ela diria se visse no que se transformou o pequeno e inquieto sobrinho para quem foi tão caridosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo o apartamento, a vergonha e a tia para trás. Atravesso a portaria e chego na rua. Mais um belo dia de sol. Daqui a uma semana estarei de férias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro no ônibus agradecendo ao motorista. Passo pela roleta e encontro um lugar na janela para sentar. A jovem que entrou logo atrás de mim senta-se ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segue calada, ouvindo a música que sai do aparelho em sua bolsa e vai diretamente até seus tímpanos através de um fio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficamos combatendo, eu e o sono. Quero estar acordado quando passar um trecho da Avenida Brasil. Ao chegar a hora, vejo os dois ônibus parados no acostamento. Os passageiros do primeiro, que quebrou, entrando no segundo, que parou para recolhê-los. Esse onde estou, o terceiro, segue sem parar, e logo a imagem fica para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há um motivo para que eu veja todas essas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem elas eu não seria nada além de um velho infeliz. Com elas, sou um velho infeliz que graças à esquizofrenia não vai morrer empoeirado num canto da casa. Olhando os filhos e os netos crescerem lhe dispensando a mesma importância que dispensam a um cabide.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou um velho atormentado por demônios que sabe que não vai durar muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço no centro do Rio. Caminho no meio dos fantasmas de carne e osso que, como eu, cumprem uma maldição. Alguém, no alto desses arranha-céus, nos observa e confirma a trajetória igual que se repete diariamente. Entro na empresa. Ou ela em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sensação estranha ao olhar a sala vazia e pensar nas férias. Por um momento me passou a certeza de que não voltarei delas. Levantando-me, vou até o corredor. Perturbo a funcionária da empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É uma boa empresa, a senhora não acha?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A senhora também está aqui há muito tempo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu estou. Estou muito familiarizado com a casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Penso que vou sentir saudade daqui, quando me aposentar. Aprendi muito. Nunca tive nenhum problema. Acompanhei o crescimento tanto da empresa quanto de seus funcionários. Sempre me dei bem com todos. É um bom lugar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando termino de falar, me dou conta de que a funcionária foi embora e me deixou falando sozinho. Vou então até a máquina de café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É uma boa máquina de café. Faz um bom café.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sigo assim pelo corredor, elogiando a impressora, a trituradora de papel, o bebedouro. Quando os colegas começam a chegar, volto para a sala. Observo discretamente cada um deles, sentindo uma inesperada e absurda gratidão por todos. Uma vontade de abraçá-los e agradecer-lhes a paciência, a boa vontade e o fato de compartilharem comigo essa sala, essa empresa e essas horas da vida. Não faço, no entanto, nada disso. No meu canto permaneço, executando meu trabalho em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No restaurante, o sentimento se repete. A mesa no canto, a garçonete que pergunta se eu quero beber alguma coisa, os guardanapos, tudo me comove. Ao pagar, não consigo evitar um elogio à proprietária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Parabéns. A comida daqui é excelente. Muito boa mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto me afasto, ouço-a dizer alguma coisa ao marido que está do lado. Algo como:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não falei que ele está pra morrer? Quem elogia assim é porque sabe que está condenado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O coração vai apertando enquanto avanço pelo centro do Rio. O caos que se incorporou à história dessa região está na minha história também. Há algo de assustadoramente belo nesses rostos aflitos, irritados, atrasados e à beira da exaustão que circulam no meio de palácios e arranha-céus. Isso tudo é paisagem, que a repetição no tempo fixou em minha memória e transformou em algo mais, que só a geografia não explica. Boa ou má, é uma referência que carrego e que não tenho como deixar para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto cheio de melancolia para a empresa. E calor. Enquanto escovo os dentes, um colega entra animado e cantando. Feliz por ser sexta-feira. Quando retorno para a sala, espero o corpo se acostumar com o frio do ar condicionado e retomo o trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“J, você vai deixar saudade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém disse isso. Só imaginei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis da tarde deixo a empresa. Não sinto mais vontade de circular pelo centro. Vou direto para casa. De novo sem apetite. Sento-me para escrever, depois deito na cama e fico assistindo o nada até adormecer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2292372574343077086?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2292372574343077086/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2292372574343077086&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2292372574343077086'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2292372574343077086'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/seis.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2053772337599575935</id><published>2010-03-25T20:05:00.002-03:00</published><updated>2010-03-25T20:05:14.498-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis da manhã. Não aguento mais esse despertador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico na cama esperando que o banheiro venha até mim. Não vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Debaixo do chuveiro, penso nas coisas boas da vida. Depois começo a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto tomo café, imagino que algumas gotas de conhaque na xícara não me farão mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao me vestir, desperdiço alguns minutos diante do espelho sentindo vergonha. Minha pele branca demais. Flácida demais. Assim desmoronam pretensões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou aprendendo a cochilar no ônibus. Hoje aconteceu de novo. E de novo sonhei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que as minhas mãos tremem e estão tão frias?”, uma criança me perguntava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei. Eu nunca tenho respostas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu posso estar doente? Você pode ser a minha doença?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo no instante em que me dou conta de que o menino curioso era eu. Para ter um sonho desses, melhor ficar acordado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém nos fundos do ônibus não para de rir. Um ou outro passageiro olha para trás. Eu olho para os passageiros. Deve ter alguém olhando para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passando pela Avenida Brasil, vejo da janela um ônibus parado no acostamento. Os passageiros estão na calçada, esperando um novo carro que os resgate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus parado é idêntico a este em que me encontro. Que, por sinal, está diminuindo a velocidade. Vai encostar alguns metros à frente. Viro-me no banco para ver os outros passageiros correrem até a porta de trás deste ônibus, que se abre para que entrem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou entre os passageiros resgatados. Alguém cede o lugar para mim, eu agradeço e me sento. Tão absorto que nem reparei que já estava dentro do ônibus. Quando chegamos ao Centro, espero ele descer primeiro. Então vou atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A linha que traça o seu caminhar não é reta. Oscila, como se ele sofresse de labirintite. Ou como se a todo instante procurasse mudar o seu destino e fracassasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele entra na empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu entro logo depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No elevador nos encontramos. Cada um de um lado do espelho. Ele chega bem perto de mim e me analisa. A expressão é de desapontamento. O sentimento é recíproco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vamos nos encontrar de novo diante da tela do computador. Rapidamente, enquanto a máquina não inicia. Depois nos perdemos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um colega vem me perguntar se estou animado com as férias. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Daqui a uma semana você estará em casa, descansando. Não está feliz?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pretende viajar ou vai ficar em casa mesmo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Viajar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mesmo? E para onde vai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Boa pergunta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava de sacanagem com a cara do colega. Acabei ficando pensativo com uma pergunta tão simples.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei. Desculpe, o que você perguntou mesmo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É, J. Dá para ver que você está precisando de férias. Já está se desligando sozinho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou me desligando sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Nunca me senti confortável com pessoas que ficam repetindo a última frase do interlocutor com ares de descoberta. A impressão foi sempre a de vazio disfarçado de profundidade, e agora me vejo fazendo isso. Envelheci e me tornei tudo aquilo de que não gostava quando jovem.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o almoço, uma mulher entra sem qualquer cerimônia no restaurante e, postando-se de pé ao lado de um policial que faz sua refeição, diz em voz alta:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E aí? E aquele nosso problema? Vamos resolver?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O policial fica visivelmente encabulado. Olha ao redor antes de responder à mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso terminar meu almoço, pelo menos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, não. Eu quero agora. Pode ir tirando o rabinho daí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fala baixo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos embora, eu não tenho o dia todo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O policial se levanta e, acompanhado da mulher, vai até o caixa pagar a refeição que nem terminou de comer. Assim que os dois saem, percebe-se um rápido silêncio no restaurante, e logo todos estão comentando o assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mulherzinha danada”, alguém diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que mulher o quê. Não viu que era um travesti?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Era? Nem reparei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E olha que eu conheço aquele policial. É casado e tem dois filhos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com o travesti?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, mas o travesti também é casado e tem dois filhos. Um menino e uma menina. Eu conheço. Ele trabalha naquela escola ali na esquina. Dá aula de inglês para o meu filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O seu filho também é travesti?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele só tem sete anos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, desculpe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No futuro, quem sabe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando termino a refeição, entro na fila para pagar. A dona do restaurante parece cansada. Mesmo assim, atende com um sorriso bem mais espontâneo do que o meu. Pago, me despeço e saio. Quando viro as costas, quase posso ouvi-la dizer ao marido:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Logo perderemos um cliente. Esse velho não dura muito tempo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essa hora, o centro da cidade está quente e cheio de pessoas atormentadas. Passo por uma senhora caminhando lentamente ao redor de um poste e gemendo a expressão “Muito longe... Muito longe...” várias vezes. Algumas pessoas param para olhar. Alguém grita que andar em círculo não leva a lugar nenhum. Outro chama a velha de doida. Mas ela não ouve. Tem uma jornada dolorosa demais para cumprir, e as vozes dentro de sua cabeça certamente falam mais alto do que as que estão fora. Quando saio da empresa, às seis da tarde, passo pelo mesmo poste e não a vejo mais. Saber que vou morrer sem saber o que aconteceu com a pobre senhora deveria me doer. Mas não dói.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro em casa cansado, sem fome e sem ânimo. Vou direto para o meu quarto. Se depender de mim, não saio mais da cama hoje.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2053772337599575935?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2053772337599575935/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2053772337599575935&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2053772337599575935'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2053772337599575935'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/seis-da-manha.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4685315896508061946</id><published>2010-03-24T20:04:00.002-03:00</published><updated>2010-03-24T20:04:40.166-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Uma poça de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gata dos vizinhos morta em minha cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corpos pendurados no teto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo isso me passou pela cabeça, ontem. Tudo isso pensei encontrar, quando abrisse a porta de meu quarto. Nada, no entanto, me causaria mais horror do que a sensação de perda da realidade, experimentada ao entrar em minha casa e retornar à empresa com o único gesto de atravessar uma porta. Só então entendi que a morte é muito pouco. É um presente que não vão me dar tão fácil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trabalhei até as seis da tarde. Refiz todos os passos de volta para casa. A chave na porta eu girei com medo de ir parar novamente no trabalho. Fui direto para o quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa vez, era mesmo o meu quarto depois da porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Liguei para os vizinhos. Ela atendeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você ligou para o meu trabalho hoje à tarde?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por volta de três horas, ligou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não liguei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que aconteceu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada. Nefertiti está aí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Ela sumiu desde ontem. Deve ter ido dar uma volta. Sempre faz isso. Por quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desliguei o telefone. A partir de agora, qualquer coisa seria motivo de preocupação. Nada mais seria apenas “nada”. Antes de dormir, sentei-me para escrever neste diário, uma das raras coisas que me tranquilizava. Esperava estar terminando o dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às três da madrugada acordei. A cabeça doía. Na cama vi que a luz da sala estava acesa, embora eu me lembrasse de tê-la apagado antes de vir deitar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me. Na sala, o caderno onde escrevo estas páginas estava sobre a mesa, como o deixei. Por curiosidade, fui olhar as últimas anotações. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao deitar os olhos sobre o papel, no entanto, senti a cabeça ser atingida por uma dor aguda como se um espinho a atravessasse de lado a lado, e me curvei com o rosto na mesa. Não conseguia tirar os olhos do papel. Na folha, no lugar da narração dos acontecimentos do dia, havia outra coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Palavrões. Morte. Referências vulgares a sexo, violência, dor. O inferno. A manifestação de um desejo doentio. Frases soltas, sem coerência, fora das linhas do papel. Riscos. Desenhos. Expressões que se repetiam, como “a carne da fêmea” ou “a alma que entrego”. Essa última, aparecendo várias vezes. Anotações de uma mente deformada e apavorante, escritas com força suficiente para rasgar a folha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arranquei a página do caderno. Não consegui ler tudo o que havia escrito. Rasguei a folha e joguei-a no lixo. Sentando-me novamente na cadeira, reescrevi tudo o que havia acontecido, obrigando-me a manter a tranquilidade. Precisava de meu diário. Precisava do registro de toda essa insanidade, precisava de algo a que me agarrar para que não afundasse de vez. Já havia perdido tudo o mais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anotei febrilmente, a cabeça alvejada por dores agudas, até terminar. Por via das dúvidas, trouxe o caderno para a cama. Dormi com ele nas mãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Seis horas da manhã. O despertador avisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo ainda abraçado ao caderno. Muito sono, cansaço. Precisando dormir mais. Mesmo assim, abro o caderno ainda deitado, para conferir se o texto é o que penso ter escrito ontem. É.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomo banho esperando que a água realize o milagre de afugentar o sono e o cansaço. Tomo café ainda esperando esse milagre. Me visto, saio de casa e o milagre não vem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez, cochilo no ônibus. Sonho que alguém na rua me pergunta se sou Fulano de Tal, e eu respondo que não sei. Acordo transpirando, apesar de estar num veículo com ar condicionado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço no Centro do Rio debaixo de sol. Entro no prédio da empresa. Agora tudo o que faço é com medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trabalho com medo de estar escrevendo palavrões em documentos oficiais. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Empurro portas sem saber o que virá depois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enlouquecer deve ser isso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o almoço, e durante o restante do expediente, me comporto à base de tremores e olhares assustados. Posso quase ouvir os comentários dos colegas. Devo estar com algum problema. Deve ter acontecido alguma coisa comigo. Posso estar metido com corrupção, mulheres, drogas. O colega apocalíptico deve achar que sei de algo importante sobre o fim do mundo. De fato, sei. Ele já começou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No caminho de volta para casa, vejo um mendigo juntando cuidadosamente gravetos no chão. Olho para a expressão grave, extremamente concentrada, do mendigo. Está encontrando na arrumação dos gravetos uma lógica que ninguém mais vê. Acelero o passo. Fujo desse possível futuro como quem desvia de um precipício.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou relendo cada palavra que escrevo. Não consigo confiar mais em mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, procuro agir como se nada tivesse acontecido. Repito que está tudo bem. O que quer que tenha acontecido ontem, passou. Pelo menos aqui, devo ter sossego. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomado de forte sono, preciso escrever antes. Sento-me à mesa e esforço-me por lembrar o que fiz, o que senti, o que pensei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei mais o que vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há dificuldade para separar o que presenciei e o que sonhei. O que é vigília e o que é pesadelo. O que é sanidade e o que não é. Obrigado a recomeçar várias vezes. Já confundo acontecimentos de hoje com fatos antigos. Não vi a mulher dos pombos hoje. Preciso me concentrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O texto sai suado, truncado. Releio. Parece correto. Fecho o caderno. Na dúvida entre deixá-lo sobre a mesa ou levá-lo para a cama, levo. Espero ter a sorte de dormir como uma pedra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4685315896508061946?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4685315896508061946/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4685315896508061946&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4685315896508061946'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4685315896508061946'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/uma-poca-de-sangue.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7670233108358724818</id><published>2010-03-23T21:14:00.002-03:00</published><updated>2010-03-23T21:14:38.742-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Quando eu me levanto no meio de uma conversa e ajeito alguma coisa irrelevante que está fora do lugar, é porque algo deixou de ser dito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu nunca consegui me abrir com você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não encontro um canto onde possa dizer “é aqui”. Só isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todo lugar me sinto mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do ônibus. Tento não querer a pressa em sair daqui. Mas sinto que há gente me olhando. Sinto desconforto. Não queria ter raiva de ninguém, só porque não tenho um lugar no mundo e todo mundo tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei não”, diz um rapaz ao celular. “Se eu morrer na contramão atrapalhando o tráfego, vão me cobrar direito autoral.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu desço do ônibus. Andar, mais do que ir a um lugar, é deixar outro. Eu nunca vou. Sempre que ando estou fugindo. E se paro é porque estou cercado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na portaria da empresa o cerco começa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No peito um aperto que aumenta. Que vai me empurrando para o canto mais frio da sala. É lá que me encolho. Lá que trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém vê a parede que me cerca. Mas da para sentir o cheiro do tijolo. Eu fico em silêncio e escondo meus gritos debaixo desse sorriso. Quem vê não desconfia que dói tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tanto faz. Não sou mais do que uma matrícula num setor dentro de um edifício. Um número ímpar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“J, sobre aquelas alterações que eu coloquei na sua planilha, você teve alguma dúvida?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só uma. Por que tudo parece ser em vão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando fecho os olhos, demoro mais para abrir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está tudo bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivem de olho em mim. Não querem que eu morra sem avisar. Por isso tanto cuidado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seria muito azar morrer logo aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às três da tarde o telefone toca. É a vizinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você precisa vir para cá. Estão acontecendo coisas estranhas. Na sua casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na minha casa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. Gritos. Pancadas. Mas não é só isso. Nefertiti sumiu. Acho que foi para o seu apartamento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só consigo dar um suspiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está aí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. Estou saindo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me levanto e vou até a sala do diretor. Aviso que preciso ir. Minto que comi algo que me fez mal. Quando me despeço dos colegas do setor, alguns se levantam. Perguntam se está tudo bem. Sempre o medo de não estar por perto na hora em que o velho morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço o elevador cansado só de pensar no que pode estar havendo em minha casa. Espero que seja hoje. Que me matem logo, não aguento mais essa brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminho até o metrô mais rápido do que de costume. Espero na estação o que parece ser uma eternidade pela linha que vai na direção Pavuna. Viajo num vagão sem ar condicionado. Estou transpirando. A cabeça começa a doer. Não consigo pensar em nada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O celular toca. É ela, perguntando se estou longe ainda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No metrô. Estou chegando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou preocupada. Pressentimento ruim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fique tranquila. O meu pressentimento é bom.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda demoro para chegar. O metrô está cada dia pior. Quando deixo o vagão, um rapaz avoado tromba comigo. Me deixa zonzo. Da estação para o edifício onde moro. Cumprimento o porteiro, que talvez estranhe me ver chegar antes da hora. Entro no elevador. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio no meu andar. A Vizinha está no corredor. Me esperava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Venha cá”, ela puxa meu braço. “Ouça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela encosta o ouvido em minha porta e faço o mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não estou ouvindo nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Espere.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero. Então escuto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tem alguém lá dentro?”, pergunto a ela. “Quem está falando?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você consegue entender o que é? Não é português.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento ouvir de novo. De fato, há uma voz masculina. Falando alto, como que proferindo um discurso raivoso. Mas não é português. Talvez latim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nefertiti apareceu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com os diabos, eu vou entrar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor, não faça isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E para que você me chamou? Para ficar ouvindo atrás da porta? Onde está seu marido?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele não quer se envolver. Está com medo. Tentou me proibir de vir para cá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você devia obedecê-lo. Volte para seu apartamento. Eu vou entrar no meu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela fica olhando eu tirar as chaves do bolso, procurar a da porta e abrir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é coragem. Eu apenas não me importo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se afasta quando entro. Trato de fechar a porta atrás de mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento está frio. Se não morrer, certamente vou me resfriar. Não há ninguém na sala. A voz que discursava parou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem está aí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há coisas pelo chão. Livros, objetos. O controle remoto da TV. Uma faca. Um travesseiro. Vou primeiro até a cozinha, que também está vazia. Procuro a gata dos vizinhos. Meu coração está acelerado. Vou até o banheiro. Também vazio. Falta só meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Data vênia!”, digo, achando graça de minha própria traquinagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta do quarto está aberta. Entro lentamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o que vejo me apavora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ué, você voltou?”, o diretor pergunta. “Não estava passando mal?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por alguns instantes olho aturdido o homem sentado à mesa. Não entendo como vim parar aqui. Deveria estar em meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio rapidamente da sala do diretor, pedindo desculpas e esperando com isso sair de meu quarto e retornar à sala do meu apartamento. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a sala para onde retorno é a sala de Fada Sininho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senhor J. O senhor está bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O truque foi bem bolado. Estou enlouquecendo. Eles conseguiram. Volto pelo corredor até a porta do meu setor. Não estou mais no meu apartamento. Nem no edifício onde moro. Minha cabeça dói. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entro no setor em que trabalho, todos se surpreendem por eu não ter ido embora. Limito-me a dizer que já estou melhor. Volto para a minha mesa. Sentado diante do computador, fico à espera de que reinicie para voltar a trabalhar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7670233108358724818?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7670233108358724818/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7670233108358724818&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7670233108358724818'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7670233108358724818'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/quando-eu-me-levanto-no-meio-de-uma.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4298823284769977413</id><published>2010-03-22T21:19:00.001-03:00</published><updated>2010-03-22T21:52:21.548-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Acordo com o despertador avisando que sim, são seis da manhã. É hora de levantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem escrevi que batiam em minha porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que eu ia atender e era premiado. Meu nome havia sido escolhido em sorteio, entre milhares de miseráveis, infelizes, amaldiçoados e solitários do mundo todo que viviam por aí, sem saber o que fazer da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois o meu brinde era justamente uma vida. Uma vida novinha em folha. Livre de desamores, de demônios e da incapacidade de sentir-me bem em qualquer lugar onde ponha os pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para fazer jus a ela, eu só precisaria usar um boné com a propaganda de uma operadora de telefone celular na cabeça o tempo todo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando fui, todo feliz, buscar o brinde, me perdi na rua. As pessoas me atrapalhavam. Uns pediam coisas, outros me davam papel. Todos ao mesmo tempo queriam falar comigo, e eu só queria sair dali para buscar o meu brinde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu mandava as pessoas à merda e tentava passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando enfim cheguei no posto de troca, a funcionária sorridente disse que, infelizmente, eu havia chegado tarde, e o prazo para retirar a minha nova vida havia expirado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas que, se eu quisesse, ela poderia fazer uma promoção com um plano de não sei quantos minutos que eu não poderia resistir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu voltava então para casa, amuado e com a minha vida velha. Sentava numa cadeira, descascava uma laranja e ficava chupando-a.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Achei melhor jogar esse texto fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A caminho do trabalho, a viagem é interrompida por um defeito no ônibus. Passageiros, motorista e cobrador, somos todos obrigados a descer antes de nosso destino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Difícil não lembrar, ao ver essas pessoas imóveis, voltadas para a mesma direção junto ao veículo avariado, daquela série de TV. Como náufragos perdidos numa ilha, aguardamos o resgate.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Daqui a pouco chega outro carro”, são as palavras de esperança do motorista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estamos em plena Avenida Brasil. O trânsito passa furioso por nós, deixando a sensação de que ficamos para trás em algum tipo demente de disputa, sem motivo nem premiação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhamos um para o outro. Só agora nos damos conta de que somos da mesma espécie. A espécie dos que ficaram para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados os instantes de insatisfação e desânimo, começa a fase da aproximação entre os passageiros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você também vai para o Centro?”, pergunta um jovem de cabelo arrepiado para uma moça de óculos escuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já deveria estar lá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As coisas não acontecem por acaso. Se paramos aqui, é porque alguma razão existe para isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só se for para perdermos mais tempo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Devemos aprender a aprender com o imprevisto. A expandir o nosso olhar para essas quebras que a vida coloca no nosso dia-a-dia. Fazendo isso, iremos sempre descobrir coisas insuspeitadas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, dá licença. Não é hora pra papo de doidão não. Me desculpa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Discretamente fico observando a moça de óculos escuros afastar-se do rapaz. Pelo visto, ela também tem a vida regulada pelas horas. Pelo visto, ele não tem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca gostei de óculos escuros. Sua principal função é tornar antipático aquele que o usa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maioria dos passageiros fala ao celular. Explicam o atraso. Xingam. Que graça tem se perder, se o celular existe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Segura eles aí que eu já tô chegando, pôrra. Não deixa eles saírem. Tranca a porta, tira a roupa, faz o que for. Te vira. Mas não deixa eles saírem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei, eu tô aqui há mais de uma hora. Tô na Avenida Brasil. Tá o maior calor, tô toda suada, tô de saco cheio. Ninguém merece.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A espera termina logo. Não durou nem quinze minutos. Logo surge outro ônibus e entramos todos pela porta de trás. Menos o rapaz de cabelo arrepiado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou ficar por aqui”, ele diz, sorrindo e olhando ao redor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da janela, enquanto o ônibus se afasta, ainda vejo-o caminhando sem direção pela calçada. Provavelmente explorando a ilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Chego no trabalho com alguns minutos de atraso. Ainda assim, fui o primeiro no setor. Enquanto espero que o computador inicie, vou separando a papelada de hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora não estou mais sozinho no setor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4298823284769977413?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4298823284769977413/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4298823284769977413&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4298823284769977413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4298823284769977413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/acordo-com-o-despertador-avisando-que.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-1580720161648174970</id><published>2010-03-21T18:56:00.002-03:00</published><updated>2010-03-21T18:56:11.901-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ele caiu e ficou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia ninguém em casa para levantá-lo. Então continuou beijando o chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a filha chegou com o marido, e viu o pai naquele estado, gritou. Foram acudi-lo. Colocaram-no na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que o senhor estava fazendo no chão frio, papai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não pode ser minha filha. O meu sêmen não pode ter gerado uma mulher tão burra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O genro sempre achava graça de tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esse velho é uma piada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha só pensava nos afazeres da casa. Se olhava para um quadro, não via a pintura, as cores, os traços. Só via a poeira que não foi retirada corretamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dona Aparecida não veio ficar com o senhor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, ela desapareceu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esse velho é uma figura.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casamento da filha não durou nem seis meses. O marido largou-a para ficar com outra. Depois disso ela já apareceu com uns três namorados diferentes. Nenhum deu certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que não dou certo, papai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porque você é burra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não fale assim comigo, papai.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porque você é burrinha, meu amor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela queria não gostar tanto de homem. Tentou ficar sozinha várias vezes, mas não conseguia. Se aparecia um cavalheiro mais insistente, não precisava nem ser bonito, ela acabava cedendo. Depois chorava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai sabia de tudo. Mesmo do que ela não contava. Às vezes, quando carente, ela vinha deitar a cabeça em seu peito, na cama. Ele então fechava os olhos, e a filha mulher voltava a ser a filha criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só tenho você, papai.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem manda ser burra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Papai!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Burrinha, meu amor. Burrinha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, bom.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram assim sempre. Viviam no morde e assopra. A mordida dele era destratá-la. A dela, abandoná-lo quando arrumava namorado. Depois aparecia chorando e voltava criança para o peito dele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dia, finalmente, ela casou de novo.&amp;nbsp; Namorou dois meses com um cachaceiro e ele a pediu em casamento. O pai não gostou do novo genro. Detestou. Achou-o abusado. O sujeito falava alto, arrotava e andava pelado pela casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E é cachaceiro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não diga isso, papai. Ele é um homem bom.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O cheiro de pinga chega até aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela defendia, mas era verdade. Aquele marido novo gostava de entornar. E quando entornava partia para cima dela como um bicho e a cobria onde estivesse. Do quarto, o pai ouvia os gemidos que viravam gritos e mandava os dois pararem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Essa casa ainda é minha”, gritava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes, de tanto gritar ele começava a tossir. Ela ouvia, e tentava fazer com que o marido desengatasse das suas costas para ir ver o pai. Mas o marido não largava dela, só tirava depois de satisfeito. Quando terminava, lá ia ela, toda amarrotada, com o gozo dele ainda escorrendo pelas pernas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Papai, papai, o que o senhor tem, papai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu aqui morrendo e você na pouca vergonha com o cachaceiro. Devia se dar o respeito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tô ouvindo”, avisava o genro, sentado no sofá da sala com a garrafa na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o cachaceiro começou a roubar as coisas da casa, a filha fez vista grossa. Foi deixando, até que a situação ficou insuportável. Ela então mandou o cachaceiro embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá me dispensando?”, ele gritou. “Você é minha mulher.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cama o pai ouviu a discussão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai embora”, se meteu. “Cachaceiro e ladrão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cala a boca, velho. Ou eu vou até aí e te dou uma porrada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tentando fazer com que o cachaceiro saísse, ela só conseguiu deixá-lo mais irritado. O pai ouviu o estalo da mão do genro na cara da filha, seguido do gritinho dela, e tentou levantar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deixa a minha filha! Cachorro. Vem bater num homem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um safanão o cachaceiro atirou longe a filha e foi até o quarto do sogro. Encontrou o velho caído no chão, tentando se arrastar para algum lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cachaceiro começou a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu podia pisar na tua cabeça agora, velho”, gargalhou. “Vou fazer coisa melhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O genro trouxe a filha à força até o quarto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha pra cá, velho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arriou as calças dela e botou-a apoiada na cama do pai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deixa minha filha”, a voz do velho mal saía da boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, velho, olha o que eu tô fazendo. Olha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A filha gritou e esperneou até calar-se. Com a bebida e a platéia involuntária, o cachaceiro terminou logo. Saiu cambaleando e rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mais tarde eu volto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a filha ouviu o bater da porta de saída, se arrumou como pôde e ajudou o pai a levantar e voltar para a cama. O velho não falava. De olhos fechados, estava ofegante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fala comigo, papai”, ela pediu. “Me chama de burra. Pode chamar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele voltou a respirar direito depois que tomou o remédio. Ela então correu para se lavar, e, depois, com um grosso pedaço de cano na mão, ficou esperando que o cachaceiro voltasse para matá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não voltou naquela noite. Nem no dia seguinte. Não voltou mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pai parou de chamá-la de burra. Vivia triste, com vergonha. Um mês depois teve um derrame. Ficou com um lado inteiro do corpo, dos pés até a cabeça, paralisado. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes ele arregalava os olhos, mas não conseguia falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico não lhe deu nem duas semanas de vida. Errou. O velho ainda viveu um mês. A filha o encontrou morto na cama, ao voltar do trabalho. Antes de começar a chorar ela o penteou. Ajeitou-lhe o pijama e o lençol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas a boca dele, entortada de um lado por causa do derrame, obrigava-o a sorrir mesmo depois de morto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Sozinha depois da perda do pai, a filha arrumou um segundo emprego, noturno. Vive cansada. Emagreceu muito. Mas se orgulha em dizer a si mesma que já tem um ano e meio que não é tocada por homem nenhum. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um senhor da vizinhança, viúvo e solitário, já a pediu em casamento. Ela recusou. Quando ouve gracejos na rua estremece, mas resiste. Nos finais de semana que não trabalha fica em casa, procurando onde tem poeira para limpar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sente muita falta do pai.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-1580720161648174970?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/1580720161648174970/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=1580720161648174970&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1580720161648174970'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1580720161648174970'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/ele-caiu-e-ficou.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-3672366371365752094</id><published>2010-03-20T18:44:00.002-03:00</published><updated>2010-03-20T18:44:32.956-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>“Meu Deus, achei que você não fosse voltar mais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou novamente no apartamento dos vizinhos. Mas não vim para cá. Não sei como vim parar aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que aconteceu?”, pergunto. “Como cheguei aqui?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se lembra de nada?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Não lembro. Eu fui para casa. Lembro do grito. Eu fui olhar. A porta do quarto. A porta do quarto estava fechada. Eu entrei. Não lembro de mais nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo grande preocupação nas faces do Marido e da Esposa. Estou deitado na cama deles. Sem entender nada. Ela então começa a explicar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Depois do grito, você ontem entrou no seu apartamento e deixou a porta aberta. Nós ficamos do lado de fora, esperando. Como você não retornava, nem respondia nossos chamados, eu entrei também. Encontrei você no seu quarto, em pé. Completamente imóvel, com os olhos vidrados.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu passei a noite aqui? Não, eu não posso dar esse trabalho a vocês.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento me levantar. Eles não deixam. Começo então a desfiar um rosário de reclamações e lamentações que culminam num pranto vergonhoso. Ambos tentam me consolar, o que só aumenta a minha vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tratam-me como a um bebê. Levam-me para a cozinha e me alimentam. Fico à espera da batidinha nas costas para arrotar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não pode voltar para casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É minha casa. Preciso voltar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É perigoso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É minha casa. É minha casa. Se é para morrer, que seja lá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se trata de morrer. Não acaba aí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela então começa a falar de alma. E do que pode acontecer com a minha. Finjo que escuto. Mas ignoro tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao meio dia retorno para o meu apartamento. Deixei a porta aberta. Depois de andar por cada cômodo, retorno para fechá-la. O casal está na porta, me esperando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está tudo bem”, digo. “Podem ir para sua casa. Obrigado por tudo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não está tudo bem. No meu quarto há uma figura conhecida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você deveria ouvir os conselhos que estão lhe dando”, diz o pequeno demônio que habita o meu ombro. “Não faz ideia de onde está se metendo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Achei que você tivesse sido substituído. Um colega seu andou aparecendo por aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acredite em mim quando digo que, perto dele, sou quase um anjo. Você não vai querer conhecê-lo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que eu fiz para vocês me perseguirem desse jeito?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai ficar pior.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode me adiantar alguma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso. Você vai morrer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminho até a janela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está fazendo um dia bonito lá fora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não fala mais. Emudeceu de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hoje é o primeiro dia do outono, não é?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Viro-me para ele, mas vejo que estou sozinho no quarto. Não sei por que – não devia –, mas acabo sentindo saudade dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O aviso que deixou tinha todo o jeito de despedida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Está um dia bonito. Aproveito o sol e vou até a praça. Sento-me no banco de sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A paz que o dia inspira chega até mim com deformidades. Como se, ao longe, um exército aguardasse apenas a ordem do comandante, para destruir essa cidade que respira diante de meus olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino se a despedida do pequeno demônio em meu ombro não seria, na verdade, uma despedida minha. Se não haveria um fim, do qual estou mais próximo a cada virada do calendário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Morrer não amedronta. Mas angustia. Não levo uma vida feliz. Mas essa possibilidade concreta, e repentina, de perdê-la não é o que esperava. Nem sei se esperava alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As costas doem e tenho de me ajeitar no banco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-me terrivelmente conformado. É o que mais me entristece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mim, ficaria aqui sentado, esperando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sinto medo, não sinto raiva, não sinto fome. Estou acabando vagarosamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher dos pombos está na praça. Vários a rodeiam, enquanto ela lhes dá comida. Se atropelam e pisoteiam, para pegar a ração que ela joga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me vê olhando para ela. Então sorri. Eu retribuo o sorriso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Estou dentro do elevador. Subindo em direção à minha casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero sentar e escrever até dormir. Não há mais nada que me interesse muito. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Giro a chave na fechadura e a porta se abre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou entrando. Se vão me matar, aproveitem agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao redor só há silêncio. Talvez tenha ganho esse dia. Sento-me então à mesa da sala e abro o caderno que já estava à minha espera. Escrevo primeiro no papel, depois é que passo para o computador. Sempre foi assim. Tiro a tampa da caneta e começo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu Deus, achei que você não fosse voltar mais.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-3672366371365752094?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/3672366371365752094/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=3672366371365752094&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3672366371365752094'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3672366371365752094'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/meu-deus-achei-que-voce-nao-fosse.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2781155229309826844</id><published>2010-03-19T22:45:00.001-03:00</published><updated>2010-03-20T18:32:40.507-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O despertador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hora de começar a repetir tudo o que fiz ontem, e nos dias anteriores desde uma data de que não me recordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hora de sentir o gosto de uma areia que não sei por que mastiguei enquanto dormia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hora de tentar limpar, sob o chuveiro, uma mancha que não sai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hora de tomar café, de escovar os dentes, de me vestir e de deixar o apartamento para os demônios tomarem conta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hora de descer o elevador e tomar o ônibus para o mesmo lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma hora para tudo o que eu faço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas regem a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora é a hora de entrar na empresa. Agora, a de entrar no elevador. A hora de dar bom dia foi um pouco antes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As horas são ao mesmo tempo correntes e mordaças. Às vezes, alfinetes. Estou sentado diante do computador esperando que ele inicie, porque é hora de fazer exatamente isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu quisesse me levantar, sair da sala e ir embora procurar um lugar melhor, as horas diriam não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diriam que não é hora para esse tipo de comportamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Estou almoçando. É hora de sentir fome.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na mesa ao lado, estão um casal e a filha adolescente. Mal acabaram de sentar, a esposa pega o celular e começa a falar com alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O marido já falava ao celular quando sentou. Continua falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por último, a filha tira da mochila rosa um celular da mesma cor. Liga para uma amiguinha e começa a falar também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficam assim, os três, à mesa. Emitindo sons, mas jamais se comunicando entre si. Cada um fechado em sua ligação particular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em pé, a garçonete espera que terminem, para perguntar se desejam beber alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando chega a hora de voltar para o trabalho, eu volto para o trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebo um telefonema às três da tarde. É a vizinha. Quer saber como foi a noite de ontem. Se não houve novas perturbações. Pergunta por que não liguei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo que está tudo bem. Nada com que se preocupar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ao menor sinal de problema”, ela diz, “venha para cá. Por favor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Irei. Obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se fôssemos personagens criados por minha imaginação, seria outro o nosso diálogo. E outra a nossa tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis e quinze da noite, quando deixo a empresa, me dou conta da frequência insistente do número seis em meu cotidiano. Despertar às seis, saída do trabalho às seis. Diria o colega apocalíptico que falta apenas mais um algarismo, para completar o número bíblico da besta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele está lá. É o versículo 18, do capítulo 13 do Apocalipse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Aqui há sabedoria. Aquele que tem entendimento, calcule o número da besta; porque é o número de um homem, e o seu número é seiscentos e sessenta e seis.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico imaginando se esse número fatídico não me acompanha. E, se acompanha, onde estaria o terceiro seis de minha vida. Quando chego em casa ainda estou pensando nessa bobagem. Mas paro de pensar imediatamente, após sentir a temperatura que vem de dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um inexplicável frio. Por causa dele, permaneço onde estou. Não atravesso a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olá?”, eu falo para o interior do apartamento. “Tem alguém aí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como resposta, o apartamento devolve um grito. Um som longo e doloroso. Um lamento quase selvagem. Quase uivo. Não reconheço a voz, nem se é de homem ou de mulher. Parece estar em meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante a porta dos vizinhos se abre. O casal sai de seu apartamento, ambos com expressões assustadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que foi isso?”, ela pergunta. “Que grito é esse?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não fui eu”, respondo, ainda junto à porta, paralisado pelo medo. “Não fui eu quem gritou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro grito, mais longo do que o primeiro. No mesmo instante o casal me chama para o seu apartamento. É mais seguro. Saem dos dois para vir me buscar, e quando me dou conta estamos os três em sua sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que grito foi aquele”, ela pergunta novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não importa”, diz o marido. “Enquanto permanecer lá está tudo bem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas é minha casa”, eu digo. Não posso permitir isso que está acontecendo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um novo grito. Silenciamos os três. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu preciso ir lá. É minha casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois tentam me impedir. No entanto, insisto. Ela pergunta se vai ter que me amarrar para eu deixar de ser teimoso, mas eu já estou saindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois ficam me olhando entrar no apartamento. Cada passo que dou na direção de meu quarto é um grau a menos da temperatura. Estou tremendo de frio. A porta de meu quarto está fechada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem está aí?”, pergunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não ouço resposta. Então empurro a porta e entro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2781155229309826844?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2781155229309826844/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2781155229309826844&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2781155229309826844'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2781155229309826844'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/o-despertador.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7661492813187070557</id><published>2010-03-18T23:33:00.003-03:00</published><updated>2010-03-18T23:36:48.381-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O despertador está tocando. São seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum demônio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Admito que custei a dormir, ontem. Com medo. Qualquer ruído me deixava alerta. Só agora, enquanto tomo banho, me sinto relaxar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me olho no espelho, impossível não lembrar Rubem Braga:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Olho-me no espelho e percebo que estou envelhecendo rápida e definitivamente; com esses cabelos brancos parece que não vou morrer, apenas minha imagem vai-se apagando, vou ficando menos nítido, estou parecendo um desses clichês sempre feitos com fotografias antigas que os jornais publicam de um desaparecido que a família procura em vão.&lt;/i&gt; (de “A traição das elegantes”, Rio de Janeiro, Editora Sabiá, 1969, página 112)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O próprio procurar em vão é um clichê. O procurar sem saber o quê, nem para quê. Dizem que é isso que impulsiona o homem enquanto espécie. Que, se ele não procurasse, não evoluiria. O fogo, o átomo, a lua, só nos são conhecidos porque um dia procuramos por eles. Mas estavam lá o tempo todo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se procuro. O homem que me encara no espelho não parece procurar coisa alguma. Esse aí, com essa cara feia, infeliz e cansada, parece apenas esperar. Se há alguma coisa à sua espera, alguma coisa que esteve o tempo todo em algum lugar esperando ser encontrada, vai continuar assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As coisas que não procuro, mas que de tão repetidas já se incorporaram ao corpo, estão aqui. O ônibus que me leva, a empresa que me engole e vomita, o elevador que me carrega e o metrô que me espreme já equivalem a um braço, uma perna, um sorriso forçado, uma insônia ou uma pontada na coluna. Foram todos incorporados ao meu acervo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ônibus, uma adolescente com uniforme de colegial conversa no celular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei. Minha vida está tão sem sentido que bastaria chover pra me deixar um pouco feliz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Permaneço quieto com meu silêncio. Mas torcendo para que caia uma bela chuva, só para fazer feliz essa criança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes entrar no prédio e dar bom dia é tão doloroso quanto confessar um crime não admitido. Hoje não é o caso. De cabeça baixa atravesso a portaria e deixo que a rotina me guie. Na sala, me sento diante do computador. Até às nove estarei aqui sozinho. É tudo o que sei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha negatividade sempre foi a sua maior queixa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você nunca entendeu por que eu chorava mesmo quando estávamos juntos. Eu nunca expliquei. Eu também não sabia. Eu não me importo em pedir perdão de novo. Não me importo em rezar pela sua felicidade, eu rezo. Ela significa mais do que a minha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que você não se importe por eu ainda pensar tanto em nós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando saio para almoçar, está fazendo sol. Penso na adolescente do ônibus, querendo apenas um pouco de chuva, e de novo lembro de você. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você também adorava chuva. Mulheres em geral gostam. Já ouvi de outras ex-namoradas declarações de amor à chuva e à sensação de liberdade que ela proporciona. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se você gosta, então eu também gosto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Gosta nada. Quando chove, você é o primeiro a fechar a janela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoço e retorno para a empresa com a saudade de você me seguindo de perto. É o mais próximo que consigo chegar da felicidade, lembrar que um dia estivemos juntos. A certeza de não ter vivido em vão vem dessa lembrança. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já pensei em mentir. Em criar nessas páginas uma história para nós. Uma ficção, onde nos reencontramos e descobrimos que o tempo não passou, e que nossas mãos não se desentrelaçaram. Posso fazer isso. Ninguém, além de mim, saberia que não é verdade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não passaria de uma lembrança falsa, mas que o registro e a falta de provas transformariam em realidade. Quem encontrasse esse diário, no futuro, e o lesse, acreditaria que, em algum lugar, existiram esse homem e essa mulher que se amaram, se afastaram e voltaram a se amar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que eu jamais conseguiria descrever a felicidade do protagonista dessa história.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7661492813187070557?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7661492813187070557/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7661492813187070557&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7661492813187070557'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7661492813187070557'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/o-despertador-esta-tocando.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6428806891193992471</id><published>2010-03-17T20:04:00.000-03:00</published><updated>2010-03-17T20:04:00.206-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Quando acordo, dessa vez, não é com o despertador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seis horas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a voz dela. Chego até a acreditar que ainda estou dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou preparar o café.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor. Não precisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela já foi para a cozinha. Enquanto me levanto para acompanhá-la, vou aos poucos percebendo onde estou. Não dormi em casa. Passei a noite no sofá da sala, no apartamento dos vizinhos. Ao meu lado, na poltrona, a gata branca deles ainda dorme. A porta do quarto fechada. O marido deve estar lá. Provavelmente não acordou ainda, como a gata.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deixe-me ajudá-la”, digo quando entro na cozinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não precisa. Sente-se, por favor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Conseguiu dormir?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como uma pedra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela então vira-se para mim. Parece surpresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não foi perturbado pelo barulho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, que barulho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que veio de seu apartamento por quase toda a noite. Pancadas, risadas, gritos. Tem certeza de que não ouviu nada?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não ouvi nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A visão dela e o cheiro de café fazem um bem que já não esperava sentir novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não me lembro a última vez que alguém me serviu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela termina de servir e senta-se à mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você leva uma vida muito solitária.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sempre achei que fosse um fim de vida. Não imaginava que o apagar das luzes fosse tão movimentado. Seu café está maravilhoso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não brinque com isso. Você corre perigo. E, agora, acho que eu e meu marido também.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você se lembra do que aconteceu no sábado? Em meu apartamento?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lembro de tudo. Ainda tenho todas as marcas. Ainda dói em muitos lugares. Você lembra?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não era eu. Aquele não era eu. Desculpe. Preciso ir para casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento me levantar. Ela me impede colocando com delicadeza a mão sobre meu ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vá”, ela diz. “Pode ser perigoso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso tomar banho. Trocar de roupa. Preciso ir trabalhar. É a minha casa. Não posso abandoná-la assim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saio, ela não me acompanha. Até esse exato segundo, eu estava com dúvidas quanto à existência de algum sentido nessa demonstração infantil de coragem. O olhar de preocupação dela, no entanto, está mostrando que agi certo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Giro a chave na porta. Dentro do apartamento, com exceção de uma sensível queda na temperatura, parece tudo normal. Vou até meu quarto, separo a roupa que vestirei para trabalhar e entro no banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Está chovendo. É dentro do ônibus que recordo a noite de ontem, o convite para entrar e lá dormir, após toda a minha narrativa quanto às alucinações e perseguições. Recordo inclusive o abuso de pedir ao casal papel e caneta, revelando a eles a existência deste diário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor está certo”, disse o marido, no momento em que eu escrevia. “Sem a memória, somos qualquer um. Com a memória, eu só posso ser eu, você só pode ser você. É ela que nos distingue como indivíduos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pelo menos”, acrescentei, sem tirar os olhos do papel, “enquanto a insanidade não vem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mesmo com a insanidade. Ainda que corrompida, a memória do insano pertence a ele, penso eu. Mesmo que os fatos de que ela se compõe não concordem com a realidade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso ser insano, e estar a imaginar tudo isso. Os demônios. As visões. As ameaças. Vocês dois, e Nefertite. Isso tudo pode existir apenas em minha imaginação.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então a cura da sua insanidade não nos interessa”, ela brincou, sem sorrir. “Não tenho a menor intenção de encerrar a minha existência só porque as vozes na sua cabeça silenciaram.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trataram-me como um hóspede. Um parente distante e querido, que surge sem avisar para uma visita. Jantamos os três à mesa conversando amenidades. Quando eu tentava chegar perto do tema que me estava apavorando, porém, eles sutilmente o afastavam de mim. Tentavam, conseguindo, me presentear com um pouco de paz. Pelo menos naquela noite. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já deitado no sofá, as luzes apagadas e pronto para dormir, vi que ela se aproximava contra a luz que entrava da janela. Chegou perto de meu rosto e, quase num sussurro, disse:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei que você gostaria que dormíssemos juntos. Mas meu lugar é naquele quarto. Com aquele homem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijou-me então a face e entrou no quarto, fechando a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando a porta do ônibus se abre, desço no centro do Rio e abro o guarda-chuva. Ouço rapidamente, ao passar por um grupo que esperava para atravessar a rua, o diálogo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ontem morreram três. Hoje vão enterrar dois.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o terceiro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo ouvir o que aconteceu com o terceiro. O grupo atravessa a rua e segue seu caminho. Eu continuo com meu passo cansado até avistar a empresa. Dou bom dia para o porteiro. Entro no elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma jornada está começando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6428806891193992471?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6428806891193992471/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6428806891193992471&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6428806891193992471'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6428806891193992471'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/quando-acordo-dessa-vez-nao-e-com-o.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7857345212160112868</id><published>2010-03-16T21:45:00.002-03:00</published><updated>2010-03-16T21:45:32.842-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Foram poucas as horas de sono esta noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E todas infestadas de pesadelos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o despertador anuncia as fatídicas seis horas da manhã, já estou acordado. Após o café, levo os vasos de plantas até a escada, junto à lixeira do prédio. As plantas estão mortas. Os vasos foram tomados por formigas. A terra está cheirando a merda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em todos os lugares parece haver um canto na sombra, de onde me espreitam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo dentro do ônibus. Na face de um ou outro passageiro, não vejo expressão. Vejo sombra. Não sei quanto tempo vou aguentar com esse medo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chego na empresa e ligo o computador, não consigo entrar na internet. Ligo para o setor de informática, mas antes de nove horas ninguém atende o telefone por aqui. Enquanto espero, vou tomar um café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora da limpeza vem andando na minha direção. Tenho certeza de que ela vai dizer alguma coisa apavorante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela então vira as costas e se afasta. Foi só um bom dia, mas foi apavorante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;No setor de Recursos Humanos trabalha a funcionária mais antiga da empresa. Bem mais do que eu. Dona Georgina. Por curiosidade, subo até o sétimo andar e vou procurá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia, Dona Georgina.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia. Em que posso ajudá-lo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tenho uma curiosidade que não sei se a senhora poderia atender.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A senhora tem bastante tempo de casa, é correto?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vinte e seis anos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vinte e seis anos. A senhora possui uma história na empresa. Nada do que se passe por aqui lhe é estranho. Imagino que a senhora sabe o nome de todos os funcionários de cada setor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois é. Não lhe devem faltar, com todo o conhecimento acumulado nessas quase três&amp;nbsp; décadas de serviços prestados à coisa pública, casos ocorridos aqui dentro. Entre essas paredes.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Qual exatamente é a sua dúvida, senhor J?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que eu gostaria de saber, Dona Georgina, se não for muito incômodo, é: a senhora tem conhecimento de algum funcionário, nesta empresa, que, no exercício de seus deveres”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor pode ir direto ao assunto, senhor J?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alguém já morreu aqui dentro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o momento ela não havia piscado. Piscou agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Perdão?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu gostaria de saber se alguém já morreu aqui dentro. Algum dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senhor J, informações pessoais de funcionários só podem ser fornecidas através de&amp;nbsp; memorando. O senhor sabe disso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas, dona Georgina, veja bem. Eu não quero informação sobre nenhum funcionário específico. Só quero saber se houve algum óbito, qualquer um. Não precisa dizer o nome do falecido.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vejo em que essa informação seria interessante na promoção do bem público.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nem eu. Mas, conforme lhe falei, trata-se de uma curiosidade. A senhora não poderia ter a gentileza de satisfazê-la?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dona Georgina leva a pequena, magra e branca mãozinha ao queixo. Está puxando pela memória. Então, pausadamente, começa a falar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um homem foi encontrado morto na escada. Ataque cardíaco. Houve também uma mulher, que faleceu pela mesma razão após ficar presa, sozinha, no elevador. E parece que um operário foi vitimado por um choque elétrico durante uma reforma no edifício. É tudo o que eu sei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nos corredores. Não houve nenhuma morte nos corredores.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não até o momento. Espero que o senhor não esteja pensando em inaugurar essa estatística.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Não, em absoluto. Muito obrigado, dona Georgina. Muito obrigado. A senhora me foi de grande valia. Sou-lhe eternamente grato.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela então abre-se num sorriso, e eu vejo que não é dona Georgina quem está falando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Cuidado com o que diz. A eternidade é bastante tempo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradeço e saio rapidamente da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do computador, passo a desconfiar de todos. Já não sei o que é pior. Estar enlouquecendo ou ser perseguido por demônios. A mão treme quando pego o telefone e ligo para ela. A voz treme quando ela atende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso falar com você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fale.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pessoalmente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pela primeira vez desde que entrei para e empresa, invento uma desculpa e saio mais cedo. Quando entro no metrô é como se tomasse conscientemente um caminho errado. Mas também é como se não houvesse caminho certo. O vagão que avança para dentro do túnel escuro sou eu avançando para o mar de trevas que minha vida se tornou. Se olho para frente ou para trás, é a mesma escuridão que meus olhos encontram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sair do elevador, não é para minha casa que vou. Toco a campainha dos vizinhos. O marido atende. Olha-me de alto a baixo. Não está surpreso em me ver, mas em me ver no estado em que me encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei mais o que fazer”, eu digo a ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entre.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me puxa para dentro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7857345212160112868?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7857345212160112868/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7857345212160112868&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7857345212160112868'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7857345212160112868'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/foram-poucas-as-horas-de-sono-esta.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-3384777071793338053</id><published>2010-03-15T21:39:00.002-03:00</published><updated>2010-03-15T21:39:37.953-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Eu ia morrer no sofá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o aperto no peito abriu as portas de meu organismo para a dor no ombro e no pescoço, e quando, logo depois, os braços ficaram dormentes, meu único pensamento foi um resignado “É agora”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitei-me então no sofá e esperei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sábado. Fazia sol lá fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu procurava respirar fundo e devagar. Procurava ficar tranquilo. Sempre gostei da possibilidade de uma morte tranquila. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telefone começou a tocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não agora”, pensei. “Me deixe morrer em paz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ele não deixou. Insistiu até que eu me levantei para atendê-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E, quando atendi, desligaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Provavelmente recebi um telefonema da morte. E provavelmente foi engano. Bastou recolocar o aparelho na base, que o aperto no peito afrouxou e eu voltei a sentir meus braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradeci. Não sei a quem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Deixei para domingo a tarefa de limpar a sala. Havia trocado no sábado o lençol molhado da cama, mas não tinha forças para o resto. Seria pedir demais de um velho recém quase infartado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À tarde eu estava na janela, olhando atrás do vidro a profusão de relâmpagos, a ventania e a grossa chuva torturando o Rio de Janeiro. Quando liguei a televisão para acompanhar os estragos que o dilúvio estava promovendo na cidade, a luz faltou em boa parte de meu bairro. No escuro, voltei então para a janela e ali fiquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é segunda-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O despertador está tocando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim. Seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou primeiro à janela. Céu nublado. Os últimos dias parecem distantes. Na verdade, não parecem sequer reais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o café, releio pela primeira vez essas páginas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me identifico com esse velho na tela do computador. Quem&amp;nbsp; lê não tem idéia de quão pior é a angústia. Sou muito mais medroso, rochoso, horroroso do que o texto sugere.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interrompo a leitura antes de perder a hora. Me visto e saio. Hoje, precisava de algumas horas de sono a mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cochilo no ônibus. Por sorte, acordo a tempo de descer no Centro. A empresa está em algum lugar por aqui, me esperando. Não posso deixá-la esperar. Caminho até sua boca aberta pensando que abaixo de meus pés há metrô e esgoto. Gente, ferro e detrito. Milton, o jovem poeta que se tornou meu amigo, gostaria dessa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elevador me carrega até o quinto andar e me cospe. Sigo pelo corredor até a porta de minha sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro na sala, ligo o computador. Enquanto o programa inicia, fico olhando o céu cinza na janela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem estava negro, riscado de raios. Ontem era um retrato da destruição. Hoje é a besta aparentemente domada. Até o próximo rompante de violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O colega que entra na sala tem novidades.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Caiu uma árvore em cima do meu carro. Perda total.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tinha alguém dentro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tinha. Um ladrão. Na polícia disseram que o vagabundo havia acabado de arrombar a porta e ia embora com ele. A árvore caiu bem em cima.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele morreu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro. Vai agora tentar roubar o carro de Satanás. Ouvi dizer que é uma Ferrari vermelha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que conversa é essa? Você está bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com rodas vermelhas também. Como fogo. E ela solta chamas do cano de descarga.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você está dizendo? Do que está falando?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você escapou dessa vez. Não pense que a mesma sorte vai se repetir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal acaba de pronunciar a última frase, meu colega fecha os olhos e desmaia. Em cima de mim. Não suporto seu peso. Começo a gritar por socorro. Vamos cair os dois no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois funcionários da manutenção entram na sala. Colocam meu colega no chão. Um tenta reanimá-lo, o outro me põe na cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele desmaiou, ele desmaiou”, não consigo parar de repetir. O coração acelera. O ar falta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fique calmo, o senhor quer que eu traga um copo d’água?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor, por favor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;São três horas da tarde. Estamos trabalhando normalmente na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando reanimado, meu colega não se lembrou do que havia me dito. Segundo ele, começou a contar-me da árvore que arrebentou seu carro quando, de repente, estava no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não lembra. Eu não esqueço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas mãos tremem enquanto trabalho no computador. Preciso disfarçar ao entregar qualquer documento a alguém. Não quero admitir que estou apavorado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis horas saio do trabalho achando que estou sendo seguido. Entro no metrô e a sensação continua. Entro em casa e, chorando, caio na cama abraçado ao travesseiro. Ainda em prantos, ouço a voz dentro do quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você vai arder.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abro rapidamente os olhos, esperando que o susto não tenha passado de um engano de meus ouvidos. Mas não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meu quarto, há mais alguém além de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é o demônio que habita o meu ombro e que eu já conheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse é outro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-3384777071793338053?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/3384777071793338053/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=3384777071793338053&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3384777071793338053'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3384777071793338053'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/eu-ia-morrer-no-sofa.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-8657431044708107345</id><published>2010-03-14T18:22:00.002-03:00</published><updated>2010-03-14T18:22:36.850-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>“Preciso subir uma escada rolante.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eram duas da madrugada, e ele acordou tonto. Achou que ela sonhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Precisa o quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso subir uma escada rolante.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amor, acorda. Você tá”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tô acordada. Não tô sonhando. Mas eu preciso subir uma escada rolante. Senão vou morrer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amor, presta atenção. Você não vai morrer. Você estava sonhando. São duas horas da madrugada, não tem escada rolante nenhuma. Dorme.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu vou morrer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vai.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então tá. Mas vê se pelo menos morre calada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se virou na cama, de costas para ela. Dormiu e sonhou que estava empinando pipa. Quando acordou, se deparou com a esposa morta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Trauma. Dor. Constrangimento. Explicar a todos, amigos, os pais dela, que a coitadinha morreu aos vinte e oito anos porque não subiu uma escada rolante. Ver a carinha de anjo sendo coberta pela tampa de um caixão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dois anos inteiros chorando pelos cantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as nuvens escuras se dissiparam, conheceu um novo amor. Amizade, calor, sexo, compreensão, afinidade, cumplicidade. Essa coisa toda. Para si, guardou apenas a tragédia anterior. Jamais contou a ela. Quando perguntado pelas ex, contava uma mentira ao falar da última. Enfim, estava se apaixonando novamente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa noite, acordou de madrugada com a voz dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso passar protetor solar em minha pele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Precisa passar pro”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senão vou morrer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nem perguntou mais nada. Levantou-se às pressas da cama, e do jeito que estava entrou no carro e disparou em direção ao supermercado que ficava aberto a noite toda. Passou por dois radares em alta velocidade, mas paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrar correndo no supermercado, a sandália de dedo arrebentou a tira. Seguiu com o pé descalço até encontrar a seção de cosméticos e afins. Mas não encontrou o protetor solar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não é possível”, ele quase gritou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma cliente. Olhava-o com curiosidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso de protetor solar”, ele quase chorava. “É caso de vida ou morte.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que aqui eles não vendem. Mas eu tenho em casa. Se você quiser.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foram no carro dele. No apartamento, ele não resistiu quando ela ficou nua em pêlo alegando que não usava roupas dentro de casa. Carregou-a para a cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De manhã, ela avisou com a voz lânguida que o protetor solar estava atrás do espelho do banheiro. Que ele podia levar, se quisesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lembrança foi um choque. Desesperado, ele pulou da cama, nu, correu até o banheiro, achou o protetor solar, saiu do apartamento sem se despedir e arrancou com o carro. Passou por mais alguns radares. Paciência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entrou em casa não a encontrou na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amor”, gritou. “Cadê você?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aqui”, a voz vinha do banheiro. “Estou fazendo xixi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele entrou no banheiro. Ela estava lá. Viva. A alegria, o alívio, a ternura por que foi possuído foram tão grandes que ele nem esperou que ela terminasse. Levantou-a do vaso sanitário e a abraçou e beijou. Molharam-se os dois mas, diante da vida, o que isso importava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu trouxe o seu protetor solar”, ele falou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amor, você é doido? Não tinha essa urgência toda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas você disse que ia morrer se eu não trouxesse.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu estava sonhando. Sonhei que estávamos na praia, fazia o maior sol e eu ficava com medo de pegar câncer de pele. Aí pedi o protetor solar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante da expressão apalermada dele, um fio de preocupação começou a entrar na cabeça dela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você foi buscar o protetor nu?”, ela espantou-se ainda mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tentava responder, sem saber como. Só conseguia gaguejar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Amor, senta aqui”, ela estava mesmo preocupada. “Você precisa descansar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela o deitou carinhosamente na cama e cuidou dele como se cuida de um menino assustado. Ele se aconchegou no colo que ela oferecia e fechou os olhos. Estava chorando, mas disfarçou tão bem que ela não percebeu. Depois dessa noite, a vida continuaria sem nenhum maior percalço e eles a viveriam juntos, inclusive com direito a filhos lindos e uma nova casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele jamais matou a saudade que sentia da mulher que lhe deu o protetor solar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E ela nunca perguntou por que o protetor solar que ele disse ter comprado no supermercado estava pela metade.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-8657431044708107345?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/8657431044708107345/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=8657431044708107345&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8657431044708107345'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8657431044708107345'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/preciso-subir-uma-escada-rolante.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2897720445553335583</id><published>2010-03-13T20:17:00.002-03:00</published><updated>2010-03-13T20:17:42.499-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O pequeno demônio que habita o meu ombro me vê deitado e estranha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“São onze horas. Não está na hora de levantar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou ficar aqui mais um pouco.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele faz provocações que ignoro. Fecho os olhos e deixo que o tempo passe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às duas da tarde o telefone toca. Fico ouvindo, sem atender.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quarenta minutos depois, alguém lá fora está tocando a campainha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Atenda. Você sabe que é ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não há ninguém aqui dentro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vá atender. Ela o está procurando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela está procurando você. Vá você atendê-la.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele começa a rir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No lugar do ciúme e da depressão a que você infantilmente está se entregando, há uma experiência imprevisível atrás daquela porta. Você não sabe do que aquela mulher é capaz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei. Ela já me disse.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Abra a porta. Você não se arrependerá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O marido dela também já disse isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E você prefere prostrar-se na cama e render-se à infelicidade. Prefere sentir-se miserável, pequeno e errado. Prefere chorar e torcer para que a morte não tarde e essa coisa escura e dolorida que tem no peito se apague de vez.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Prefiro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você é quem sabe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde você está indo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou abrir a porta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento dizer que não. Tento implorar que fique. Deitado na cama ouço as trancas da porta sendo uma a uma abertas. Depois é o som da chave girando na fechadura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço a voz dela, na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Liguei para você. Não quis atender?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quero mais do que a sua voz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento dizer a ela que esse que abriu a porta e a está recebendo não sou eu. Que eu estou deitado na cama e que de meus olhos descem lágrimas de horror, de derrota e de exaustão. Que de meu corpo não se pronuncia nenhum sentimento. Que dessa paralisia ele está se aproveitando para mais uma vez mostrar que não sou nada. Tento avisar, mas de minha boca sai apenas saliva e espuma. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Era só ter me chamado”, ela continua. “Você leu a mensagem no verso da segunda foto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A essa derradeira frase segue-se um angustiante silêncio. Procuro detectar qualquer mínimo ruído que venha da sala, sem conseguir. A cabeça põe-se a latejar, como castigo quando tento levantar-me. Quero sair da cama e ir salvá-la, mas o corpo não obedece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço um suspiro. Ela está suspirando. Fico ouvindo suspiros e silêncios vindos da sala, sendo que os intervalos silenciosos são cada vez mais curtos. Gemidos. Não são mais suspiros. Sei o que está acontecendo, e não quero mais ouvir. Mas ouço. Obrigam-me a ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O grito dela é interrompido. Um “A” seco, cortado como se o ato que provocou o grito fosse tão intenso e repentino que só a voz não o exprime. Outro meio grito, igual ao primeiro, vem logo depois. E outro. E muitos. A voz dela tremula. Impossível não lembrar nosso último encontro, há uma semana, e imaginá-la como ela mesma descreveu: partida em duas, em várias, despedaçada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela agora está gritando. Longos e tortuosos ais, que vão se tornando mais longos e mais tortuosos. O cheiro de sexo e de sangue chega-me até as narinas, quando então ouço tapas e, horrorizado, percebo alguma coisa rosnando como uma fera no cômodo ao lado. Ela grita, chora, e a fera continua arrancando-lhe os gritos que eu rezo para não ouvir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-me prestes a ser tomado pela insanidade quando ela enfim parece destruir minha razão. Há mais vozes na sala. Não estão só os dois. Ouço novos grunhidos misturando-se com os primeiros, e gargalhadas devorando os gritos da mulher. O inferno abriu-se em minha sala e eu quero gritar por socorro, mas a garganta comprime-se como que apertada por mãos que não enxergo. O horror leva-me à nova humilhação quando percebo que nem sobre minha bexiga exerço qualquer controle, e enquanto ela se esvazia encharcando-me a cama a fera na sala urra vitoriosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei quanto tempo passou quando enfim consigo levantar-me da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou todo mijado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como quem acabou de morrer e não sabe para que lado ir no purgatório, me arrasto até a sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontro-a deitada sobre o tapete. Estirada de bruços. Não se mexe. Tento cobrir-lhe a nudez e então percebo a pele branca maculada de marcas de violência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma toalha limpo o rosto sujo. Quero gritar o que ele fez com ela, mas não consigo. Aos poucos ela vai despertando. Não tenho força suficiente para carregá-la até o sofá, então sento-me no chão a seu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está bem?” é tudo o que, estupidamente, consigo dizer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela levanta a cabeça devagar. Olha-me nos olhos. Então chora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A tarde está no fim quando ela vai embora. Ela não disse nada enquanto esteve aqui. Quando conseguiu levantar-se, foi para o sofá. Ficou lá, calada, até aceitar que eu a levasse ao banheiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o banho, não deixou que eu tocasse em algumas partes. Certamente feridas. Procurei secá-la com todo cuidado e trazê-la de volta ao sofá. Enquanto ela relaxava, voltei ao banheiro para eu mesmo me limpar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora que ela se foi, retorno para a sala sentindo uma leve pressão no peito. Logo a pressão torna-se dor, que vai se espalhando para os ombros e o pescoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que estou tendo meu primeiro infarto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2897720445553335583?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2897720445553335583/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2897720445553335583&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2897720445553335583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2897720445553335583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/o-pequeno-demonio-que-habita-o-meu.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-811869198941801648</id><published>2010-03-12T19:03:00.002-03:00</published><updated>2010-03-12T19:03:38.974-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia começa e eu caminho deixando pelo apartamento os restos da noite anterior. Tentando abrir os olhos que pesam e enxergar um caminho que não leve à repetição de todos esses anos idênticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resultado é o fracasso me dando bom dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Debaixo do chuveiro, o sono resiste e não se afoga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas mãos estão pintadas de velhice. Eu me pergunto de que serve tudo isso, enquanto vou me vestindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que saio de casa olho para todos os lados. Hoje descobri o porquê. Esse é o último gesto de uma tentativa de fuga numa trilha sem desvios. Posso dar dois passos mais para o sul ou para o norte, mas acabo voltando para a estrada original.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se retornar em meus passos, encontrarei debaixo do sol pegadas cobertas de ervas daninhas que não quero rever. Encontrarei um acidente do qual não deveria escapar. Uma mulher da qual não deveria estar longe. Uma criança sozinha no quarto, que sempre que a campainha toca corre até a porta da casa achando que é o pai que retorna. Não preciso disso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na praça próxima à minha casa há uma mulher que vive rodeada de pombos. Mesmo quando não os está alimentando eles a seguem. Uma vez a flagrei chorando, porque encontrara morta uma das aves. Fiquei olhando de longe ela tomar nas mãos o bicho mole e espantar os demais, para que não a seguissem enquanto atravessava a rua. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse dia havia um sujeito sentado ao meu lado, no banco da praça, acompanhando a tragédia da mulher dos pombos. Quando ela virou a esquina, deixando para trás um rastro de lágrimas, ele comentou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai levar o bicho pra assar com arroz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E por que estaria chorando, então?”, tive que perguntar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porque está triste, ué. Mas espera só ela dar a primeira garfada no pombo assado pra você ver como fica feliz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto eu pensava no que acabara de ouvir, ele continuou, como se falasse com alguém muito burro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pra que pôrra serve um bicho morto, se não é pra comer? O senhor me desculpe, mas no lugar dela ia fazer o quê? Enterrar? Eu hein, não fode.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parecia a própria natureza encarnada falando. Um ser não não tem nenhuma utilidade que não seja a de servir de alimento para outro. A todo instante alguém está comendo alguém, às vezes de forma violenta. Mesmo agora, dentro do ônibus a caminho do trabalho, sentado e aparentemente imóvel, quase posso sentir os vermes dentro de mim fazendo um banquete com meu organismo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É uma forma diferente e triste de encarar a natureza”, você me disse uma vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O ônibus percorre a Avenida Presidente Vargas. Daqui a pouco será a minha vez de descer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Pelo segundo dia, faltou luz em diversos pontos no Centro do Rio. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a deixa, na empresa, para um debate durante o expediente, envolvendo críticas inflamadas, experiências pessoais e previsões fatalistas. Há gente demais no mundo e a energia disponível não dá conta do consumo, diz alguém. A operadora de energia elétrica do Rio de Janeiro é pilantra, por isso foi multada em dezenas de milhões de reais, diz outro alguém. Eu já estou estocando olho diesel, diz um terceiro. O colega apocalíptico nada diz. Eu me limito a continuar meu trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De acordo com a escala, em abril entrarei de férias. O diretor disse que, dessa vez, quer que eu tire os trinta dias. Que eu descanse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vá para uma praia e fique o mês inteiro lá coçando o saco. Você está proibido sequer de pensar em trabalho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto vontade de responder que é justamente de meus pensamentos que estou precisando de férias. Mas apenas agradeço e aperto a mão que o diretor estende. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao sair da sala, Fada Sininho pergunta se vou viajar nas férias. Diz que tem uma amiga que promove excursões de velhinhos, e que se eu quiser ela pode conseguir um bom desconto para mim. Agradeço a gentileza, mas digo que não pretendo viajar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entendi”, ela diz. “O senhor não precisa. Se quiser viajar, é só ligar para o Vaticano. É amigo do Papa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Papa está chateado comigo, porque babei na mão dele, quando fui beijar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor babou na mão do Papa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Babei. O que posso fazer? Eu sou um velho, minha filha. Velhos babam muito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Credo. Que nojo. Quero morrer jovem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto para minha sala. Para Fada Sininho, o mundo deve ser um&amp;nbsp; lugar curioso. Olho para ela, e estranhamente sinto dificuldade em me lembrar de sua antecessora. No futuro, terei dificuldade de me lembrar dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que otimista. No futuro não estarei aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo passa rápido, e quando percebo já são seis horas. Em silêncio desligo o computador e me despeço de quem ainda está na sala. Por mim, ficava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O elevador desce cheio. Hoje é sexta-feira, e todos estão agitados. Quando a porta se abre, uma voz deseja-me um bom fim de semana. Agradeço, e desejo o mesmo à voz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem olhar para trás vou me distanciando da empresa. A meteorologia previu chuva para hoje, mas errou feio. Está ficando uma noite quente e bonita. A estação do metrô, mais à frente, me espera. Minha casa me espera. A insatisfação, o medo e a melancolia me esperam também.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-811869198941801648?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/811869198941801648/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=811869198941801648&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/811869198941801648'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/811869198941801648'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/seis-horas-da-manha_12.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2721977639444731932</id><published>2010-03-11T19:00:00.000-03:00</published><updated>2010-03-11T19:00:04.819-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Estou saindo do escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O despertador ainda não começou a sinfonia da destruição, e já estou acordado. Espero o toque. Não me levanto sem o seu consentimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São seis horas da manhã. Quando o alarme começa, saio da cama e caminho como se arrastasse correntes. A janela mostra um dia bonito de sol. Dias assim deveriam me deixar feliz. E não fazer com que eu me sinta como um pedaço de carne mofada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Giro a torneira e a água despenca sobre meu rosto. Não lembro com que sonhei, mas passo mais tempo ensaboando ali.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saio de casa tenho de voltar. O celular ficou. Esqueci. Não que vá usá-lo, mas não saio sem ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esqueci o celular”, informo ao porteiro, quando passo por ele pela segunda vez. Informação desnecessária, que ele ignora. Já me viu retornar várias vezes, decerto me vê como um velho senil. Antes até ficava rindo. Agora a piada perdeu a graça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subo de novo o elevador lamentando o tempo que a memória nos faz perder com essas traquinagens. Entro aborrecido em casa, pego o celular e saio novamente. Encontro meu vizinho na porta do elevador. Descemos juntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um belo dia”, ele diz. “Não acha?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um belo dia”, repito. “Acho, sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor e minha esposa têm feito algum progresso naquela pesquisa demoníaca que estavam fazendo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto vontade de perguntar qual pesquisa, já que sua esposa certamente lhe contou tudo o que aconteceu entre nós. Permaneço, no entanto, na brincadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei ao certo. Quem estava pesquisando era ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele então chega mais perto de mim e me olha nos olhos. Como um cúmplice.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tenha paciência com ela. Tenho certeza de que não se arrependerá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele provavelmente disse isso para me fazer despir da armadura da discrição. Conseguiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela está em casa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está. Dormindo. Estou indo caminhar um pouco.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante o elevador chega no térreo. Abro a porta para ele, que agradece e aproveita para provocar-me, quando já me afasto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As fotos estão em seu bolso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;No ônibus enxergo um sorriso de deboche no rosto do cobrador. E no de cada passageiro. Todos parecem saber que fui transformado em peça de um jogo libidinoso e profano. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eles agora devem estar lá, falando de você na cama”, parece dizer a mocinha carregando um bebê nos braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E rindo da sua cara”, completa o bebê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço do ônibus pensando em jogar as fotos – sim, estão em meu bolso – no lixo. Não o faço. O porteiro da empresa me recebe com o mesmo sorriso sacana dos passageiros do ônibus. Finjo que não vejo. Sou um velho. Preciso resistir ao ridículo com alguma dignidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto o computador inicia, vou buscar um café. No corredor, a funcionária da limpeza traz o mesmo sorriso. É um complô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto perturbado para a mesa. Irritado comigo mesmo pela fragilidade que me leva a ver coisas e acreditar nelas. Resolvo então enfrentá-las trabalhando. Não pensar em nada que não seja o bom funcionamento da máquina pública e o meu papel na construção de uma sociedade justa e pacífica. Hoje nada me desvia desse objetivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para me contradizer, a mulher da limpeza para na porta da sala e de lá mesmo diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você pode fazer ou deixar de fazer. Não importa. O que está para acontecer, acontecerá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não respondo e continuo trabalhando. Duvido que haja mesmo alguém na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chega a hora do almoço, me levanto vitorioso e deixo a empresa caminhando rumo ao restaurante. A imaginação coloca milhões de fobias, traumas e desconfianças me seguindo, e procuro não olhar para trás. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto calor e um pouco de falta de ar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já não sei se é para valer, ou se apenas acho que é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso parar. Respiro fundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor está bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma alma caridosa. Mulher. Com um grande broche redondo no peito, cujos dizeres não consegui ler.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É o calor”, murmuro, enquanto ela me toma pelo braço e me leva até a sombra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está muito quente mesmo”, ela concorda. “O senhor quer tomar um copo d’água? Tem uma lanchonete ali.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado. Obrigado. Não precisa. Está passando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho certeza de que a qualquer momento ela vai dizer alguma frase bizarra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor está bem mesmo? O senhor vai para onde? Quer que eu chame um guarda para lhe levar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não. Também não quero babador nem mamadeira. Deixo-a falando sozinha e vou-me embora para o restaurante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consegui ler os dizeres do broche. Era alguma coisa sobre falar com ela se quiser perder peso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Após o almoço mantenho-me compenetrado e executando meu trabalho. Retorno à rotina da qual jamais deveria ter saído. Uma nova interrupção, no entanto, irá ocorrer. Dessa vez, não se deve a qualquer criação da minha cabeça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às quatro da tarde um forte cheiro de queimado invade todo o andar. Em segundos o corredor está cheio de funcionários agitados, curiosos ou assustados. Alguns já saem de seus setores prontos para irem embora. Aqui e ali, a palavra incêndio aparece protagonizando uma frase qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O diretor sai de sua sala e encontra-se com o chefe da manutenção que acabou de chamar. Foi alarme falso. Estão mexendo com um maçarico em algum lugar da empresa, e o cheiro passou pela ventilação. Todos podem voltar para suas salas. Meu colega apocalíptico entra comigo na sala e quase sussurra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai dizer que isso não foi um sinal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não digo nada. Enquanto todos aproveitam o intervalo para comentar a ocorrência e recordar casos semelhantes, eu volto para minha mesa e para o trabalho. Fico assim até a hora de ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se assustou com a possibilidade de incêndio?”, pergunta-me uma colega, dentro do elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que nada. Prefiro me assustar quando a possibilidade se concretiza.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas e se o prédio estivesse pegando fogo? O que o senhor faria?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ficaria assustado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Talvez morresse, também.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por sorte ela não manifesta interesse em continuar a discussão depois que o elevador chega no térreo. Passando a portaria, ela segue em direção à parada de seu ônibus e eu vou para o metrô. Não olho para o céu. E se alguma manifestação sobrenatural der o ar de sua graça, me farei de desentendido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2721977639444731932?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2721977639444731932/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2721977639444731932&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2721977639444731932'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2721977639444731932'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/estou-saindo-do-escuro.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7354979778783943735</id><published>2010-03-10T19:01:00.003-03:00</published><updated>2010-03-11T06:41:40.312-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Bem distante, ouço o alarme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O som se aproxima rapidamente. Mais rápido do que qualquer possibilidade de fuga. Quando me dou conta, está do meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo com o despertador. São seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada dia a mais na idade é um passo a mais na distância que me separa do banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O banheiro fica mais longe cada vez que o despertador diz que são seis horas da manhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomo banho achando que esse momento preciso no tempo, as seis horas da manhã, me traumatizou. Como uma pancada na cabeça. Ou como flagrar os pais transando ao ir até seu quarto à noite, para reclamar de dor de estômago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não é só uma marcação no relógio. As seis horas da manhã são um veneno ministrado em gotas diárias que vai corrompendo todas as funções vitais. Depois de alguns anos em sua rotina, as seis horas da manhã fazem de você uma pequena aberração digna de pena, indicada para aparecer em programas televisivos de tragédias da medicina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tão agressivo é o câncer das seis horas da manhã, que ele continuará se manifestando após o fatídico horário. Agora são sete e meia da manhã, estou no ônibus a caminho do trabalho e os efeitos das seis horas da manhã permanecem presentes em minha corrente sanguínea. Permanecerão às duas horas da tarde, permanecerão às oito horas da noite e permanecerão até o último suspiro, quando no atestado de óbito constará como causa da morte: “Vitimado pelas seis horas da manhã”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro na empresa identificando os vestígios da doença. O olhar fatigado, resignado e sem esperança de alguns colegas não deixa dúvida. Foram contaminados pelas seis horas da manhã – que, para alguns, manifesta-se até mais cedo. A maioria nem sabe ao certo o quanto sofre, mas a falta de consciência do mal é característica desse mal. Começo a trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após o almoço, vou ao banco pagar a taxa de incêndio. Na saída, encontro o diretor. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aparece depois lá na minha sala, quero levar um papo contigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na empresa todos já sabem que isso quer dizer, na linguagem dele, “Olá”. A todos por quem passa, seja na rua ou no corredor, nosso diretor diz a mesma frase. Funcionários mais novos, que obedecem e vão até a sala dele, terminam por escutar a mesma sentença.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu disse para você vir aqui? Ah, tá. Já me lembrei. É, eu tinha um negócio para tratar com você, mas depois a gente fala. Eu te chamo. Obrigado, cara.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E fica por isso mesmo. Apenas mais um conjunto de palavras a serem ignoradas. Um problema de funcionamento no processo de comunicação, onde a mensagem é subtraída de seu valor, deixando confusa a parte recebedora e desacreditada a parte transmissora. É possível que, um dia, um de nós seja abordado pelo diretor com a mesma frase, e que dessa vez ele deseje mesmo a nossa presença em sua sala. Será tarde demais. Nenhum de nós atenderá o seu chamado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Guardo no bolso o comprovante de pagamento da taxa de incêndio. Me dou conta, então, de que as fotos da vizinha estão no mesmo bolso. Coloquei-as certamente enquanto me vestia, embora não lembre disso. Fico a imaginar o que mais fiz no dia de hoje e a memória apagou. Um diário não pode ser levado adiante, se seu autor anda por aí esquecendo as coisas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem vestido de mulher que conta piadas para uma roda de passantes e depois passa o chapéu. Os jovens artistas que pintam paisagens com tinta spray. O cantor Dicró, que numa barraca vende seus discos. O evangélico que grita com todas as forças a palavra de Deus, parecendo que a veia do pescoço explodirá a qualquer momento. Passo por todos eles. Se amanhã esquecer algum, pelo menos estará registrado aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta à empresa, enquanto escovo os dentes o colega apocalíptico entra no banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você viu”, ele diz. “Agora tem terremoto no Brasil.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento falar alguma coisa, mas estou com a boca cheia de espuma de creme dental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Terremoto, tornado. Tudo desgraça que não tinha. Agora tem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olha ao redor. Verifica dentro do reservado se há mais alguém no banheiro. Só estamos nós dois. Começo a ficar com medo dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu contei para o Alagoano o que eu vi. Ele disse que aquilo era a besta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alagoano é um funcionário que, apesar do que se possa imaginar, nasceu no Piauí. É chamado de Alagoano porque seu sobrenome é esse mesmo. E é evangélico. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você pretende fazer?”, pergunto, depois de cuspir na pia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não sei. Na verdade, eu esperava que você dissesse.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu já disse, meu filho. Não entendo nada de fim do mundo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Entende. Você tem contatos. A Fada Sininho falou que você já apertou a mão do Papa quando ele esteve no Brasil.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu apertei a mão do Brizola.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O mundo vai acabar mesmo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sabia. E como ele vai acabar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você promete não contar para ninguém?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro! Conta como o mundo vai acabar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O mundo vai acabar debaixo de vômito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Debaixo de vômito?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, meu filho. Vai chegar um dia em que as pessoas vão acordar tão enojadas com elas mesmas, mas tão enojadas, que todos os vícios, toda a estupidez, toda a falta de caráter e egoísmo irão subir de uma vez só pela garganta, e elas não conseguirão parar de vomitar. Imagine toda a população mundial vomitando ao mesmo tempo. Será o fim do mundo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O colega apocalíptico silencia, pensativo. Aproveito enquanto ele está pensando e retorno à minha sala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A proposta daquele fornecedor chegou”, avisa alguém. “Veio errada de novo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sento em minha cadeira com um suspiro, enquanto pego o telefone para solicitar novas correções. De repente entra o Alagoano na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que história é essa de que o mundo vai se acabar debaixo de vômito?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Às seis horas e cinco minutos deixo o prédio da empresa. Chega por hoje. Com o céu quase escuro, caminho em direção ao metrô tomado de um ligeiro e indefinível mal estar. Olhares estranhos sinto acompanhando-me os passos que, para não alimentar paranóias, acelero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente uma mulher negra em prantos sai do meio da multidão e passa ao meu lado quase me atropelando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu filho”, ela grita. “Onde está meu filho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me curvo assustado em sua direção, conseguindo ainda vê-la afastar-se, e então percebo que sou o único na avenida a fazer isso. A mulher segue gritando pelo filho e ninguém lhe dá atenção. Mesmo aqueles com quem ela quase se choca ignoram sua súplica, sua perda, seu desespero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retomo resignado os passos rumo ao metrô quando, num olhar displicente para o céu, levo um novo susto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No céu agora escuro, vejo claramente um vulto negro e imenso mover-se de um lado a outro, antes de sumir dentro da noite.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7354979778783943735?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7354979778783943735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7354979778783943735&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7354979778783943735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7354979778783943735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/bem-distante-ouco-o-alarme.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5608719621489182142</id><published>2010-03-09T18:56:00.002-03:00</published><updated>2010-03-09T18:56:34.595-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Do ar quente que sai do chão, das galerias do metrô no centro do Rio, os pivetes fazem brinquedo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguram um saco plástico sobre a abertura no chão. Deixam que o saco se encha de ar. E então soltam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O saco plástico sai voando. Dança nas alturas até se perder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu fico olhando e quase me esqueço de ir para o trabalho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5608719621489182142?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5608719621489182142/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5608719621489182142&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5608719621489182142'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5608719621489182142'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/do-ar-quente-que-sai-do-chao-das.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-1803358103222721936</id><published>2010-03-08T19:03:00.002-03:00</published><updated>2010-03-08T19:03:58.615-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Acordo às seis da manhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estou achando que é movimento que se repete desde sempre. Morri, não fui informado e essa repetição diária é condenação por meus pecados. Pago minhas dívidas tendo de acordar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhei que atrás da parede havia risadas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Femininas risadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu me aproximava porque sabia. Atrás daquela parede não poderia haver alguém. E porque aquela parede não poderia ser vermelha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso encostava o ouvido. E sentia a parede quente. Tocava, e sentia pele respirando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo sujo. Me levanto pobre. Encontro o banheiro onde finjo que o chuveiro me purifica. Sou um pobre e miserável velho fingido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A vizinha não me procurou mais. A desilusão que enxergou em meu gesto não vai permitir que volte. Me ensabôo com mais força. Mas manchas profundas não saem com sabonete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O espelho cada dia me mostra pior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua ainda há vestígios do temporal de sábado. Passo por uma árvore caída e tento não me identificar muito com o vegetal morto na sarjeta. Entro no ônibus. Uma mulher com a filha pergunta-me se sei qual o ponto do hospital. Respondo. Tento não sentir saudade da vizinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chego diante da empresa a vontade é de dar meia volta. Mas concluo que a empresa faz parte da condenação, junto com o despertar às seis, e atravesso a portaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dar bom dia ao porteiro também faz parte da condenação. Subir o elevador junto com o reflexo de olhar reprovador, também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um dos colegas chega mais cedo. E sério. Traz a cadeira para perto de mim e começa a desabafar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos morrer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu e você?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Todos nós. Estou falando sério.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que aconteceu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos morrer todos. Só não vê quem não quer. Os sinais estão vindo um atrás do outro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sinais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sinais. Esse sábado eu vi. Estava lá na Praça da Bandeira. Aquilo era o fim do mundo. Não é possível que a civilização tenha chegado a esse ponto. Eu estava muito deprimido, muito cansado, querendo apenas voltar para casa. Deveria estar feliz, pois tinha acabado de deixar uma mulher em casa que era uma beleza. Mas não estava. Ninguém fica feliz diante do fim do mundo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi só um temporal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Até então, eu também pensava assim. Só um temporal, amanhã secou tudo. Foi então que eu vi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que você viu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu estava olhando para o céu. Normalmente. Apenas vendo a tempestade. Não pensava em nada. Até que&amp;nbsp; aquilo apareceu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aquilo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O monstro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que monstro? De que você está falando, homem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu juro para você. Eu vi um vulto, uma mancha preta, enorme, imensa. Se deslocando pelo céu. Eu vi. Não estou maluco, não estava bêbado, não estava drogado. Eu vi. Eu juro que vi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Espere aí. Você viu um vulto?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não comece a debochar. Eu não contei isso para ninguém. Só estou contando para você, porque você é meio esquisito, e eu acho que entende dessas coisas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que coisas? Vultos negros e fim do mundo? Por que eu deveria entender disso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei lá. Você é velho. Não fala com ninguém. Vai querer me dizer que você também já não viu um sinal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lamento desapontá-lo”, menti. “Mas nunca vi nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O colega fica me olhando fixamente. Parece ao mesmo tempo revoltado, curioso e perdido. Não sabe se acredita em mim, se tenta identificar em minha expressão algum deboche ou se eu mesmo não sou algum sinal do fim do mundo. Ele está para dizer algo, quando um outro colega entra na sala e o faz mudar de assunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semana está querendo começar, então que comece. Minha mesa pede uma arrumação. Para satisfazê-la, passo a separar os documentos já resolvidos, com destino ao arquivo, dos ainda pendentes. Desses, separo os de resolução fácil, a serem resolvidos ao final do dia, dos complicados, em que começarei a trabalhar agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando retorno do almoço, o colega do fim do mundo está cochichando no corredor com outro funcionário. Os dois extremamente sérios. Talvez estejam arquitetando um plano de defesa para o apocalipse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telefone em minha mesa me desafia a não usá-lo. Quase uso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto do dia oscila entre o controle e a tentação. Às seis, deixo a empresa com um fio de melancolia enrolado no pescoço. Apertando de leve. No metrô, um casal se beija imprensado no meio dos passageiros.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Resisti à tentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, o pequeno demônio que habita o meu ombro está em meu quarto. Arrisco um diálogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabe alguma coisa sobre o fim do mundo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Falta muito?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quanto tempo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tempo suficiente para sentir o horror em toda a sua plenitude.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olha para mim, aguardando minha reação. Limito-me a deitar na cama, pegar o controle remoto e ligar a TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dá tempo para ver o telejornal?”, pergunto.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-1803358103222721936?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/1803358103222721936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=1803358103222721936&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1803358103222721936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1803358103222721936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/acordo-as-seis-da-manha.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6269719581232669334</id><published>2010-03-07T20:01:00.000-03:00</published><updated>2010-03-07T20:01:32.421-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ela tocou a campainha da porta pela quarta vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não há ninguém lá dentro”, eu disse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela tocou a quinta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não há...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você já disse isso”, ela me interrompeu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E você já tocou a campainha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela começou a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não devia ter trazido você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora fosse minha mãe, exibia tanta juventude que parecia mais uma irmã. Uma irmã caçula.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não devia”, repetiu, “não devia ter te trazido.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fui seguindo-a em silêncio até o elevador. Me trazido para onde? Para a porta da casa do pai que eu nunca conheci? Para o mundo? Fiquei a imaginar o sujeito escondido atrás da porta, rezando para que fôssemos logo embora. Impossível não me colocar no lugar dele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Teu padrinho deve saber onde ele está”, ela murmurou, pensando alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na janela do ônibus fechei os olhos e, como meu pai, deixei de existir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Em casa ela correu para o quarto e fechou-se lá dentro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou sair”, avisei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não respondeu. Ou talvez tenha respondido, com a mente. Talvez eu tenha escutado. Talvez nos comunicássemos assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do elevador, desci com o vizinho que não tirava o olho da minha mãe. Claro que perguntou por ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Doente”, respondi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Doente? Coitadinha. Doente de quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sífilis.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caio nos braços da rua. Nem todo mundo está sozinho, mas eu estou. E embora ganhe santinho, folheto de curso de idiomas, convite pra comprar ouro, pra visitar bordel, pra saber o futuro e pra consertar celular, não consigo deixar de ver a rua como uma pista de tratores. Todos competindo para ver quem te atropela primeiro e te transforma em massa de pastel no asfalto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Moço, me ajuda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não ajudo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Assiste Globo ou SBT? Vem aqui no carro pegar o seu brinde.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não ajudo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que falta na vida é uma porta. De saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Uma alergia na ponta dos dedos, e eles incham de tanto eu coçar. São sinais. Meu corpo está se deformando. Dessa vez, de verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Costumava entortar-me quando criança. Fingia que era uma aberração. Minha mãe, claro, odiava. Beleza encarnada em mulher, a idéia de ter gerado um pequeno monstro era inconcebível. Eu esgarçava a boca e a fala, me encurvava e dobrava os braços sem harmonia alguma sobre o peito. Então ia arrastando uma das pernas até ela e gemendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mamããããe...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não parava enquanto o primeiro tapa não me atingisse as costas, ou o ombro. No segundo eu estava às gargalhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando fiquei doente e precisei tirar um raio x, tive a certeza de que o médico viu na radiografia um menino todo torto por dentro da pele tenra e imaculada. Só não disse nada à minha mãe para não assustá-la.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A idéia me divertia. Na infância impunha respeito entre os colegas da escola confidenciando, aqui e ali, que dentro de mim morava um demônio e que às vezes era ele que falava no meu lugar. Tão boa e detalhista era a descrição do bicho, de seu lugar na hierarquia do inferno, de seus objetivos e pontos fracos, que não faltou quem me temesse. Também não faltou quem falasse de mim para os pais, que por sua vez me denunciaram à professora. E num belo dia de sol lá estava minha mãe sendo chamada à escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que história é essa de estar possuído pelo diabo?”, ela ia me arrastando pela rua. “Você é maluco? Isso não tem graça!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tinha, pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando garoto não percebia que todas as minhas namoradas eram a cara da minha mãe. Nem imaginava que era por ciúmes dela que jamais levei em casa os amigos da escola.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá bravo por quê?”, ela perguntou, quando entrei batendo a porta e fui me trancar no quarto. “Brigou na escola?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada! Não foi nada!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Naquele dia havia descoberto que todos os meninos da turma, pelo menos os mais velhos, falavam de mim pelas costas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou melhor, falavam dela. Elogiavam e cobiçavam a perfeição das formas. Fantasiavam, e comentavam entre si, o sexo com a mãe do colega, na ausência deste. A bomba me foi atirada durante uma discussão, com todas as letras e gestos, da pior forma possível, resultando em pancadaria. Como se eles precisassem me atingir mais. No quarto, engasgado entre a impossibilidade de matá-los, a impossibilidade de matá-la e a impossibilidade de matar-me, envelheci. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora do quarto, não reconheceu minha mãe o velho que dali saiu se movendo como um réptil cansado. Não reconheceu, mas compreendeu. E, compreendendo, nada conseguiu fazer. Nessas horas nossos gestos ficam burros, e nunca sabemos qual palavra, qual iniciativa, qual milagre dará conforto a quem amamos. Ela apenas me viu ir e deixou. Eu fui e não voltei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Amei muitas mulheres parecidas com ela. Voltei muitas vezes até a frente do edifício do homem que não era meu pai. Percorri ruas e vidas tentando endireitar deformidades até desistir e aprender a gostar delas. De muitas ainda tenho vergonha e conservo debaixo de uma pilha de travesseiros. Às vezes aparece alguém a quem mostro, e ora a resposta é um susto, ora é repulsa, ora é paixão. E eu me apaixono e desapaixono muito fácil. Quem entende o outro. Quem entende o eu. Eu não entendo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6269719581232669334?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6269719581232669334/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6269719581232669334&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6269719581232669334'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6269719581232669334'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/ela-tocou-campainha-da-porta-pela.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6600352100659677079</id><published>2010-03-06T22:40:00.002-03:00</published><updated>2010-03-06T22:40:39.010-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>“Está tudo bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pergunta se dirige à senhora que, aos sábados, faz a faxina no apartamento. Intriga-me a maneira como ela para o que está fazendo e olha ao redor. Como se perturbada por alguma mosca que só ela vê.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não responde. Por isso torno a perguntar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Algum problema?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me olha desconfiada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo bem”, acaba dizendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico acompanhando-a com os olhos, discretamente, tentando evitar que ela perceba o quanto quero que termine logo. Mas por várias vezes vejo-a parar e repetir o movimento de cabeça e o virar dos olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno demônio que habita o meu ombro não está, no entanto, na sala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei o que a está perturbando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando enfim ela termina, recebe o pagamento e vai embora, vou até o telefone. Ligo para a vizinha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém atende.&amp;nbsp; Deixo tocar dezoito vezes, e então desisto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve estar com o marido. Na rua. Levou-o para caminhar. Fazem isso sempre. Penso em ir também. Não tenho o direito de ficar ansioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado no sofá, seguro em cada mão uma foto dela. Os presentes que ela me deu. Fotos de seu corpo. Frente e verso. Inteiramente exposta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda fotografia, uma perturbadora dedicatória.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;A ti me entrego em sacrifício.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Releio temendo não ser exatamente o destinatário dessa mensagem. A possibilidade de algo maior estar acontecendo debaixo de meu nariz me inquieta. Meu nome não está em nenhuma das fotos. Sequer nos envelopes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passados sete dias, e apesar de uma faxina onde foram empregados produtos de limpeza, ainda sinto o perfume dela no apartamento. Está nos móveis, nas paredes, no tapete da sala. Está em todas as minhas roupas. Tudo aqui remete a ela. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento novamente o telefone. Em vão. Me esforço para não andar de um lado a outro do apartamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às três horas da tarde atendem o telefone. Mas não dizem nada. É meu o primeiro alô.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alô?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alô.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está tudo bem?”, pergunto, sem conseguir esconder o nervosismo. “Sou eu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aconteceu alguma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não responde. Talvez o marido por perto. Embora ela pareça realmente diferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Venha até aqui”, eu quase imploro. “Você pode vir até aqui?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor, venha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico esperando na porta. Logo depois ela aparece, num estado que me choca. Os olhos vidrados. Um arrastar dos pés no chão enquanto caminha. Os braços pendurados como se ali não houvesse vida. Ela para diante de mim e a puxo para dentro, fechando a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que aconteceu?”, pergunto, toco, sinto-lhe a pele fria na testa e no pescoço. “Ele fez alguma coisa com você? O que aconteceu? Você precisa me dizer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na sala ela parece sair do transe. Seus olhos se movem. Parecem reconhecer o local onde nos amamos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então ela desmaia em meus braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quase caímos os dois. Com dificuldade deito-a no sofá. Meu corpo inteiro treme. Sinto o coração acelerar e o oxigênio me falta. Não paro de falar. Tento despertá-la. Não posso morrer agora. Vou buscar água.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso em chamar o marido. Não sei o que fazer. Seguro suas mãos e continuo falando. Ela parece uma criança adormecida, e eu me sento na poltrona antes que desmaie também. Fico esperando a pulsação retornar ao normal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Os dias cedem a vez a outros dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Só consigo ver crescer o número de coisas sobre as quais já não possuo controle.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ambição de desafiar a natureza acabou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sobrevivência me basta. O silêncio e a irrelevância me bastam. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas agora é ela que quer desafiar. A natureza. Quer demonstrações de força. Quer equilíbrio. Quer controle sobre a adversidade. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu corpo já não responde. E tudo é adversidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pensamento compra até o infinito passagens que não vai usar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque aprisionado numa casca que definha. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na natureza o predador prefere os velhos. Defender-se de uma mordida na frente, virar-se e reagir a outra nas costas requer mais tempo. Ficar de pé é mais difícil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O organismo corroído dobra-se, range e tomba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando ela desperta, a confusão em sua face aos poucos se dissipa. Ela me reconhece. Está bem. Apenas não se lembra de ter saído de casa e vindo parar em meu sofá. Abraço-a forte, como quem abraça um novo amanhecer porque não sabe se é o último. Com a cabeça dela em meu peito começo a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei o que aconteceu”, ela diz, mais tarde. Enganada pela memória, agiu como se o cérebro não mais produzisse pensamentos. Como se não houvesse ninguém em seu interior. Como se não existisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Voltei a existir aqui”, ela sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encaro seu sorriso com preocupação e ternura. Para minha surpresa, ela parece não gostar. Com delicadeza repele a mão que tenta acariciar-lhe o rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pare”, diz. “Não faça isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olha ao redor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele está aqui?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se coloca em posição fetal no sofá. Fecha os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sinto cansaço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quer que eu traga alguma coisa? Quer beber, comer algo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante quinze minutos, aproximadamente, ela fica naquela posição. Os olhos abertos. Silenciosa. De repente diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Meu marido sabe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me surpreendo, mas nada digo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Uma vez participei de um culto profano. Fui possuída sexualmente por uma entidade. Meu marido assistiu. Ele me levou até lá. Senti muita dor e fui agredida. Física e psicologicamente. Mas era mentira. Tudo mentira. O homem que dizia carregar a entidade quis continuar. Me fez voltar lá de novo. Sozinha. Ele então sacrificou um bode. Fez o bicho sangrar em mim. Trouxe outros homens.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se cala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai continuar me olhando com ternura?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo falar. Quando penso que terminou, ela prossegue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já fui possuída durante uma cerimônia indígena. Já me comeram sob o efeito de drogas. Fiz muita coisa de que você não faz idéia. Mas nunca senti nada parecido com o que aconteceu aqui, há uma semana. Pela primeira vez, me senti verdadeiramente apavorada. Senti que não estava aqui, ou que o aqui não era mais esse apartamento. Você, e esse demônio que você diz habitar o seu ombro, me partiram em duas, em várias. Vocês me despedaçaram. Eu senti angústia, alegria, gozo, liberdade, dor. Eu vi o mundo de outro jeito. Encontrei algo que não acreditava que existisse. Senti o outro lado me atravessando. Como um faca. Como uma lança. Como um cavalo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se cala. Está séria. Não sente prazer em dizer-me isso. Diz porque precisa. Então repete.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai continuar me olhando com ternura?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mão ergue-se para tocá-la. Mas, por algum motivo, retorna. Ela vê o movimento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso ir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se levanta sem minha ajuda. Caminha em silêncio até a porta e sai sem se despedir.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6600352100659677079?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6600352100659677079/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6600352100659677079&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6600352100659677079'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6600352100659677079'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/esta-tudo-bem-pergunta-se-dirige.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6770961272101570418</id><published>2010-03-05T20:36:00.000-03:00</published><updated>2010-03-05T20:36:10.943-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Às seis horas da manhã a civilização está calada e em paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou inspirando e expirando essa farsa em que finjo que acredito enquanto deixo a cama, enquanto tomo banho, enquanto vejo o tempo desconfigurado na janela. E enquanto expulso a noite anterior de meu corpo mole e de meus olhos duros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A repetição é porque preciso e o descrédito é porque é minha sina. Nada é porque desejo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomo banho, tomo café e não tomo tenência. A foto pisoteada me acompanha como um filhote.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me visto. E me saio e me deixo. E não volto para me buscar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Coisas de ônibus se repetem no ônibus. O cobrador que assovia Clara Nunes. O vizinho que diz ao celular o que fazer da vida. O moço que tenta encontrar letras numa apostila entre um e outro solavanco. O céu que sugere sol, mas não garante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu canso de olhar, e continuo olhando e cansando o dia todo e todo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acende o aviso de “Parada solicitada”. Eu solicitei. Eu desço no centro do Rio. Às oito e vinte da manhã a civilização está correndo e grunhindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A empresa me espera e não a deixo esperar. Troco bons dias. No elevador a noite de ontem retorna como uma bolha de ar aflorando num líquido grosso. Levo a mão ao bolso da camisa. A foto filhote está lá. O reflexo no espelho sorri. Eu não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entro na sala, a moça da limpeza está varrendo. Espero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando me sento diante do computador, pego o telefone e aperto os números. Espero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela atende. Quase desligo. Mas não desligo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabia que ligaria.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode falar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso. Ele saiu. Está com minha foto aí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou até aí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não estou em casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então ligou só para ouvir a minha voz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo responder. Embaraçado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se meu marido atendesse, o que você diria?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desligaria o telefone.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aqui tem identificador de chamada. Ele saberia que é você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei o que faria.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O pequeno demônio que habita o seu ombro, ele está aí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pena. Ele te ajudaria. Está olhando a foto?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não posso. Pode chegar gente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas você queria olhar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Queria olhar e ouvir a minha voz enquanto estivesse olhando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Para lembrar o que fez comigo no último sábado. Ou antecipar o que ainda virá a fazer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso ir. Gente chegando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto desligo, torço para meu comportamento não ser atingido pela transparência. Mas o tempo me confunde, ora me mantendo no presente, ora me empurrando para o último sábado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se esses processos que estou levando para arquivar cheiram a mofo ou a carne suada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às quinze horas ela me telefona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não posso falar agora”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Finja que está numa ligação de negócios.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei fazer isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aprenda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico em silêncio. Ela continua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Gostei muito de receber seu telefonema hoje. Senti que precisava retribuir o presente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Perfeitamente. A questão é o prazo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você aprende rápido. Eu preciso lhe fazer uma confissão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu nunca senti tanto medo. Nunca pensei que seria como foi. Você sabe que não pode ficar só nisso, não sabe? Sabe que precisamos nos encontrar de novo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. A publicação já saiu no Diário Oficial.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não tenho pensado em outra coisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preciso desligar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou deixar outra foto na sua porta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está certo. Muito obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recebo um aviso de que o diretor quer falar comigo. Espero parar de transpirar, e vou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Às seis da tarde a empresa me deixa sair. A civilização está desesperada e insana. Hoje é sexta-feira. Não chove.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou apenas um velho ansioso para chegar em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre ouvi que na última fase da vida regredimos. Essa ansiedade adolescente é regressão. Esse furor pelo que me aguarda, esse não saber o que fazer, esse pensamento fixo e obsessivo, esse suor que não se justifica, essa libido quase feroz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma parte de mim estende o braço para dentro do poço tentando puxar o adolescente que se afoga. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outra, apenas olha e lamenta a inutilidade do esforço, já que ambos iremos morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chego em casa, o porteiro me recebe rindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que hoje o senhor consegue subir o elevador sozinho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A ansiedade me atrapalha com as chaves na hora de abrir a porta. A mão do adolescente, molhada, escorrega e ele cai. Estendo o braço novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chave entra na fechadura fazendo barulho, e abre a porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro envelope vermelho me espera, no chão. Me abaixo para pegá-lo após fechar a porta atrás de mim. As mãos tremem quando o abro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Termino de abrir já sentado no sofá. A nova foto está lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O adolescente é retirado do poço com vida.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6770961272101570418?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6770961272101570418/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6770961272101570418&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6770961272101570418'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6770961272101570418'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/as-seis-horas-da-manha-civilizacao-esta.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-898494693494060713</id><published>2010-03-04T20:04:00.002-03:00</published><updated>2010-03-04T20:04:37.883-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ao entrar em casa, ontem, quase pisei no envelope passado pelo vão da porta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Papel vermelho. Perfumado. Abri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia uma foto em preto e branco de uma vagina. No verso, em letras vermelhas, uma dedicatória sem assinatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Para você olhar,&lt;br /&gt;lembrar&lt;br /&gt;e mostrar ao pequeno demônio que habita o seu ombro.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Acordo às seis da manhã. Sujo nas mãos e na virilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho para todos os cantos do quarto antes de ir para o banheiro. Temo encontrar aqui dentro a gata branca dos vizinhos de novo. Sob o jato de água quente tento lavar a vergonha. Mas ela não sai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pressa em deixar o apartamento, a xícara de café me escapole das mãos. Cai e quebra. Tenho de curvar-me para limpar o chão, e as costas reclamam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço o elevador e cumprimento o porteiro. Atravesso a rua e ando até o ponto de ônibus. Espero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A foto está em meu bolso. Deveria tê-la deixado em casa. Entro no ônibus temendo que a qualquer instante alguém resolva me revistar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que é isto, senhor? Que foto é esta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não saberia o que responder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ei, Antônio. Olha só. O velho estava com a foto de uma buceta dentro do bolso da camisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentada perto do cobrador, uma mãe leva os dois filhos para a escola. Um à sua esquerda, carregando as mochilas, outro em seu colo. Certamente ficaria horrorizada. Olharia com censura para o velho pervertido. Trataria de manter as crianças bem longe de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo do ônibus, o jovem com camisa de colégio estadual gritaria que eu carrego a foto porque não dou conta de uma de verdade. E todos achariam graça do pervertido que também é impotente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo vendo um rosto familiar entre os passageiros. Alguém que também trabalha na empresa. Procuro baixar a cabeça e fingir que não o vi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando desço do ônibus ele desce também. Não há como evitar cumprimentá-lo. Trocamos um bom dia e ele segue em passos bem mais rápidos e bem mais jovens. Fatalmente chegará antes de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chuva fina. Entro na empresa. Dou bom dia ao porteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após entrar na sala, sento-me diante do computador. Como estou sozinho, tiro a foto do bolso. Acompanho com os olhos o caminho harmonioso dos pelos. E me lembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico lembrando até que o barulho do elevador avise que está chegando gente. Guardo a foto. Apesar do ar condicionado, estou transpirando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia”, diz a colega que entra na sala. “Como está sua coluna?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Reclamando bastante.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mesmo? Não foi no ortopedista?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esqueci.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela levanta-se de sua cadeira e vem até mim. Sem dizer nada começa a massagear-me as costas como da outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor nunca pensou em se casar?”, ela fala lentamente, enquanto aperta meus ombros. “Não se sente sozinho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já passei da idade para isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fecho os olhos enquanto ela massageia. A imagem da foto reaparece, com cheiro e temperatura, atrás das pálpebras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não há idade para isso. Vai dizer que nunca quis casar. A mulher certa não apareceu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Apareceu. Apareceu e foi embora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, mas o senhor encontra outra. Tem tanta mulher sozinha por aí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento um outro funcionário entra na sala. Penso que a massagem vai parar, mas não para.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor não gosta de dançar?”, ela pergunta. “Aqui na Lapa tem uns lugares com dança de salão muito bons. Lá eu tenho certeza de que o senhor arruma uma namorada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não sei dançar. E nem estou procurando namorada. Minhas costas melhoraram, obrigado. Você tem mãos de fada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A colega massagista se afasta e eu retomo, constrangido, o meu trabalho. Torcendo para que ela não tenha percebido o que provocou. Tiro da gaveta a proposta do fornecedor que veio errada pela segunda vez, e procuro o número do telefone dele, para cobrar a correção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia passa devagar. A foto está em meu bolso e eu sei que está, mas não posso pegá-la na frente dos outros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor, o Galileu? E a senhora sabe que horas eu posso encontrá-lo? &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ver a foto, basta fechar os olhos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu já liguei três vezes hoje, é sobre o orçamento que ele mandou errado. Sim, errado. Sim, de novo.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheiro e temperatura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor, a senhora peça para ele mandar de novo. Já enviei por email o arquivo com a foto. Perdão, foto não. Com as correções. Já mandei o mail com as correções. E avise para ele que a gente aqui tem urgência. Obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis da tarde, quando saio do prédio, a chuva fina continua. Quero chegar logo em casa, mas o metrô demora. A foto em meu bolso quer que eu chegue logo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atravesso finalmente a portaria. Uma senhora, moradora como eu, conversa com o porteiro. Dou boa noite para os dois, caminhando para o elevador que está no térreo. Mas a senhora não deixa. Segurando-me pelo braço, começa a dizer maluquices.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esse é um vizinho exemplar. Nunca incomoda ninguém, nunca faz barulho nenhum. Ninguém vê quando ele passa. É um exemplo de discrição.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vejo o elevador me esperando. Tento ser gentil e me desvencilhar, mas ela insiste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A gente vê logo que é um senhor sério. Trabalhador. Responsável.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico imaginando o que ela diria se visse a foto que tenho no bolso. Agradeço a gentileza e caminho para o elevador, que ainda me espera. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Espere, eu vou também”, ela grita. “Vou subir com o senhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava prestes a entrar no elevador. Fico então segurando a porta aberta, para que ela me acompanhe, quando minha atenção é atraída para a portaria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sobe!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outras três senhoras acabam de chegar. Todas amigas. Todas velhas fofoqueiras e vagarosas. O porteiro assiste a jornada das três até o elevador com um sorriso largo no rosto. Olha para elas e para mim. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha”, diz uma delas, animada, “que cavalheiro. Nos esperou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu estava dizendo isso agora mesmo”, diz a que já estava dentro do elevador. “É um exemplo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entramos os cinco, e finalmente o elevador parte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para parar logo depois, entre dois andares.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O festival de sorrisos e elogios é então atropelado pelo pânico. Todas falam ao mesmo tempo. Uma diz que não pode ficar presa, outra sente falta de ar. A terceira diz que a claustrofobia da primeira afeta-lhe o intestino. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fiquem calmas, senhoras”, tento falar, ainda gentilmente. “Basta apertar a emergência.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todas voltam-se para mim, segurando-me a roupa, implorando ajuda. A da claustrofobia intestinal está chorando. Tentam abraçar-me, enquanto eu aperto o botão vermelho no painel. Logo ouvimos a voz do porteiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vocês estão presos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto vontade de responder que não, que parei o elevador de propósito para passar na cara as quatro velhinhas. Mas digo que sim, estamos presos. E peço urgência, pois uma delas está passando mal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Milena”, diz uma delas a outra, “se acalme. Não vá começar a soltar pum aqui dentro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu fico nervosa, eu fico nervosa. O senhor tem que me ajudar. Me ajude.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Larga ele, Milena. Larga o moço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, caiu um papel do seu bolso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por não dispor dos reflexos da juventude, só consigo ver a fotografia escapando do bolso e sumindo em algum lugar perto de meus pés, antes de conseguir efetuar qualquer movimento. A falta de espaço no elevador pequeno não permite ver o chão, tampouco me abaixar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor quer que eu pegue?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não precisa, obrigado. Assim que abrirem a porta, eu pego.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Milena, você já soltou pum, não é verdade?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não! Eu jamais faria isso! Não fui eu, eu juro! O senhor acredita em mim, não acredita?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acredito, senhora. Eu sei que não foi. Fui eu que soltei o pum, está bem assim? Fui eu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos dez minutos ainda ficamos juntos dentro do cubículo empesteado. Quando enfim a aventura termina, as quatro saem do elevador e eu fico. A fotografia está no chão, suja e pisoteada. Ninguém viu seu conteúdo. Com dificuldade, me abaixo e a recupero. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi só um susto”, diz o porteiro. “Está tudo bem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na próxima vez, eu fico na portaria e você sobe com as velhas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-898494693494060713?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/898494693494060713/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=898494693494060713&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/898494693494060713'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/898494693494060713'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/ao-entrar-em-casa-ontem-quase-pisei-no.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-468610114238862783</id><published>2010-03-03T18:58:00.002-03:00</published><updated>2010-03-03T18:58:52.709-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis horas da manhã. Saio da cama como saliva cuspida da boca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ando com frio até o banheiro. Há mais mortes de idosos debaixo do chuveiro do que se imagina. É o que dizem as estatísticas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bastaria um escorregão. O piso de azulejos está molhado e eu ensaboado. Uma pancada na cabeça durante a queda seria suficiente. Até que alguém percebesse a minha ausência, eu já estaria definitivamente ausente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem foi assassinado ontem. Dentro do ônibus, a essa mesma hora da manhã. Deu na TV. Viajava sentado junto à janela aberta, quando lhe pediram para fechá-la por causa do frio. Ele não quis fechar. Foi baleado no abdômen e levado para o Hospital Souza Aguiar, onde faleceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dizem que o calor leva à perda do controle e transforma algumas pessoas em bombas. Agora sabemos que o frio não fica atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso nisso enquanto sigo para o trabalho. No ônibus. Mas com a janela à minha esquerda devidamente fechada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao descer, caminho sob um sol reticente até chegar à empresa. Acho que hoje devo estar com a aparência mais saudável, pois o porteiro não me olhou com ar de piedade. Subo sozinho o elevador e confirmo: estou com a cara razoavelmente boa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às nove horas o primeiro colega a chegar entra na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Soube do cara que mataram no ônibus?”, pergunta-me, após sentar-se diante de seu computador&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O da janela aberta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esse. Hoje mata-se por qualquer coisa. Se você não me oferece um pedaço do que está comendo, ou se não diz que o meu corte de cabelo ficou bonito, posso te dar uma facada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É verdade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tenho uma teoria sobre isso. Na verdade, o ser humano, inconscientemente, está doido para matar o próximo. Não aguenta mais tanta falsa fraternidade politicamente correta. O homem é um animal. E não existe animal gentil. Animal mata. Nasceu para matar. Não viu o caso da orca que matou a treinadora na Flórida?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É por aí. O homem é uma orca de terno. Só muda a roupa. O instinto assassino é o mesmo. Podem vir mais trinta séculos de evolução, que o gosto pelo sangue alheio estará lá. Não tem jeito. É essência. Essência não muda. Para mudar, só criando uma nova espécie, não natural.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Compreendo. Você diz não natural, para não ser contaminada pela violência da natureza.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso aí. Agora você vai pensar bem, antes de dizer não a um desconhecido.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Eu já tenho naturalmente dificuldade em dizer não aos outros. Depois da conversa com o colega, isso certamente irá piorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o almoço, a garçonete pergunta se desejo beber alguma coisa. Respondo que sim. Rosalina Campos entra logo depois no restaurante. Acena de longe e senta-se, sozinha, bem longe de onde estou. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Faço minha refeição sem surpresas. Depois retorno para o trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No banheiro masculino, enquanto escovo os dentes, um colega pergunta se posso emprestar-lhe o meu tubo de creme dental, que o dele acabou. Respondo que sim. E torço para que ele não peça mais nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Imagino-os, os colegas, todos, carregando armas na cintura. Prontos a atirar a qualquer momento. Qualquer mínima recusa servindo de desculpa para expelir, junto com as balas do revólver, toda uma história de repressão de instintos e violência controlada. Talvez eu devesse comprar uma arma também. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A senhora por favor pode apagar o seu cigarro? Eu sofro de asma.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Problema seu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor pode desligar o celular? Estamos tentando ver o filme.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Silêncio, pôrra! Não está vendo que estou tentando falar no celular?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você quer se casar comigo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não, se enxerga.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora com medo de ser notado, procuro às vezes observar nos outros os detalhes reveladores de uma psicopatia. Um quase imperceptível tremor nos lábios, ou nos olhos, diante de uma discordância. Um aumentar no tom de voz quando o interlocutor tenta um aparte. O uso de palavras e expressões como “querida” ou “você não está entendendo”. Deslizes. Relâmpagos de poucos segundos a revelar criminalidades incubadas. Vejo isso o tempo todo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ao mesmo tempo”, diz alguém na sala, comentando o assunto do dia, “o homem se reproduz como nunca. Segue à risca as determinações da natureza. Mata e se reproduz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Reserva de material. Para cada cinco que mata, ele gera um ou dois. Evita o déficit e mantém o equilíbrio populacional.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo-os divagando e vou tomar um café. Junto à máquina, dois funcionários conversam em voz alta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se a lei autoriza que você mate em legítima defesa, então tudo é permitido. Eu posso alegar que você ameaçou o meu pensamento, e por isso eu te matei. Estava defendendo o meu pensamento. Não tem defesa mais legítima.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Da mesma forma, se você falar uma besteira, eu posso te matar e alegar na delegacia que foi em legítima defesa do bom senso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E eu posso te matar porque você é muito feio. Legítima defesa da beleza humana.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis da tarde deixo a empresa debaixo de uma chuva fina. Sinto mais frio, mais solidão e mais tristeza, no meio de tanta gente correndo na rua para chegar em lugar nenhum. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pronta para matar ao menor movimento.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-468610114238862783?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/468610114238862783/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=468610114238862783&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/468610114238862783'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/468610114238862783'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/seis-horas-da-manha.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7338590309323490372</id><published>2010-03-02T21:27:00.000-03:00</published><updated>2010-03-02T21:27:11.270-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Eu procurava a chave da porta e sacudia o guarda-chuva molhado, quando o elevador parou no meu andar e eu saí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso ontem. Por volta de oito da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pensava em nada quando girei a última das chaves, e a porta do apartamento abriu. Estava apenas cansado. Desejava apenas sossego. Antes que entrasse em casa, porém, a porta da vizinha foi aberta. Veio a própria ao meu encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Podemos nos falar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor”, respondi. “Não agora. Não hoje.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me olhou frustrada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor”, repeti.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dizer mais nada, ela virou-me as costas e retornou a seu apartamento. Entrei então no meu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não foi preciso sequer chegar até a sala, onde tudo ocorreu. O cheiro dela estava por toda parte. Naquela noite, eu teria um sono interrompido diversas vezes por ruídos e vozes que eu já não sabia mais de onde vinham. Ruídos e vozes que me perseguiam em sonhos e não desapareciam quando eu acordava. Pareceu-me enfim que, depois de velho, eu iria voltar a ter medo do escuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Acordo. Seis da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento me levantar, mas sinto-me tonto. E com febre. Espero alguns segundos, respiro fundo, e tento de novo. Continuo ruim. Mas não quero ficar em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corro para o banheiro com ânsia de vômito. Fico de joelhos diante da privada, sem no entanto botar nada para fora. Levanto-me dolorosamente. Tão fácil foi ajoelhar-me, que me ponho a chorar sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como cheguei a esse ponto”, me pergunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou me atrasar. Tomo um café rápido, escovo os dentes e me visto. Só não posso desmaiar de novo no trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na portaria, o porteiro mal consegue disfarçar o espanto por me ver tão abatido. Mas nada diz. Decerto para não ter o trabalho de ouvir explicações sobre o meu estado de saúde. Nos limitamos ao bom dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Parou de chover. A temperatura caiu. Agradeço ao motorista quando entro no ônibus, dou bom dia ao cobrador. E congelo ao sentar-me, com o forte ar condicionado dentro do veículo. No banco da frente, algum vândalo bem intencionado escreveu “Suporte o hoje, para desfrutar o amanhã”. A frase ficará na minha cabeça pelo resto do dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando desço em meu destino estou tremendo de frio. Sigo as poucas quadras até a empresa e novamente o porteiro, agora o de lá, se espanta com minha aparência. Quase posso ouvi-lo dizendo ao colega, depois que passo por ele:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Viu a cara do velho? Não dou nem seis meses pra ele empacotar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seis meses? Se ele viver até domingo já é uma vitória.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para minha surpresa, hoje o diretor chegou cedo. Está dentro do elevador, comigo. Traz uma expressão grave que dá lugar ao espanto, quando enfim repara na minha aparência.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que cara é essa? Está doente?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deve ser a virose.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tire o dia de folga. Vá para casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A porta do elevador se abre ao mesmo tempo em que timidamente recuso a oferta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vá para casa”, ele insiste, enquanto entra em sua sala. “Depois a gente conversa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando os colegas começam a chegar, o assunto do dia é o acidente ocorrido dentro do Túnel Rebouças, ontem. Um ônibus atropelou uma moto. Terrível catástrofe. O acidente provocou uma paralisação no tráfego que atrasou a vida de muita gente. Provocou também a morte do motociclista, mas ninguém fala disso. A conversa só é interrompida quando um dos colegas repara em meu rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que houve? Tá doente?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a deixa para que todos se voltem para mim e eu me torne o centro das atenções. Todos falam ao mesmo tempo, perguntam o que eu tenho, como está a minha pressão, se estou me alimentando direito, se tenho feito exames. Na minha idade, tenho que me cuidar. Antes que perguntem se minhas fezes estão moles, o diretor entra na sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você ainda está aqui? Eu não falei para ir pra casa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Suporte o hoje”, penso comigo, “para desfrutar o amanhã.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sob o comando do diretor, os colegas se reúnem ao meu redor e me fazem levantar da cadeira. Sou praticamente expulso da empresa, forçado a ir para casa. Ao passar pela portaria, a expressão do porteiro agora é de piedade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Coitado do velho”, ele parece dizer. “Era um cara legal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já se referem a mim com o verbo no passado. Sigo andando lentamente pela Avenida Rio Branco até chegar na Cinelândia. Que, como eu, é um conceito morto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É masculina e jovem a voz que interrompe meus pensamentos fúnebres. Viro-me para atender e me encontro diante de um rapaz muito magro, muito branco, barba rala no rosto e roupas de hippie. Traz uma bolsa de pano pendurada no ombro e uns folhetos na mão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia”, ele repete, com um sorriso no rosto. “Meu nome é Milton. Eu sou poeta, estou aqui divulgando o meu trabalho. O senhor não estaria interessado em conhecer?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E qual é o seu trabalho?”, pergunto, agora caprichando na cara de enfermo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Poesia. Eu sou poeta. Estou vendendo o meu trabalho. O senhor não gostaria de comprar um exemplar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Exemplar de quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Do meu trabalho. Aqui está uma amostra do que eu faço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o que você faz?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sou poeta. Faço poesia. Eu ajudo a embelezar a vida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Minha vida está muito feia, meu jovem. Muito feia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois então?”, ele parece se animar. “Leia poesia. A poesia vai tornar a sua vida mais bonita.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A minha vida está acabando. Não tem poesia que resolva. Olhe bem para a minha cara.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou olhando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você acha que a poesia dá jeito nisso aqui?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro! A poesia dá jeito em tudo. É só o senhor acreditar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então não basta ler a poesia. Tem que acreditar na poesia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É claro. Se o senhor não acredita no belo, o belo não existe. Se o senhor acredita, então o belo existe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso ver um exemplar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me entrega um dos folhetos. Abro numa página escolhida aleatoriamente, e encontro isso:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;quero cheirar o sumo santo do caldo que sai da tua carótida,&lt;br /&gt;nas noites abissais de abril e maio,&lt;br /&gt;nas trevas colossais do inferno em nosso coração quente,&lt;br /&gt;e de manhã estaremos os dois, os três, os todos,&lt;br /&gt;dilasserados na terceira lua de Saturno,&lt;br /&gt;com nossas almas espalhadas no vácuo torto da irrazão humana&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então?”, ele pergunta. “O senhor gostou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Dilacerados é com c.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Erro de digitação. O senhor vai querer um?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sábia decisão. O senhor é um homem de bom gosto. Aposto que já está achando a vida mais bonita.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Linda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu faço parte de um grupo de poesia. Se o senhor quiser contratar um sarau, uma performance, é só entrar em contato. Tem o nosso telefone e email. A gente vai até a sua casa e faz um recital com nossos poemas. É muito foda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso imaginar. Como seria uma performance sua sobre um verso como &lt;i&gt;quero cheirar o sumo santo do caldo que sai da tua carótida&lt;/i&gt;?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quer que eu faça aqui? Se quiser, faço agora para o senhor ver.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, não precisa. Confio no seu bom gosto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ficou com vergonha. Tudo bem. O senhor está com sorte que hoje eu saí de casa tranquilão. Além do mais, o senhor comprou um exemplar meu. Virou meu amigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se eu não comprasse, não seria seu amigo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. A poesia é bela, mas a fome é exclusivista, tirana e desgraçada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está com fome?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem não está? A diferença está no cardápio.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo convidando Milton para almoçar. Ele fala o tempo todo. Parece alucinado. Mas conseguiu me divertir. Depois do almoço, ele diz que tem que trabalhar, e nos despedimos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Até breve, amigo”, ele grita, de longe, pulando e acenando. “Não esqueça que a vida é bela!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vou tentar lembrar disso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7338590309323490372?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7338590309323490372/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7338590309323490372&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7338590309323490372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7338590309323490372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/eu-procurava-chave-da-porta-e-sacudia-o.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7500548945956154050</id><published>2010-03-01T19:46:00.002-03:00</published><updated>2010-03-01T19:46:59.987-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ela saiu de meu apartamento às pressas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não havia em seu corpo tecido suficiente que lhe escondesse a nudez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em minha boca as palavras eram escassas. Permaneci estirado no chão, sujo e exausto, quando ela saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso foi sábado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde então não nos falamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é segunda-feira. São seis da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Sento-me no ônibus levando no colo grandes porções de medo e de culpa. Sei agora como é perder o controle. Não sei como fazer para recuperá-lo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chuva lava a paisagem, e o vidro molhado da janela mostra pessoas distorcidas. Sentado atrás de mim, o homem falando no celular promete:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você pode ficar sossegado. Eu resolvo essa situação com o juiz, e você nunca mais vai ter problema com a sua ex. Confie em mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu ouço diferente:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Contrato um marginal, o marginal manda para o inferno a mulher com quem você foi casado quinze anos e teve três filhos, depois passo a te chantagear e você fica na minha mão para o resto da vida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas mulheres à minha frente. Uma delas diz: &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Querida, está lindo seu cabelo picotado. Conta pra mim: o Adilson seu marido amou, não amou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o que eu ouço é:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Adilson odiou, sua ridícula. Ele mesmo disse isso pra mim ontem, no motel, enquanto você atendia pacientes cancerosos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço do ônibus no centro do Rio debaixo de vento e chuva. A cidade não está sendo lavada. Ela está afundando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro na empresa molhado. O segurança me cumprimenta com um espirro. No espelho dentro do elevador, vejo um reflexo sem rosto. Entro na sala, sento diante do computador, aturdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às nove e quinze os colegas começam a chegar. Dia de chuva, todos se atrasam. Um deles retira uma folha de papel de dentro da pasta e se aproxima de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tenho uma proposta irrecusável pra te fazer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço outra coisa, e antes que ele continue eu respondo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais uma semana que começa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7500548945956154050?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7500548945956154050/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7500548945956154050&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7500548945956154050'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7500548945956154050'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/03/ela-saiu-de-meu-apartamento-as-pressas.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5007184465419871372</id><published>2010-02-28T18:13:00.003-03:00</published><updated>2010-02-28T18:15:52.963-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Na paisagem vazia da madrugada os três aparecem na virada da esquina. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão tão bêbados quanto lhes é possível. Um deles, inclusive, acabou de cair.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, o cara caiu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ajuda a levantar, ajuda a levantar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantam o cara. Passam a seguir assim, abraçados, pela rua. Até que chega o momento que um deles tem que perguntar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estamos indo pra onde?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Depende”, responde o que está sendo carregado. “Estamos, quem? Nós três ou o universo? Se você vier com filosofia a essa hora, te enfio a porrada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não lembro onde eu moro. Na verdade, não lembro nem quem são vocês. A gente se conhece?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você tá pior do que eu. Peraí que eu vou pegar a carteira. Deve ter alguma coisa nela. Pega a tua também.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os três pegam as respectivas carteiras. Por sorte, todos trazem papéis com os respectivos endereços. Ficam tão felizes que gritam e se abraçam estabanadamente. Já têm casa para voltar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ei, meu papelzinho caiu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O meu também.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E o meu. Que se dane.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos pegar qualquer um.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pegam qualquer um e se despedem, cada um seguindo na direção do endereço do papel que lhe coube.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O primeiro, que mora mais perto, parou na porta de uma casa que lembra vagamente a sua. A chave não entrou na fechadura, mas procurando no vaso com plantas ele encontra outra. Entra já deixando a roupa pela casa. Quando chega no quarto está nu, e logo se acomoda na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para sua surpresa, há uma mulher dormindo em seu leito. Ele nem lembra que é solteiro, trata logo de acomodar-se atrás dela e fazer o papel de marido. A mulher, ainda perdida na incerteza de estar acordada ou sonhando, cede ao assédio julgando que as mãos quentes que a apertam são do marido que chegou animado. Mesmo sonolenta, no entanto, ela acaba sentindo a diferença entre o homem com quem vive há dezenove anos e esse, e repele o estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos gritos ela expulsa da cama o invasor que, com as peças de roupa na mão, é obrigado a deixar nu a casa que pensou ser a sua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O segundo também não conseguiu abrir a porta com sua própria chave. Por coincidência, muita coincidência, a chave do escritório é praticamente idêntica à da casa que pensa ser a sua, e ele consegue entrar. Caminha silenciosamente para não acordar a esposa que, a essa hora, está dormindo, e entra no quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depara-se com um quadro bizarro. Iluminados pelo luar que entra pela janela, existem duas pessoas dormindo em sua cama. Uma mulher e um homem. Se não é ele quem está lá, o homem só pode ser outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que merda é essa aqui na minha casa?”, ele brada, furioso, o dedo em riste apontado para o alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O casal desperta em pânico. O homem tenta vestir-se, a mulher tenta explicar-se, mas antes que consiga recebe uma bofetada. Os três falam ao mesmo tempo, até que alguém se lembra de acender a luz do quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem é você?”, pergunta a mulher, ao ver que o estranho que lhe sentou a mão na cara não é seu marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu que pergunto”, ele diz, mal conseguindo falar direito de tão bêbado. “O que você está fazendo na minha casa com esse patife? Saiam daqui agora mesmo ou eu chamo a polícia!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o primeiro, também este acaba sendo expulso da casa que não é a sua. Não sem antes levar um safanão do homem que ocupava a cama, pela invasão, pelo susto e pelo tabefe que deu na mulher.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aos tropeços pela calçada, ele abraça o que ainda lhe resta de raciocínio e vai retornando pelo mesmo caminho por onde veio. Na pior das hipóteses, voltará ao ponto onde tudo começou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi lá comemorar alguma coisa, mas não lembra o quê. Lembra apenas que conheceu dois caras estranhos, e que bebeu com eles. Os dois choramingavam pelos cantos, um porque desconfiava que a esposa o traía e o outro porque estava cansado de viver sozinho e queria uma mulher. Dois idiotas. Ficou bebendo com dois idiotas quando podia estar em casa com a esposa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabou encontrando um dos idiotas vagando pela rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E aí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que entrei na casa errada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu também.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na verdade eu nem sei se tenho uma casa. Nem sei se o buraco que habito se presta a receber a alcunha de lar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pronto, começou a ladainha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você guardou o teu papelzinho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Joguei fora. E você?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ficou lá dentro da casa. O papel, minha gravata e minha meia. Que hematoma é esse na tua cara?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me deram uma surra. Três caras. Mas eu também bati.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha. Eu não sei quanto a você. Mas essa noite tá muito esquisita e eu não estou com condições.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Condições de quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Condições. A vida é muito esquisita. Numa hora te abre as portas do paraíso, e na outra te bota pra correr do paraíso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não estou entendendo nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu vou te contar um segredo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Diz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Essa noite, por um breve momento, eu fui o homem mais feliz do mundo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É a cachaça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Foi uma mulher. Uma mulher maravilhosa. Maravilhosa. Quente. Macia. Apertada. Eu estava me sentindo realizado como homem. Nunca me senti assim. Nunca. E eu sei que ela estava gostando. De repente... puf!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Puf?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Puf. Acabou tudo. De repente eu vim parar aqui de novo. Por isso que eu te digo. Eu não sei mais nada nessa vida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Idiota. E vai fazer o que agora?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Volto para o bar. Você vem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois atravessam a rua. Caminham lentamente. Nem desconfiam que estão indo na direção errada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Sentado diante da porta de uma casa cujo único morador está nesse instante bêbado e à procura de um bar, o terceiro aguarda. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chave não entrou na fechadura, e ele não quer tocar a campainha e acordar a esposa que ele pensa estar dormindo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, ficará ali sentado até amanhecer e ela acordar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5007184465419871372?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5007184465419871372/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5007184465419871372&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5007184465419871372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5007184465419871372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/na-paisagem-vazia-da-madrugada-os-tres.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-9158997889316333877</id><published>2010-02-27T19:42:00.004-03:00</published><updated>2010-02-27T21:48:49.339-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Desci para comprar o jornal. Quando volto para casa o pequeno demônio que habita o meu ombro já está resmungando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Depois vai deitar diante da TV, se lamentar de como a sua vida é miserável e como você é infeliz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Começou cedo, hoje.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não adianta tentar ocultar aquilo que faz parte da sua natureza. Não tente se enganar. Só está perdendo tempo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou sempre perdendo tempo. Já me acostumei”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, não se acostumou”, ele me interrompe. “Você sofre com cada minuto que vira as costas para um exemplar de fêmea que o atrai. Cada vez que a oportunidade lhe surge e você não a captura, é uma nova queimadura a manchar essa pele mais e&amp;nbsp; mais flácida de que os ossos se vestem. Daí você tenta esconder-se em sonhos impuros, dos quais sai no meio da noite para masturbar-se como um adolescente patético.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que vou beber água.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode ir. Eu já havia terminado mesmo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cozinha, tiro da geladeira a garrafa d'água. Não sei por que minha mão treme tanto. O copo de cristal não está, no entanto, no lugar de sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retorno à sala. O pequeno demônio que habita meu ombro está lá, em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde está meu copo de cristal?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele agora não fala mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunto de novo. Ele apenas me olha fixamente. Observa com curiosidade meus olhos, minhas mãos, minhas pernas, minha virilha. Parece ansioso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pergunto uma última vez. Volto então para a cozinha para tentar encontrar o copo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas já com a certeza de que esse copo não existe mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto até meu quarto. No bolso da calça há um papel com um número de telefone. Levo o papel para a sala e pego o telefone. Ligo para a casa da vizinha. É ela quem atende. Digo que aquele que ela gostaria de conhecer está aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela nem espera que eu termine.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou indo para aí.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A campainha toca logo depois. Atendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde ele está?”, ela vai entrando sem sequer me cumprimentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ali.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela entra. Parou no meio da sala. Não o vê. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele está do lado dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aí. Do seu lado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que ele está fazendo? Está dizendo alguma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele está em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim”, respondo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que ele está dizendo? Está mandando você fazer alguma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O quê? O que ele quer que você faça?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que ela possa reagir, empurro com violência o seu corpo. Suas costas batem contra a parede. Não deixo que se recupere, avanço até onde ela está e cubro sua boca com a minha. Sinto sua tentativa de gritar descendo por minha garganta. Ela se debate. Vamos os dois ao chão, eu por cima dela. Sua roupa vai deixando, aos pedaços, o corpo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está ouvindo as trovoadas?”, o pequeno demônio, que a tudo assiste, enfim pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-9158997889316333877?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/9158997889316333877/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=9158997889316333877&amp;isPopup=true' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/9158997889316333877'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/9158997889316333877'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/desci-para-comprar-o-jornal.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-1598766169010039785</id><published>2010-02-26T19:45:00.001-03:00</published><updated>2010-02-26T19:45:18.992-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Parece que após o desmaio alguns colegas perceberam que sou vulnerável, e agora estão se aproximando para conversar. Destes, não me espantarei se houver um ou outro, ou todos, cujo interesse se limite a saber como é a minha voz, antes que eu morra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, procuro falar o mais baixo possível. Interrompo minhas frases com acessos de tosse. E passei a forjar uma certa dificuldade para levantar-me e caminhar, enfeitando-a com expressões de discreto sofrimento. Quem me vê, pensa que estou nas últimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Rosalina Campos é uma mulher com cabelo pintado de vermelho escuro, tem sobrancelhas grossas e uma delicadeza na voz que contrasta com o metro e quase oitenta que separa o topo da cabeça e a sola dos pés. É dez centímetros mais alta que eu. Trabalha no mesmo andar, em outro setor. Hoje inventou de me acompanhar no almoço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor vai me desculpar o inconveniente”, ela diz, durante a nossa refeição. “Mas depois que o senhor passou mal eu vi o quanto o senhor é valente, o quanto o senhor luta. Está todos os dias ali, fazendo o seu trabalho”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nunca faltei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, sim, nunca faltou. Eu vi que o senhor ficou chateado quando o diretor lhe deu o dia de folga. O senhor nunca faltou, nunca recebeu uma reclamação, nunca falou mal de ninguém. Lá na empresa todo mundo fala mal de todo mundo. Pela frente eles são só sorrisos, mas é só virar as costas que falam coisas pavorosas. Lá é uma selva. Mas nunca ouvi nada do senhor. Só o de sempre, que o senhor vive lá no seu canto, que só tem olhos para o seu trabalho, que é caxias.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo a tossir. Ela continua falando, agora mais alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E agora que o senhor passou mal, eu me dei conta de que o senhor é uma pessoa boa. O senhor é uma pessoa bonita, que chegou num ponto da vida que a divindade começa a tocar o ser humano. O senhor é daqueles que estão mais próximos de Deus, e isso me emociona muito”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela então começa a chorar. Nem tenta conter-se, o que faz com que todos os olhos do restaurante se voltem para a nossa mesa. Ofereço um guardanapo para que ela enxugue as lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor me desculpe”, ela soluça. “Me desculpe. Eu sou muito emotiva. Idoso é uma coisa que me deixa muito emocionada. Eu perdi recentemente a minha avó, eu gostava muito dela. Não acho justo que o ser humano, no momento da vida em que atinge a beleza mais verdadeira, tenha de morrer. Eu não acho justo, não acho justo”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não consegue falar mais. Está soluçando como uma criança. De repente pede licença, se levanta e vai para o banheiro. Me deixou sozinho na mesa. Todo mundo está olhando para mim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-1598766169010039785?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/1598766169010039785/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=1598766169010039785&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1598766169010039785'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1598766169010039785'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/parece-que-apos-o-desmaio-alguns.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6298166818353526195</id><published>2010-02-25T19:20:00.001-03:00</published><updated>2010-02-25T19:20:12.714-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Alguma chuva escorrega da janela enquanto me levanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São seis horas da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para sair da rotina, hoje me levantei pelo lado direito da cama. E não pelo esquerdo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas plantas morreram. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O resto é igual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às dez horas da manhã o diretor assina o documento que deixei em sua mesa. Retorno para meu setor com o papel na mão, após cumprimentar Fada Sininho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha”, digo a ela. “Eu não joguei xadrez com o Figueiredo. Mas já apertei a mão do Brizola.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem é Brizola?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deixa pra lá.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às oito e meia da noite estou jantando e vendo televisão. Quarenta minutos antes, estava sentado diante do computador e escrevendo essa página que você está lendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às duas da tarde retorno do almoço. No restaurante uma senhora apressada trombou com um rapaz, que deixou cair o prato com sua refeição. Não vi, mas escutei o barulho do prato caindo e os gritos do rapaz, xingando a senhora de imbecil. A dona do restaurante resolveu a situação oferecendo um novo prato ao rapaz, e uma mesa bem distante da senhora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às sete horas da manhã estou escovando os dentes que me restam. Penso no documento que tenho de preparar para que o diretor assine. Tento esquecer, sem conseguir, a vergonha do desmaio de ontem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas horas e meia depois, quatro colegas na empresa já perguntaram se estou melhor. O mais gaiato pergunta se vi uma luz enquanto estava inconsciente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis e vinte da noite estou dentro do metrô parado. “Estamos aguardando a liberação do tráfego à frente”, diz a voz feminina no auto-falante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às nove e quarenta e cinco da manhã, o diretor telefona para minha sala. Quer saber se terminei o documento para levar até ele. Respondo que sim, e vou levar o papel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às quinze para as oito atravesso a portaria. O porteiro não está lá. Quando ganho a rua, percebo que esqueci o guarda-chuva e tenho de voltar para buscar. Subo de novo o elevador, giro de novo a chave na fechadura e abro a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora não sei mais que horas são. Estou apenas suspirando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6298166818353526195?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6298166818353526195/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6298166818353526195&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6298166818353526195'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6298166818353526195'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/alguma-chuva-escorrega-da-janela.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-1043255426946108350</id><published>2010-02-24T18:46:00.004-03:00</published><updated>2010-02-24T20:08:03.670-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Acordo ritualisticamente às seis da manhã. Cumpro resignado a rotina da higiene, do alimentar-se e do vestir-se. Não pergunto mais o porquê das coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ônibus sem ar condicionado, procuro o meu lugar e me acomodo. Um ambulante está vendendo, não ouço exatamente o quê. Tento não ouvir. Tento não sentir o suor descendo pela barriga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço em meu destino e caminho até a empresa pensando quantos dias me restam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico sempre assim, após noites como a de ontem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto-me envergonhado. Subo o elevador da empresa de costas para o espelho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do computador, vejo o sol entrando pela janela e me pergunto até que ponto isso é verdadeiro. E o que é mais verdadeiro, a claridade desse sol ou a sombra na cabeça do homem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Região tão obscura que não há luz que a atravesse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nove horas. Meus colegas começam a chegar ao setor. Em suas faces não há qualquer sinal de conflito. Todos guardam muito bem a escuridão. Disfarçam-na atrás dos óculos de sol, celulares e jornais do dia. De sorrisos, principalmente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém me pergunta se já terminei determinada planilha para anexar em determinado processo. Respondo que não, que estou terminando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mentira, nem comecei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por mim, me levanto agora e retorno para casa. Fujo, recupero uma juventude há muito deixada para trás e corro. Corro para o meio dos carros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou informado de que determinado orçamento não foi aceito e que terei de refazer. Respondo que tudo bem, refaço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O carro que me atinge é japonês. O símbolo em sua frente é a última coisa que vejo, antes que a multidão se feche à minha volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Copio no computador o modelo da planilha e altero os dados. Corrijo os prazos, calculo as diferenças, troco as alíquotas, preparo um documento, mando imprimir e levo para o diretor assinar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntam-me se estou bem. Respondo que não. Alguém pede para a multidão se afastar. Acho que sou eu que peço. Não me sinto. Perguntam então se tenho alguém a quem avisar. Respondo que não. Querem saber se alguém sentirá a minha falta. Respondo que não. Indagam se alguém vai perceber, se por acaso eu deixar de existir hoje. Continuo respondendo que não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor está bem? O que aconteceu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei como vim parar no corredor, nos braços de alguém. Os funcionários saem de suas salas para ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desmaiou. Deve ser o calor. Por sorte não bateu a cabeça. Na sua idade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ajudam-me. Botam-me de pé. Perguntam se não quero ir para um hospital. Não precisa. Alguém traz água. Bebo. Me levam de volta para a sala. O diretor vem ver o que tenho. Diz para eu ir para casa, me dá o dia de folga. Não quero ir para casa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua a essa hora da manhã, não sei o que fazer. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caminho hesitante até o metrô e paro diante da estação. Que opções tenho. Acabo entrando.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-1043255426946108350?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/1043255426946108350/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=1043255426946108350&amp;isPopup=true' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1043255426946108350'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1043255426946108350'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/acordo-ritualisticamente-as-seis-da.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5903542284920458766</id><published>2010-02-23T19:16:00.002-03:00</published><updated>2010-02-23T19:16:35.908-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis horas. Bom dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento vai clareando à medida que eu o percorro. Quando chego no banheiro já é possível enxergar alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu me pergunto se é mesmo possível enxergar alguma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deixo debaixo do chuveiro um pouco de exaustão e apatia. O resto não sai nem lavando com água sanitária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acordou com ereção no meio da noite”, diz o demônio que habita o meu ombro. Ele aparece no momento em que tomo café.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Impressão sua.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu vi. Ereção enorme. Teve algum sonho interessante? Com quem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso em telefonar para a vizinha e satisfazer-lhe a curiosidade. A curiosidade dela. Mas não chamo. Muito cedo. Deve estar dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E então?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então nada. Me deixe tomar meu café sossegado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, não lembro se aconteceu mesmo isso que ele diz. Não sei se é verdade ou troça. Não lembro o que sonhei essa noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando desço do ônibus, me dirijo a um policial.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia, senhor policial. O senhor poderia me dar uma informação?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois não, senhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor sabe se alguma mulher foi assassinada ontem de manhã?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Houve alguma morte nas redondezas ontem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Morte? Não que eu tenha conhecimento. Por que o senhor pergunta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por nada. Que bom que não morreu ninguém, não é mesmo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sigo sorrindo, deixando para trás um policial confuso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Na empresa, vejo que o conflito temporal foi resolvido, e o relógio do computador ajustado. Agora são oito e meia. O horário de verão ficou mesmo para trás. Quando começo a verificar os processos deixados em minha mesa, no entanto, as imagens do que sonhei à noite, uma a uma, vão fugindo do esquecimento e se projetando, como um filme de mau gosto, do lado de dentro de meus olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele tinha razão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanto-me. Vou buscar um café. Tento não ver. Mas vejo. Como que pedindo socorro, puxo conversa com a funcionária da limpeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A senhora não usa luvas?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando faço a limpeza do banheiro, ou recolho o lixo das salas, uso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E essas luvas são seguras?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que são.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nunca teve problemas na pele? Hoje em dia o nosso lixo está tão complexo, e os produtos químicos tão químicos, que vai chegar a hora em que um simples detergente vai ser capaz de corroer metal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela olha para mim sem entender. Depois começa a rir. Pensa que estou brincando. Com a chegada&amp;nbsp; dos funcionários, volto para minha sala. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis saio da empresa. Não foi um dia fácil. Pouca concentração. Quando chego em casa, perco o controle de meus atos e, na cama, faço o que não devia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5903542284920458766?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5903542284920458766/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5903542284920458766&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5903542284920458766'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5903542284920458766'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/seis-horas_23.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-3594257267022056547</id><published>2010-02-22T19:08:00.002-03:00</published><updated>2010-02-22T19:08:40.592-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis horas. Não importa se terminou o horário de verão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio da cama como quem rasga uma carta, destrói uma estátua, queima uma foto. Como quem está diante de algo que não quer ver.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O reflexo no espelho cada dia mais pálido. Não se reconhece em mim. Mas eu me reconheço nele, por mais horror que a sua decadência me desperte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando saio do banheiro, subo as escadas que me levam a outro cômodo. Só lá em cima me dou conta de que não há escadas em meu apartamento. Há duas portas diante de mim. Uma à direita, outra à esquerda. Empurro a da direita.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Encontro meu vizinho, com a gata branca nos braços, trajando um roupão de seda verde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Minha esposa lhe agrada?”, ele pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fique com ela. Eu tenho Nefertiti. Veja o que ela faz comigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vizinho abre o roupão. Exibe um torso dilacerado pelo que poderia ter sido as garras de um tigre. O rasgão vermelho na carne, que começa pouco abaixo do pescoço, vai até a virilha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nenhuma mulher seria capaz de tamanha determinação, tamanha ferocidade, tamanho ódio”, ele diz. “Fique com a minha esposa. Ela está no outro quarto. Mas você terá de entrar na fila.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fecho a porta, assustado com as feridas abertas e sanguinolentas do vizinho. Volto-me para a outra porta. Ao contrário da anterior, nessa ouço barulho vindo de dentro. Gritos femininos. Talvez gemidos. Gemidos muito altos. Encosto o ouvido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É ela. A voz dela. Está fazendo sexo com alguém, ao que parece. Não consigo distinguir o que diz, se é que diz alguma coisa. Em alguns momentos parece chorar. Em outros, está urrando. Bato delicadamente na porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está tudo bem?”, pergunto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os berros continuam lá dentro, então eu bato de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olá? Posso entrar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez ela não esteja ouvindo. Tento bater mais forte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acabo acordando com minhas próprias batidas. E ainda nem são seis horas. Fico esperando o despertador tocar para levantar-me, e começar tudo de novo. Saio da cama como quem rasga uma carta, destrói uma estátua, etc.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;No ônibus, a senhora pede.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Motorista, abre a porta aqui, faz favor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o motorista não abre, nem responde, ela recorre à cobradora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Minha filha, pede pro motorista abrir aqui, faz favor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentada de costas para os passageiros, tampouco a cobradora responde à senhora. Desconfio que estamos sendo transportados para algum ponto desconhecido por zumbis mecânicos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando desço do ônibus, um vento leve alivia o calor do sol. O caminho até a empresa fica menos árduo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem passa por mim falando sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela pensa que eu sou palhaço. Vagabunda. Piranha. Vou mostrar pra ela o palhaço. Vou dar um tiro naquela cachorra.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro no prédio da empresa com o dilema de, ao não ter alertado um policial quanto aos instintos homicidas do homem, talvez estar contribuindo para um assassinato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do computador, vejo que o relógio no canto inferior direito da tela não foi corrigido. Ainda está no horário de verão. Tento corrigir eu mesmo, mas a mensagem que aparece diz que eu não possuo o nível de privilégio necessário para alterar a hora do sistema. Ligo para o setor de informática.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Informática.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia. Estou tentando alterar a hora do relógio, que ainda está no horário de verão. Mas não consigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não tem o nível de privilégio necessário para alterar a hora do sistema.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei, é isso o que aparece escrito quando tento. Vocês não vão alterar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você deseja pedir um chamado?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desejo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Anote aí o número.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me passa o número e eu anoto. Daqui a uns dois dias, imagino, o relógio será acertado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-3594257267022056547?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/3594257267022056547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=3594257267022056547&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3594257267022056547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3594257267022056547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/seis-horas_22.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7743927819990759441</id><published>2010-02-21T17:13:00.002-03:00</published><updated>2010-02-21T17:13:03.562-03:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Toda noite ele esperava a esposa dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando ela dormia, ele se levantava da cama devagar e saía do quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentava no sofá da sala e ligava a TV quase sem volume.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sua distração era assistir programas religiosos apresentados por pastores. Mas um em particular se tornara preferido, desde o dia da descoberta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia um rosto no auditório onde o programa era gravado. Um rosto perdido de mulher, que a princípio ele não notou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ela estava sempre lá, no auditório. A mulher. Não perdia um culto. Depois que ele identificou aquele ponto luminoso na tela, o programa se tornara obrigatório. Ele a procurava na multidão e, quando encontrava, sorria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era assim todas as noites. Estava apaixonado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Numa dessas noites a esposa dele acordou. Sozinha na cama, o marido não voltava, ela levantou-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi dar com ele na sala, acordado diante do culto televisivo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daquela vez ela não ligou. Estava com muito sono e voltou para a cama sem nada dizer. Ele nem percebeu-lhe a presença. A repetição do ato – e do programa – nas noites seguintes, no entanto, careciam explicação. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela concluiu que o marido havia se tornado crente. Mas teria vergonha de lhe contar, já que ela era católica apostólica romana e por seguidas vezes fizera referências pejorativas à outra religião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À surpresa, então, seguiu-se a ternura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O cuidado que ela pensou que ele estava tendo, ao ocultar-lhe o novo credo, comoveu-a. Para ela, as noites de sono perdidas com a religião significavam problemas materiais que ele não estava conseguindo solucionar. E, sem ter com quem compartilhar a agonia, buscava ajuda na fé. Mesmo que em outra fé. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não era um relacionamento pautado pelo diálogo. Por isso ela também não compartilhou com ele a decisão de conhecer o culto que o atraía. Avisou no serviço que não poderia ir trabalhar, porque o marido adoecera, tomou um ônibus e foi até a igreja onde o programa era gravado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela acabou gostando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Voltou mais vezes. Apareceu inclusive no programa, mas o marido não a reconheceu. Viu o pastor pessoalmente. Encantou-se com ele. E foi correspondida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando descobriu que o pastor lhe daria um filho, pediu o divórcio do marido. Ele chorou e sofreu a dor da separação, amenizada apenas pelos encontros noturnos que mantinha com o rosto na tela da TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até aquela noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sozinho em casa, sem precisar diminuir o volume do aparelho, ele esperou o programa. Esperou a câmera mostrar os fiéis no auditório. Sabia onde ela costumava ficar, mas dessa vez não a encontrou. Foi achá-la no palco, junto ao pastor, tendo convulsões no chão. Outros homens tentavam segurá-la, ela se contorcia e gritava como um animal ferido, e ele estendia as mãos querendo ajudar sem poder.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela estava sendo possuída pelo diabo, gritava o pastor. Havia um espírito ruim dentro dela, que ele iria expulsar e mandar de volta para o inferno. Isso ele dizia enquanto ela escoiceava. E foi num desses coices que seu corpo escapou das mãos que a seguravam, e ela caiu. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na queda, sua cabeça bateu no pedestal do microfone e ela parou de escoicear. Rapidamente o pastor gritou que ela estava livre do espírito ruim, e enquanto a retiravam do palco ele ordenou os fiéis a fecharem os olhos, erguerem as mãos e cantarem com ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele nunca mais a viu. Nos programas seguintes procurou-a obsessivamente no meio da multidão que a câmera focalizava. Olhava rosto por rosto, e só conseguiu encontrar a ex-esposa. Resignado, passaria a compartilhar com ela esse breve momento de união, cada um de um lado da tela da TV.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7743927819990759441?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7743927819990759441/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7743927819990759441&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7743927819990759441'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7743927819990759441'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/toda-noite-ele-esperava-esposa-dormir.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-345962242348064626</id><published>2010-02-20T17:44:00.001-02:00</published><updated>2010-02-20T17:44:45.057-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A senhora que vem todo sábado fazer faxina no apartamento telefonou, dizendo que a filha está doente e sozinha, sem ter quem dela cuide porque o marido a abandonou, aquele traste. Portanto, não virá hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou na cama olhando ora o teto, ora a TV desligada. Um médico recomendaria aproveitar o sol para caminhar um pouco. É bom para a minha idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deve ser avançada, a minha idade. Porque não lembro qual é.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei o que espero, deitado aqui. O apartamento está tão silencioso que, se fechar os olhos, é possível que não os abra mais. Então eu fecho os olhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Através das pálpebras fechadas consigo distinguir vultos. Vários. Alguns parecem apenas galhos de árvore animados. Flutuam de um lado para outro, devagar. Fico acompanhando seus movimentos, e acabo adormecendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Precisa de um empurrãozinho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo assustado. Sonhava que caía. Esfrego as vistas e olho ao redor, me certificando de estar mesmo acordado. Tem se tornado difícil reconhecer de imediato o que é sonho e o que não é. E o que acontece agora só reforça essa impressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deitado no chão, diante do móvel da TV, há um gato branco. Não faz nenhum som ao me ver, apenas me observa com a tranqüilidade dos felinos. Parece Nefertiti, a gata dos vizinhos. Levantando-me da cama, vou até ela e, mesmo com as costas reclamando, me curvo para pegá-la. O bicho não oferece qualquer resistência.&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio do apartamento e vou bater na porta dos vizinhos. Toco a campainha duas vezes. A Esposa é quem atende. Não parece surpresa quando vê a gata em meus braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela às vezes escapole para dar suas voltinhas”, diz a Esposa, convidando-me para entrar e fechando a porta às minhas costas. “É da natureza dos felinos, quem somos nós para censurar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro em seu apartamento pela segunda vez, e me surpreendo com minha própria desenvoltura. Vim apenas devolver a gata. E no entanto estou de novo parado diante do móvel onde eles colocaram suas pequenas esculturas e lembranças.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor prefere um café ou chá?”, a Esposa pergunta, após colocar Nefertiti numa poltrona.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não quero dar trabalho. Seu marido?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Caminhando. Foi aproveitar o sol. Eu não quis ir. Na verdade, estava justamente pesquisando sobre aquele seu assunto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O demônio que habita o meu ombro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso. Não fale nele por enquanto, melhor não atrair sua atenção. Ele está aí agora?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ótimo. Eu encomendei um livro que parece muito bom para o que estamos querendo, mas ainda não chegou. Tenho procurado em outras obras, mas por enquanto o seu amigo aí ainda é uma interrogação para mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor, não precisa ter todo esse trabalho por minha causa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não é trabalho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;“Na verdade, só vim trazer Nefertiti. Não sei como ela conseguiu entrar em meu apartamento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não há nada que ela não consiga. Sente um pouco. A menos que tenha algum compromisso agora pela manhã.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nenhum, apenas”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sente, então. Me faça companhia. Gostaria de saber mais sobre ele.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela me oferece um sofá, que fica entre duas poltronas. Nefertiti ocupa uma delas. A Esposa senta-se na outra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que ele faz? Vocês conversam?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. Quando ele quer. Me sinto sozinho às vezes, e o procuro, mas nessas horas ele desaparece.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E quando ele quer, sobre o que falam?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É um pouco constrangedor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Falam sobre sexo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele sugere situações que o deixam embaraçado, é isso? Fala de coisas que você deveria fazer e que jamais passariam por sua cabeça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, exatamente. Ele parece querer me empurrar para um estado de total devassidão. Eu nem tenho mais idade para isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não há idade para isso. Cite um exemplo de algo que ele disse, que o deixou embaraçado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que não poderia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por favor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele sugeriu que eu chantageasse a filha daquela senhora que mora no sexto andar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Chantageasse? Como?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu a vi, por acaso, na escada, com o namorado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você diz aquela menina loirinha? A filha da Teresa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. Ela e o namorado estavam na escada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E ele sugeriu que o senhor a chantageasse para obter favores sexuais. O que achou da idéia? A filha da Teresa é uma menina linda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Fiquei chocado. Ela é uma criança. Não importa se não pareça, ela é.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O corpo não é de uma criança, não acha? As roupas que ela veste não são.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas o olhar é.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“De quem mais vocês falam? Colegas de trabalho, outras vizinhas? Ele já falou de mim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode falar, não precisa se constranger. Ele nunca sugeriu que você me seduzisse ou estuprasse?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Creio que não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor se importa se eu pedir uma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Peça, por favor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor se importa de me chamar até o seu apartamento, quando estiver com ele?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quando estiver com ele. Quando ele estiver falando essas coisas que o embaraçam tanto. O senhor pode me telefonar? Eu iria até o seu apartamento. Gostaria de ver o que ele lhe diz. Deixe-me pegar um papel.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela se levanta e, de uma gaveta, retira caneta e papel, onde escreve o número de seu telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me telefone, por favor. O senhor fará isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Farei.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-345962242348064626?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/345962242348064626/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=345962242348064626&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/345962242348064626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/345962242348064626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/senhora-que-vem-todo-sabado-fazer.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7652956522084665428</id><published>2010-02-19T19:11:00.001-02:00</published><updated>2010-02-19T19:13:45.095-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis horas. Não espere novidades. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cada dia minhas mãos perdem um pouco da firmeza. Meus dentes, por mais que os escove, mais escuros ficam. Meus cabelos vão-se embora e já nem fazem questão de se despedir. Qualquer mínima caminhada me deixa exausto e triste. As boas lembranças já se confundem com elementos da imaginação, minha e dos outros. Começo a ter dúvidas se determinado sorriso se deve a algo que vivi ou imaginei ou li. Fico pensando no urso do documentário. Se tivesse que enfrentar um oponente jovem agora, eu não teria força nem para sair correndo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há alguns dias não rego as plantas. Com o calor que tem feito, elas estão morrendo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me visto e saio. Como sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Chuva fraca. Quando desço do ônibus, levo um susto. Um bando de pivetes passa por mim, muito rápidos para me desviar, muito numerosos para reagir. Um deles para na minha frente e faz uma graça. Mas fica nisso. Quando seguem seu caminho, meu coração bate acelerado. Preciso parar e respirar, mas não paro. De novo lembro do urso velho contra o oponente jovem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na empresa, o segurança vem perguntar se estou bem, ao me ver apoiado na parede e respirando fundo. Ele sabe que estou mentindo quando digo que está tudo bem, e revela uma inesperada atenção ao me levar até uma cadeira e trazer um copo d'água. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado”, é o que consigo dizer. “Obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando enfim entro na sala e me sento diante do computador, minhas mãos tremem. Perco ainda alguns segundos olhando a tela vazia, e então começo a trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Durante o almoço, no restaurante, me surpreendo com o pedido de uma colega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oi. Posso me sentar com o senhor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo que sim. Ela é de outro setor. Nova, trinta e poucos anos. Nunca dissemos nada além de bom dia. Pergunto cordialmente como vão as coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, não muito bem”, ela responde. “Minha mãe está meio doentinha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A colega, que até então desconhecia minha existência, põe-se então a narrar a história da mãe que ficou viúva recentemente. O marido falecera num acidente de automóvel e a esposa, sozinha, entrou em depressão. Os parentes estão preocupados, pois ela recusa-se a comer e quase não fala. Uma história triste, mas vinda na hora errada. Nada do que ela diz me comove.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me limito a ouvir, já que ela deseja apenas falar, não importa com quem. Quando termino minha refeição, peço licença e me levanto. Ela continua falando, sozinha, como se eu ainda estivesse sentado à sua frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis horas, quando saio da empresa, passo diante do restaurante e olho através do vidro. Ela ainda está lá, falando comigo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7652956522084665428?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7652956522084665428/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7652956522084665428&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7652956522084665428'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7652956522084665428'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/seis-horas_19.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6192453653557248919</id><published>2010-02-18T18:55:00.002-02:00</published><updated>2010-02-18T18:55:20.822-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis horas. Recomeça a rotina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu ainda está escuro e, desde a madrugada, chove. Recolho meus pedaços espalhados pela cama e me levanto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O apartamento parece maior. A distância até o banheiro parece maior. Mas na verdade sou eu que a cada dia fico menor, mais curvado, menos saudável e mais sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sinto o gosto do pão na boca. De manhã, só o café forte tem sabor. O café e a areia que engoli durante o sono.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha roupa pesa como uma cruz de madeira. Saio condenado, resignado e com o coração dormente para o trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Caminho para o ponto de ônibus imaginando que, agora que o sol se foi, o veículo com ar condicionado vai reaparecer. Não dá outra. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro, encontro nos passageiros a mesma expressão de casulo vazio. Olheiras, desânimo e a certeza de que o miolo ficou em casa. Não se passa impune por um feriado. Um senhor faz que vai sentar no banco à minha frente. Olha, percebe que está molhado e pede licença para sentar ao meu lado. Fico esperando um comentário amargo a respeito da chuva, do ônibus, da vida, que não vem. Viajamos em silêncio. Quando o ônibus chega no final da Avenida Presidente Vargas, ele desce. Logo depois é a minha vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao entrar na empresa, o porteiro interrompe o que estava falando com o segurança para retribuir o bom dia que lhe dou. Depois retoma a conversa sobre a derrota do Flamengo para o Botafogo, ontem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou sozinho no elevador. No teto, o caroço preto que esconde a câmera me observa. Dou bom dia para o caroço e saio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje todos chegaram mais tarde. A vitória da escola de samba Unidos da Tijuca é o assunto da manhã entre a maioria. Alguns preferem falar do Flamengo. Ontem vi na TV um documentário sobre um urso marrom nas florestas da Rússia. De forma dramática, o programa narrava a ascensão e queda do espécime que era o líder de seu bando. Jovem e imponente, o tal urso vencia os desafiantes ao trono, escolhia as fêmeas com quem acasalar e ocupava a melhor posição nas quedas d'água, durante a temporada em que os salmões sobem a correnteza. Com a chegada da velhice, as fêmeas do urso passam a rejeitá-lo, um desafiante mais jovem lhe dá uma surra, outro arranca-lhe um peixe da boca e ele vai terminar seus dias fraco, sozinho e com a certeza de que não sobreviverá ao próximo inverno.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico imaginando com quem na empresa posso falar deste programa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6192453653557248919?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6192453653557248919/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6192453653557248919&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6192453653557248919'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6192453653557248919'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/seis-horas_18.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2377489115928839700</id><published>2010-02-17T17:42:00.002-02:00</published><updated>2010-02-17T17:42:49.547-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&amp;nbsp;No elevador, perguntam-me se vi o desfile de determinada escola de samba, na TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minto. Respondo que sim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A interlocutora então começa a exaltar o enredo, o andamento, a comissão de frente e todas as categorias que não entendo. Concordo com tudo. Saímos do elevador com ela dizendo que a tal escola, se não houver marmelada, será campeã. Continuo concordando, e me despeço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua, compro um picolé de limão e vou sentar-me no banco da praça. Não acontece nada, e acabo cochilando sentado. Primeira vez que faço isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Chegávamos em grupo e éramos recebidos por sorrisos, que nos davam as boas vindas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estavam lá, a nos aguardar, todos aqueles a quem havíamos perdido um dia. Inclusive os que ainda estavam vivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque lá não era a morte. Nós mesmos, em nenhum instante sentíamos a frieza ou a ausência de qualquer estado que não fosse a vida. Meu coração palpitava e meu sangue circulava como sempre fizera. Estava vivo. Eu e os outros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Reencontrei meu cão, com o mesmo abanar desesperado do rabo, a língua de fora, a vontade de lamber-me o rosto e de receber meus afagos. Meu pai veio me abraçar, e trazia suas três esposas com ele. Minha mãe era uma delas. Abracei todos. Meus amigos de infância estavam lá, e a um professor de português de quem jamais esqueci externei minha comovida gratidão. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E também estava você.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros foram ficando para trás, perdidos na retomada de conversas inacabadas, e logo não havia mais ninguém ao redor. Trocamos um sorriso, e pude dar-lhe o abraço que sempre quis dar desde que nos afastamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está bem?”, eu perguntei. “Está feliz?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Você respondia que sim. Que estava. Conversávamos com a naturalidade de quem jamais se separou. Entendíamos, todos ali, o quanto era sem sentido a perda, a separação, a dor e a saudade. Por isso estávamos juntos. Porque era isso que fazia sentido. Porque era isso que merecíamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Quando me levanto, as costas estão doendo e o suor empapou minha roupa no peito, nas axilas e na virilha. Não há uma única nuvem no céu silenciosamente azul. Quarenta e dois graus, marcam os termômetros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um carro para ao meu lado enquanto caminho. O rapaz junto ao motorista pergunta-me a localização de uma rua. Me chama de tio. Dou a informação e ele segue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A lágrima que ameaça descer eu cuido de impedir, antes que alguém perceba.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2377489115928839700?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2377489115928839700/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2377489115928839700&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2377489115928839700'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2377489115928839700'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/elevador-perguntam-me-se-vi-o-desfile.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4132783183348168571</id><published>2010-02-16T20:07:00.002-02:00</published><updated>2010-02-16T20:08:37.028-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Um casal vizinho encontrou-me na banca de jornais e me convidou para um chá juntos. Recusei gentilmente, mas os dois insistiram. Continuei recusando, e eles continuaram insistindo. Agora estou diante da porta deles. O marido tenta destrancar as fechaduras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Hoje em dia nunca se sabe”, ele diz. “Mas tenho minhas dúvidas quanto à eficácia de toda essa parafernália.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Até hoje tem funcionado”, ela completa, sorrindo para mim. “O problema é que ele vive na espera do dia em que as hordas de bárbaros invadirão nosso lar imaculado a golpes de aríete e me estuprarão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele deve estar atravessando a floresta dos sessenta. Ela deve ter uns vinte anos a menos. Possuem aquela tranquilidade de quem conhece, compreende e aceita o outro. Quando as trancas do castelo são abertas, entramos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um gato branco vem miando até nossos pés quando atravessamos a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esta é Nefertiti”, a esposa me apresenta. “Nossa pequena majestade. Pelo visto gostou de você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A gata fica se enrodilhando em minha perna. Faço-lhe um carinho na cabeça, antes de a esposa pegá-la nos braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela gosta de todo mundo”, diz o marido. “Não conheço melhor relações públicas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou levado até a sala. O apartamento é do mesmo tamanho que o meu, porém a decoração causa inveja. Muitos pequenos objetos dispostos harmoniosamente, capazes de prender por horas a atenção. E livros, muitos livros. Estou diante de uma cômoda admirando uma pequena e curiosa escultura, quando a mão da esposa toca-me as costas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Gostou desse?”, ela pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso é um demônio?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Asic-Pachá. É turco. E, sim, é um demônio. Mas ele não é maligno. Pelo contrário, Asic-Pachá é responsável por criar nos amantes o desejo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Até problemas de impotência ele resolve”, acrescenta o marido. “Esse daí tem-me sido bastante útil.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A associação entre o sexo e o oculto é mais do que natural”, ela prossegue, “a partir do momento em que encaramos a libido e a satisfação dessa libido como algo a ser resolvido longe das vistas, entre quatro paredes. Outras divindades são voltadas ao prazer, como Astartéia, mulher de Astarot com quem teve dois filhos, o desejo e o amor. Parece curioso um demônio parir o amor, não é? Mas Astartéia era relacionada pelos fenícios aos ritos venéreos, e conhecida como senhora dos prazeres noturnos. Há inclusive um casal de demônios, Kelen e Nisroch, responsáveis por incestos, adultérios, orgias e qualquer tipo de amor ilícito. ”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu possuo um demônio em casa”, confessei. “Mas não é uma escultura.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um demônio de verdade, o senhor diz?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. Ele fica no meu ombro, como um papagaio. Talvez a senhora possa me dizer de que se trata.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro. Posso tentar. O que ele faz? Quebra coisas dentro de casa? Aparece em sonhos? Provoca sensações estranhas?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, sim. Ele faz tudo isso. Ele me sugere perversões e vive me causando constrangimentos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tudo junto?” – ela parece pensar. “Bem, Anazaret costuma confundir os homens. Ele comete traquinagens como tocar campainhas à meia-noite e criar visões. Mas Bitru é conhecido por levar as pessoas, mulheres principalmente, ao ridículo: ele descobre o que as envergonha e as expõe nos momentos menos oportunos a situações que desprezem completamente o pudor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você encontrou a pessoa certa, meu caro”, diz-me o marido. “Se existe alguém que entende de diabo, é essa mulher.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu precisaria estudar mais o assunto”, ela prossegue. “O livro de Alberto Cousté traz uma relação boa de demônios, mas vou consultar outras fontes.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não precisa ter esse trabalho por minha causa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas eu faço questão. Será um prazer ajudá-lo a descobrir quem é esse pequeno demônio que fica no seu ombro.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4132783183348168571?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4132783183348168571/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4132783183348168571&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4132783183348168571'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4132783183348168571'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/um-casal-vizinho-encontrou-me-na-banca.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-903494511680993655</id><published>2010-02-15T18:57:00.002-02:00</published><updated>2010-02-15T18:57:42.209-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Talvez ficar em casa seja a melhor solução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora há o sol. Mas há gente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora há esquinas labirínticas repletas de impressões. Mas há carnaval. Melhor ficar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno demônio que habita meu ombro quer que eu desça e me deixe tragar por algum bloco carnavalesco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É mais fácil eu ir para a porta da empresa e ficar esperando chegar quinta-feira para voltar ao trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não seja idiota”, ele diz com a gentileza de um pai alcoolizado. “Há mulheres lá embaixo implorando pela sedução. Mulheres que mal podem dar dois passos sem que o atrito do corpo com o tecido as leve ao desespero em busca de um falo. Mulheres descontroladas. Indefesas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pelo contrário. Nessa situação que você descreve, indefeso seria o falo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Elas estão lá embaixo. Chamando o seu nome. Não atender seria, no mínimo, deselegante.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Diga a elas que sinto muito, mas ser elegante é muito desconfortável para mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não fuja para a cozinha. Toda vez que se sente ameaçado, você agora corre para beber água nesse copo de cristal.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou com sede.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E elas com fome! Vá alimentá-las!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um dia esse copo irá se partir em pequenos pedaços brilhantes. Quando isso acontecer, o mesmo acontecerá com a sua vontade, que eu vou encontrar esfacelada nesse maldito chão de ladrilhos e colher, fragmento por fragmento, e moldar do jeito que ela deve ser.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele consegue me meter medo. Sempre consegue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E sempre que percebe que conseguiu, se cala em seguida. Para que meus pensamentos continuem o seu trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Volto para o quarto. Ele agora apenas me observa e não diz nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Afinal”, tento retomar a conversa, “o carnaval é festa diabólica ou não?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não responde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Estou na rua. O rumor dos blocos carnavalescos soa distante, e isso me deixa seguro para caminhar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fora um ou outro fantasma, as calçadas estão vazias. Meus passos não se preocupam. Sigo guiado por meu próprio movimento. A única direção é a aleatória. Sinto-me quase feliz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mão no meu ombro me rompe esse instante de desligamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia, o senhor pode me ajudar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher que me pede ajuda tem trinta e poucos anos. Os olhos protegidos atrás dos óculos parecem realmente carecer de mais proteção.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois não”, respondo. “Aconteceu alguma coisa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor se importa se eu o acompanhar? Acho que tem um homem me seguindo, e estou um pouco assustada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Homem? Onde?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ali atrás. Veja.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela indica um ponto qualquer situado do outro lado da rua. Forço a vista.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vejo ninguém.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele estava ali. Um homem. Fantasiado de diabo. Com máscara, chifrinhos e uma capa vermelha. Estava ali. Veio andando atrás de mim, e atravessou a rua quando eu atravessei. Tenho muito medo dessas coisas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que ele desistiu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor se importa se eu ficar mais uns minutos? Eu confesso que isso me assustou de verdade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode ficar, acho que ele não vai perturbá-la.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho de mau gosto comparar festa de carnaval com essas coisas de diabo. Carnaval deveria ser uma oportunidade de apenas se divertir e dançar, pra quem gosta. Nada desses excessos de bebida e de sexo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Também penso assim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu prefiro ficar em casa no carnaval, quieta no meu canto. Mas minha irmã quis sair e me chamou. Fui só para acompanhá-la.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E onde está a sua irmã?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Conheceu um sujeito num bloco e foi com ele. Ela sempre faz isso. Não pode ver homem. Ela é o oposto de mim, apesar de sermos gêmeas. Eu gosto de tranquilidade, ela é bagunceira. Eu sou introvertida, ela fala com todo mundo. Todo mundo gosta dela. Os homens, principalmente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso imaginar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já tive um namorado que me trocou por ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Lamento.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Veja! Está vendo? Ali. O homem. Estava dentro do bar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;“Tem uma árvore na frente. Mas ele estava lá. Eu vi. Posso lhe jurar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu acredito em você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estava no bar, e, quando viu que eu o vi, escondeu-se atrás da árvore.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou vendo agora. De fato, há um homem de vermelho. Me parece que está urinando na árvore.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não está. Está se exibindo. Eu sei, porque ele fez a mesma coisa há uns quinze minutos atrás.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode ter bebido alem da conta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele estava junto a uma arvore igual àquela, e quando eu passei ele se virou e exibiu o membro ereto. Eu fiquei assustada, nunca tinha visto daquele tamanho. Ele deve ter achado que eu olhei por interesse, e agora está me seguindo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele pode estar confundindo você com a sua irmã.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Será? Eu vou falar com ele. O senhor me espera?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Espero, mas você não quer que eu vá junto?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não precisa. Eu vou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de terminar de falar ela já atravessou a rua. Fico olhando, de longe, ela quase correr até ele. Vejo-a gesticular bastante, mas não sei o que está falando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele então faz menção de ir embora, mas segura-lhe o braço. Parece querer que ela vá junto. Diz alguma coisa, ambos estão falando ao mesmo tempo. Ela então vira-se na minha direção e, de longe mesmo, acena em despedida para mim. Os dois tomam a direção oposta e vão embora. Eu fico parado, do outro lado da rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se isso aconteceu realmente ou não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-903494511680993655?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/903494511680993655/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=903494511680993655&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/903494511680993655'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/903494511680993655'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/talvez-ficar-em-casa-seja-melhor.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4506298178836457921</id><published>2010-02-14T20:42:00.000-02:00</published><updated>2010-02-14T20:42:03.658-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O irmão mais velho estava cansado de andar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mais novo vinha atrás e choramingava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O irmão mais velho parou. E esperou o mais novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou cansado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Também estou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não podemos parar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Vamos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O irmão mais velho prosseguiu. O mais novo tentou, mas cinco passos depois caiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos”, chamou o irmão mais velho, de longe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não posso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou sem você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Por favor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O irmão mais velho continuou sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O irmão mais novo acordou. Sentiu frio, sede, fome, exaustão e medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem sinal do irmão mais velho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu começava a escurecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O irmão mais novo levantou e pôs-se a caminhar. Estava perdido. Mesmo sozinho, ficou com vergonha de chorar. Então engoliu as lágrimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia vultos lá atrás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com medo, o irmão mais novo correu deles.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O irmão mais novo encontrou o irmão mais velho. Estirado no chão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O irmão mais novo é agora o único irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Uma cidade desponta no horizonte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois de suspirar, o único irmão se dirige a ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele para diante de um armazém. Procura se limpar. Não quer que vejam o quanto está suado e sujo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único irmão fica na ponta dos pés, para que o homem atrás do balcão o veja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pois não”, diz o homem atrás do balcão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor tem arroz”, pergunta o único irmão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tenho. São dois tupinambás e cinquenta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único irmão entrega o dinheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está errado”, diz o homem atrás do balcão. “Estão faltando trinta copacabanas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único irmão olha sem compreender. O homem continua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Faltam trinta copacabanas. Olha. Aqui só tem dois tupinambás e vinte. São dois tupinambás e cinquenta. Está faltando. Tome. Pegue o dinheiro. Volte para a sua casa e diga ao seu pai para lhe dar mais trinta. Aí você volta aqui e eu lhe dou o arroz. Vá. Pode ir. Eu guardo o arroz.” &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O único irmão guarda o dinheiro no bolso. Então inicia o caminho de volta para casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4506298178836457921?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4506298178836457921/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4506298178836457921&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4506298178836457921'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4506298178836457921'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/o-irmao-mais-velho-estava-cansado-de.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5075354944174431708</id><published>2010-02-13T17:04:00.000-02:00</published><updated>2010-02-13T17:04:31.440-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>De manhã desço o elevador e vou reclamar com Seu Aldo, o porteiro, das batidas na porta durante a madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso é coisa de moleque”, ele diz. “Só matando. Não se perturba assim o sono dos outros. Mas o senhor pode ficar sossegado, que eu vou tomas todas as providências e o responsável será punido com rigor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu Aldo foi delegado de polícia. Hoje é porteiro. Agradeço a atenção e aproveito que estou fora de casa para caminhar um pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O banco da praça está vazio, e na sombra. Parece convidativo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentado, vejo árvores, pessoas, crianças, ambulantes, cachorros e aves. Nenhum guarda municipal. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um casal junto à carrocinha de churros procura um lugar para sentar. Um rapaz e uma moça, quase crianças. Olham fatalmente na direção do espaço vago ao meu lado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego para a ponta do banco, para que caibamos os três. A moça agradece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nos primeiros minutos só há silêncio. Ambos mastigam os churros que compraram. Eu fico apreciando as rolinhas ciscando perto do meu pé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela é quem fala primeiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então você promete?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Promete o quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não fazer aquilo de novo. Com a minha irmã.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não deve ter nem vinte anos. Ele, pouco mais que isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já falei que eu não tive culpa”, ele diz. “A sua irmã é que ficou me provocando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei, mas você promete? Você é &lt;i&gt;meu &lt;/i&gt;namorado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei, eu sei. Mas tem aquela história.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que história?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não deixa colocar lá. Ela deixa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fala baixo! Ele pode ouvir!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Ele &lt;/i&gt;sou eu. Que, obviamente, finjo não ouvir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está dormindo”, diz o namorado. “Nem ouviu. Mas e aí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A namorada parece morta de vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não consigo. Machuca.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não consegue, não consegue. Com teu outro namorado você conseguia. Eu sei, tá. Eu sei. Com ele você deixava.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem te contou isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele. Ele que me contou. Contou que com ele você fazia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele é menor que você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sério?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você é bem maior do que ele. Sério.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos tentar de novo. Tua mãe está em casa agora?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Mas a minha irmã está. Não podemos ir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vamos. Vamos agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não podemos, e a minha irmã?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu dou um jeito nela, vamos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O rapaz sai arrastando a namorada pela rua. De repente as rolinhas perto do meu pé perderam toda a beleza, e a ensolarada manhã se tornou uma coisa escura. Antes não tivesse saído de casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5075354944174431708?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5075354944174431708/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5075354944174431708&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5075354944174431708'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5075354944174431708'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/de-manha-desco-o-elevador-e-vou_13.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-3229602747743105518</id><published>2010-02-12T19:23:00.003-02:00</published><updated>2010-02-12T19:23:17.473-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis horas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro sonho estranho interrompido pelo alarme do despertador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis horas e vinte e cinco minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O reflexo no espelho, enquanto escovo os dentes, teima em fazer outra coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nove horas e trinta minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corre na empresa um boato de que seremos liberados mais cedo hoje. Por causa do carnaval, que não é hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma da tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto gosto de plástico na comida. Talvez tenha deixado cair no prato o vale-refeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas da tarde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No elevador, um funcionário reclama que não é por Fulano ser seu irmão que vai deixar de ser pilantra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três horas e quarenta e cinco minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O diretor avisa que quem quiser ir embora está liberado. O prédio fica vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quatro horas e treze minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas amigas voltando da praia no metrô reclamam do aperto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis horas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou em casa bebendo água em meu copo de cristal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis horas e trinta minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém lá fora tocando a campainha. Não atendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis horas e trinta e cinco minutos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem quer que fosse, desistiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cinco minutos para as onze da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo a cochilar diante da TV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia noite e meia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tocam a campainha de novo. Não é possível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia noite e quarenta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão tocando e batendo na porta há dez minutos. Levanto-me para atender. Calço os chinelos. Acendo as luzes. Caminho até a porta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meia noite e quarenta e três.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho pelo olho mágico. Não vejo ninguém. Pergunto quem é. Várias vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Duas e meia da madrugada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda não dormi desde então.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-3229602747743105518?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/3229602747743105518/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=3229602747743105518&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3229602747743105518'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3229602747743105518'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/seis-horas.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5362846030408841090</id><published>2010-02-11T20:20:00.003-02:00</published><updated>2010-02-11T20:22:45.414-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Seis da manhã. Dormi como uma pedra. Acordei como um destroço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisava dormir mais. Hoje ainda é quinta-feira, e já me sinto cansado. Banho não me recupera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Café, vestir, sair. No elevador, sozinho. Na rua, indefeso. No ônibus, encurralado. A cidade voa na janela do sol. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na tarefa eterna de procurar sentido na vida pela manhã, nova derrota se configura. O ônibus para no sinal fechado. Um mendigo enfia o braço num latão de lixo. Tira uma lata de guaraná. Bebe o resto dos outros, joga a lata no chão e pisa em cima várias vezes. A lata amassada ele guarda num saco, para vender depois. Um cachorro o acompanha. Talvez o sentido esteja aí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às oito e meia estou entrando na empresa. De manhã não tem fila para o elevador. Dou bom dia para quem aparece pela frente e subo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sento na cadeira que é patrimônio da União e ligo o computador, que também é. Ambos levamos um tempo. Ele, para ligar. Eu, para me acostumar à temperatura na sala. Ainda transpiro. Está quente. Por isso não me mexo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo avança vagarosamente até as onze horas. Não chegou ninguém. Do corredor não ouço um ruído sequer. Nem passos, nem suspiros. Parece-me que estou sozinho no andar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não saio para o almoço. Permaneço sentado. Ignoro se o sol continua lá fora, ou se as chuvas libertaram São Paulo de vez e agora é o Rio que submerge. Estou no quinto andar. Talvez aqui seja seguro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Três da tarde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O silêncio permanece inabalável. O som do sistema de refrigeração não conta, de tão leve é quase um pedido de desculpas. Estou sozinho, imóvel e, ao que tudo indica, indiferente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A sala de Fada Sininho está vazia. Posso ver daqui. Talvez a minha também esteja. Talvez nem eu esteja aqui. Ou talvez “aqui” não defina direito o lugar onde me encontro. Mas não sei onde mais possa estar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha vida se resume a dois lugares. O apartamento e a empresa. Se não estou num ou noutro, estou em trânsito entre os dois. Sinto dificuldade em conceber um terceiro lugar. Da mesma forma que me perco ao tentar imaginar o que pode existir depois que o universo acaba.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seis da tarde. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desligo o computador e me levanto da cadeira. Saio da sala. Cinco passos até o elevador. Ele desce vazio sem parar em nenhum andar. Me vejo no espelho. Reconheço o velho de olhar assustado. Aquele sou eu. Quando a porta se abre, saímos juntos. Mas em direções opostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A portaria, a rua e o metrô vazios. O mundo canta o silêncio em meus ouvidos, e eu escuto atento. Saio da estação procurando pisar suave, para não fazer barulho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhum sinal de gente, de perfume, de tabaco ou gasolina. O mundo sem habitantes é maior. Viro a esquina, e estou diante do edifício onde moro. Não há nostalgia ou alívio. Não há nada. Só tijolo, concreto e garranchos na parede. Eu entro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois que giro a chave na fechadura e entro em casa, descalço os sapatos. Tiro a roupa com cuidado para não amarrotar e deito na cama. Fico deitado, esperando o sol ir embora. E fecho os olhos, quando o dia termina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Boa noite.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5362846030408841090?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5362846030408841090/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5362846030408841090&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5362846030408841090'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5362846030408841090'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/seis-da-manha.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-525841823651791049</id><published>2010-02-10T19:00:00.002-02:00</published><updated>2010-02-10T19:00:28.493-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O temporal que lavou o Rio de Janeiro ontem à noite também derrubou a energia elétrica. Sem ventilador, acabo preferindo deixar a cama suada e ir para a janela. Os joelhos, depois de botar pomada e gelo, melhoraram. Mas a noite será mal dormida, de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu cinza claro parece pronto para se espatifar em pedaços, de tão violentas as trovoadas. Cada relâmpago ilumina as ruas escuras, que começam a se alagar por causa dos esgotos entupidos. Da janela vejo um homem enfrentando a chuva e o vento, em cima de uma bicicleta. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você pode definir aquilo como burrice, insanidade ou masoquismo”, comenta o pequeno demônio em meu ombro. “Não há uma quarta alternativa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele pode ter um compromisso urgente”, tento argumentar. “Pode estar com algum membro da família doente em casa. Pode ter prometido algo a alguém, e está tentando cumprir a promessa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Essa possibilidade está incluída em burrice.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Apesar de todos os estímulos contrários, seria bom tentar acreditar que o ser humano ainda possui alguma virtude.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não possui. Esqueça isso. O ser humano é burro, sujo e mesquinho. Merece cada revés que está sofrendo. E posso lhe adiantar uma notícia de primeira mão: seus dias estão contados.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já sabemos disso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas não sabem que a contagem está bem mais próxima do final do que vocês esperam.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele sempre sorri. Não sei que graça acha nisso. Se o ser humano acabar, ele vai ficar sem trabalho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fecho os olhos. Para reagir à chuva, penso em sol.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Seis horas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Muito sono e os joelhos doloridos. Mas tudo bem. O dia amanheceu quente e ensolarado, e a energia elétrica voltou às duas da madrugada. Faço um café forte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sou um homem forte”, digo para mim mesmo. “Por isso tomo um café forte.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal acabo de falar, e risadas femininas parecem vir do banheiro vazio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode rir”, respondo em voz alta. “Não me importo. Ninguém liga para opinião de fantasma.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço no elevador com o velhinho do nono andar. Está vestido com roupa de ginástica. Vai aproveitar o sol para dar a volta no quarteirão, como faz todos os dias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu só bebo água em copos de cristal”, ele diz. “A água fica muito mais saborosa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mim mesmo, faço a promessa de, ao sair do trabalho hoje, comprar um copo de cristal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entro no ônibus, agradeço ao motorista e dou bom dia. Atravesso a roleta, e um rapaz enorme se levanta e me cede o lugar. Fico lisonjeado e agradeço, mas digo que não é necessário o incômodo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Senta logo, velho”, ele diz. E rapidamente obedeço. Sigo encolhido, mudo, minúsculo, o resto do trajeto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entro na empresa, dou bom dia para o funcionário da recepção. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Passei a noite em claro”, ele responde. “A calha da minha casa entupiu e alagou tudo. Fiquei até as quatro da madrugada tirando água com balde. Estou com as costas que não me aguento. Queria morrer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele continua falando quando entro no elevador. Por sorte, não aparece mais ninguém no caminho para cumprimentar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A noite de ontem é o assunto do dia de hoje. Todos querem contar o que estavam fazendo quando a chuva começou. Mesmo os que não estavam fazendo nada. Eu apenas ouço. E acompanho as risadas, quando elas surgem. Às vezes fujo para o corredor, e finjo que quero beber água ou café. O ideal é beber água, porque em torno da máquina de café ficam sempre uns dois ou três funcionários aproveitando os minutos para bater papo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante há dois deles junto à máquina de café. Percebo que mudam de assunto quando eu chego. Cumprimento-os rapidamente, encho o copinho de plástico e me afasto. Ouço-os retomando a conversa atrás de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando volto para a sala, meus colegas estão às gargalhadas. Não faço idéia do que riem, mas começo a rir também. Então me dou conta de minha própria parvoíce e passo a rir de mim mesmo. Em momentos assim é que penso se não há razão nas palavras do pequeno demônio que habita o meu ombro, quando ele diz que o homem merece cada revés que está sofrendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No restaurante não consegui sentar na mesa de sempre. Sinto desconforto cada vez que isso acontece. Ao passar pelo caixa, na saída, a dona do estabelecimento parece me confundir com outra pessoa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olá, boa tarde. O senhor andou sumido.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu estive aqui ontem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me enganei, então.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há muita gente nas ruas do Centro a essa hora. E muito calor. Muitos ambulantes distribuem papeizinhos de propaganda de alguma coisa. Como não tenho coragem de dizer não, vou aceitando todos e botando no bolso. Só em casa, ao trocar de roupa, é que lembro de jogá-los fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você comprou um copo?”, pergunta o demônio que habita o meu ombro, ao me ver desfazendo um embrulho na cozinha. “Por quê? Não quebrou nenhum.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A água fica mais saborosa em copos de cristal”, respondo, enquanto bebo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-525841823651791049?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/525841823651791049/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=525841823651791049&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/525841823651791049'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/525841823651791049'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/o-temporal-que-lavou-o-rio-de-janeiro.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4846332008013498015</id><published>2010-02-09T19:13:00.002-02:00</published><updated>2010-02-09T19:13:11.977-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ontem o sono custou a vir. E quando veio foi ilustrado por sonhos perturbadores. Faces conhecidas e atos irracionais misturando-se a borrões que só fizeram me confundir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo às seis. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tonto e exausto até o banheiro. No caminho vou catando os cacos do sonho. A imagem danificada que se forma de seu encaixe não me agrada. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se estou acordado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ereção involuntária sob o chuveiro. Ou provocada pela lembrança do sonho. Há muito tempo isso não acontece. Não deveria fazer. Mas faço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio envergonhado do banheiro. Me visto rapidamente. O sol entra pela janela e tenho exame hoje, terça-feira. Hoje, não amanhã. Agora vou tomar café e ir trabalhar. Devo engraxar os sapatos, antes. E pentear o cabelo, antes. E regar as plantas. Hoje é terça-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torço para estar acordado. Não gosto das possibilidades contidas no sonho. Não gosto de imaginá-las acontecendo. O sol entra pela janela e o dia me espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não vai durar muito tempo”, diz um vizinho no elevador, enquanto descemos. “Esse sol. Não dura. Já começou a ventar. A enchente de São Paulo logo chegará aqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele não para de assoar o nariz enquanto fala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na rua, a angustiante impressão de que todos me olham. No ônibus a mesma coisa. O senhor ao meu lado, depois de ficar me encarando, desanda a falar alto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É sempre assim. Bastou começar o calor de verdade, que os ônibus com ar condicionado desaparecem das ruas. Agora eu tenho que ir todo suado pro enterro da minha neta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Torço para estar acordado. Não sei o que pode vir num sonho, depois de uma frase dessas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Às oito e meia estou entrando no prédio da empresa, no Centro do Rio. Ambiente moderno e impessoal. Entre, faça o que tem a fazer da maneira mais eficiente possível, e vá embora. Sou sempre o primeiro a chegar. Duvido que fosse assim, se em casa houvesse esposa, filhos, vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Diante do computador, me comprometo a não pensar em nada que não seja trabalho. Me comprometo, para logo depois romper o compromisso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há alguém tossindo no corredor. Quando percebo que a tosse não cessa, me levanto e saio da sala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Apoiado na parede, o funcionário da limpeza parece que vai sufocar se continuar tossindo desse jeito. Aparentando trinta e cinco, talvez trinta e oito anos, não é um garoto. Vou até ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está bem?”, pergunto. “Posso ajudar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele fala sem parar de tossir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quer que eu traga água?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se afasta, ainda tossindo, e empurra a porta que leva às escadas. Me deixou sozinho no corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Às dezoito horas estou na clínica. Saí mais cedo do trabalho. Apesar da hora marcada, me fazem esperar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando chamam o meu nome, vou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um médico jovem como um galho de árvore me orienta a tirar a roupa e vestir a camisola hospitalar. Não preciso tirar a cueca, ele avisa. Eu agradeço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deito-me de lado numa superfície de metal. Sei o procedimento, já fui radiografado antes. Mas sempre penso que dessa vez haverá dor. Não há. O processo é todo muito rápido, logo estou vestido novamente e pronto para sair. O resultado estará pronto na semana que vem, diz a recepcionista, sem me olhar nos olhos, enquanto fala ao telefone. Não consigo pensar em nenhuma graça que me leve a rir sozinho pela rua.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entro em casa, minhas pernas fraquejam. Sinto-me tonto. Caio ajoelhado no chão, e a pancada nos joelhos é a dor que estava faltando. Fico prostrado, encolhido, esperando a dor passar e chorando. O pequeno demônio que habita meu ombro apenas observa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4846332008013498015?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4846332008013498015/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4846332008013498015&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4846332008013498015'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4846332008013498015'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/ontem-o-sono-custou-vir.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-8730029167952438962</id><published>2010-02-08T19:07:00.003-02:00</published><updated>2010-02-08T19:09:48.504-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O colega que voltou das férias não para de falar. Desde que voltou das férias. Esteve em Fortaleza, as fotos da viagem estão na Internet. Ele é popular. Gente de outros setores vem até a nossa sala para ouvir suas histórias. Talvez seja apenas uma desculpa para interromper o serviço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ou, diria o pequeno demônio que habita o meu ombro, talvez eu é que inveje tanta popularidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Marquei o raio-x. Dessa vez as costas não me deixaram esquecer. Dor é bom remédio para memória fraca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoço no lugar de sempre. Antes a rotina que a surpresa desagradável. Na mesa ao lado, uma jovem de seus trinta anos teve a refeição interrompida pelo toque do celular. Pelo teor da conversa, é o ex:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro que não. Claro que não. Você é que é auto centrado. Só enxerga o próprio umbigo. Nunca me respeitou. Nunca. A gente terminou por causa da sua incapacidade em lidar com as diferenças. Você não quer uma mulher, quer um reflexo. Vai namorar o seu espelho. Babaca.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando termina a conversa, ela demora a voltar a comer. A salada e o peixe devem estar agora com um novo sabor. Mais amargo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às quatorze horas estou na fila do elevador, retornando à empresa. Sou o que volta mais cedo do almoço, e o único que volta sozinho. À tarde tenho de ir à sala do diretor, explicar um orçamento que a empresa terá de solicitar. Enquanto espero para ser atendido pelo chefe, tenho meu primeiro diálogo com Fada Sininho, sua nova assessora, que vai além do bom dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está aqui há bastante tempo, não é?”, ela pergunta. “Me disseram que você é um dos funcionários mais antigos do setor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Um dos mais velhos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É verdade que você conheceu o Presidente Figueiredo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro que não. Quem disse isso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Eliseu. Ele disse que você costumava jogar xadrez com o presidente quando ele vinha ao Rio, e não perdia uma partida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É mentira. Eu nem sei jogar xadrez. O Eliseu mal voltou das férias e já fez uma nova vítima. É bom se acostumar, ele gosta de inventar histórias para funcionários novatos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que cretino.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante somos interrompidos pelo abrir da porta da sala do diretor. É o próprio quem sai de dentro dela, acompanhando um homem com o terno amarrotado. Não sei se eles ouviram o “Que cretino”. Sou convidado a entrar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a reunião, acabo me confundindo e chamando o chefe de Doutor Figueiredo. Penso nisso depois, na volta para casa, imaginando-me numa partida de xadrez com o ex-Presidente. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está roubando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, senhor Presidente. Jamais faria isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está me roubando. Você é safado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, senhor Presidente. Juro que não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você mudou o cavalo de lugar na hora que eu cochilei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tem razão. Achei que o senhor não fosse notar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sabia. De cavalo eu entendo. Você é safado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem me vê espremido dentro do metrô certamente não entende por que estou rindo sozinho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, enquanto janto e assisto o telejornal, o pequeno demônio que habita o meu ombro diz uma frase que me deixa preocupado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E a Fada Sininho, hein?”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-8730029167952438962?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/8730029167952438962/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=8730029167952438962&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8730029167952438962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8730029167952438962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/o-colega-que-voltou-das-ferias-nao-para.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-1246717807008856865</id><published>2010-02-07T18:15:00.002-02:00</published><updated>2010-02-07T18:15:23.497-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Não quis mais vê-la. Então apagou a luz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ficaram calados no escuro até que ela falasse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se importa se conversarmos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me importo. Estou com sono.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela respeitou e não disse mais nada. Acabou dormindo também.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio da noite ele acordou. Precisava falar. Mas ela roncava, e para não importuná-la ele levantou-se. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu do quarto. Atravessou a sala e, diante da porta de saída, abriu e foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bateu na porta da vizinha. Ela atendeu de camisola. Cara de sono, mas recebeu-o bem. Trouxe-o para dentro. Para a cama. Despiu-se e veio fazer-lhe afagos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não quer sexo?”, ela enfim perguntou, ao ver que ele não endurecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Queria conversar”, ele disse. “Podemos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sinto muito”, ela se levantou e sinalizou para que ele fosse embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi embora. Agora, do edifício. Tomou um táxi e rodou pela Zona Sul do Rio de Janeiro. Em Copacabana desceu. A primeira prostituta que encontrou, levou para um hotel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só não curto violência”, ela falou, enquanto tirava a roupa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quero conversar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela sentou-se na beirada da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso não é raro”, ela disse. “Equivocadamente você acha que essa sensação de isolamento, de solidão e de mal estar diante do mundo é moléstia que só a você atinge. Está errado. Todas as noites pego clientes que se lamentam e choram. Uns ficam ali, encolhidos naquele canto, no chão, sem dizer nada. Outros pedem desculpas. Sequer me tocam. Já estou há dois meses sem praticar relações sexuais, mas não me importa. Desde que continuem me pagando. Não preciso de sexo. Ninguém precisa. O sexo é um fetiche midiático para que o homem não raciocine nem questione. Quem consegue se revoltar com a ganância estando de pau duro? Nessas condições, com o sangue todo direcionado para manter ereto o órgão sexual, ninguém está preparado para mergulhar numa análise minuciosa e aprofundada da estrutura econômica. Vai preferir comprar pornografia do que informação substancial. E como, biologicamente, o homem não consegue manter por tanto tempo aceso o apetite que a mente viciada anseia, nasce a insatisfação. Insatisfação consigo mesmo e com o mundo que o cerca. Nenhum lugar lhe é casa. Nenhuma pessoa lhe é par. Por isso ele sai por aí. A noite das ruas está infestada de homens moles, que vagam para lá e para cá sem nem saber por que estão fazendo isso. Pode conferir. Olhe na janela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele foi até a janela. Conferiu. Sim, lá embaixo ele viu multidões de homens solitários arrastando-se pelas ruas. Tal qual ela descreveu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está no lugar errado”, ela disse. “Desça. Vá juntar-se a eles.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele obedeceu. Após pagar o período, deixou o hotel e viu a horda de fantasmas infelizes zanzando no asfalto sem norte. Olhou as fisionomias. Todas iguais à sua. Após respirar fundo, ele juntou-se à desencontrada coreografia de seus gêmeos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Ela acordou com o próprio ronco. Inquieta. Acendeu a luz e viu vazio o lugar dele na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantou-se. Atravessou o quarto e a sala vazios. Na porta de saída, abriu e foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bateu delicadamente na porta da vizinha. Foi recebida com afagos. Terminaram a noite na cama.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-1246717807008856865?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/1246717807008856865/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=1246717807008856865&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1246717807008856865'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1246717807008856865'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/nao-quis-mais-ve-la.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6928898636027113777</id><published>2010-02-06T19:20:00.003-02:00</published><updated>2010-02-06T19:22:49.253-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Enquanto jogo paciência no computador, o pequeno demônio em meu ombro quer conversar. Ou está carente, ou apenas a fim de me atrapalhar o jogo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não incomoda estar sempre sozinho?”, ele pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Incomoda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma nova leva de cartas. Quase todas são dois. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acidentes acontecem. A quem você recorreria, se acontecesse com você?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ninguém.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E você não vê isso como um problema?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vejo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E por que então não resolve o problema?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Porque prefiro ter um problema a ter dois.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma rodada perdida. Na seguinte, um dez e um nove de espadas. Um seis de ouro e um cinco de copas. Embaixo do seis, outro seis. Só pode ser sacanagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O acaso pode ser bem cruel. Um simples torcicolo pode ter consequências imprevisíveis. A queda de uma simples caneta, seguida de um mau jeito, pode acabar com o seu dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não me diga que está pensando nisso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A dor e a incapacidade de mover o pescoço extinguem tanto a paciência quanto a faculdade de raciocínio. Você se torna menos cauteloso. E pode, no momento de abrir a gaveta para pegar um analgésico, esbarrar num móvel qualquer e se machucar. A própria quina da cama, que você tão cuidadosamente evita. Numa hora dessas, nada impede de machucar-se nela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quatro reis de uma vez só. Bloquearam todo o jogo. Não tenho mais cartas a pedir. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Perdeu o jogo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Perdi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que você olha com tanta frequência a sua correspondência eletrônica? Ela não vai escrever mais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Talvez eu escreva para ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você apagou o endereço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Talvez eu ainda o tenha na cabeça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você esqueceu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Difícil argumentar com você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde vai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Beber água. Quer?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na cozinha, após abrir a geladeira e pegar a garrafa, derramo por descuido uma boa quantidade de água no chão. Xingo. Procuro um pano qualquer. Esfrego o chão. Volto para o copo. Engulo de uma vez e me engasgo. Depois de passar um tempo tossindo, volto para o quarto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Engasgou-se?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabe que sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acontece. Você ficaria surpreso com a quantidade de situações que podem se desenvolver em sequência a partir de um gesto simples como um espirro, por exemplo. Já vi casos de pessoas que caíram do décimo-segundo andar de um prédio apenas por arrancarem uma cutícula errado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Certo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está pegando o caderno. Vai escrever?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vou. Você me inspirou. Vou escrever sobre cutículas e quedas de edifício. Onde está a caneta preta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aí. Embaixo da conta de luz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando levanto a folha com a conta, a caneta que estava embaixo vai ao chão. Não tenho tempo nem de lembrar da sequência de fatalidades sugerida agora há pouco. Um torcicolo me endurece o pescoço e me faz praguejar. Com dificuldade me levanto, e, ao me mover em direção à gaveta onde guardo o analgésico, esqueço de desviar da quina da cama.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6928898636027113777?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6928898636027113777/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6928898636027113777&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6928898636027113777'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6928898636027113777'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/enquanto-jogo-paciencia-no-computador-o.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7732234399421964825</id><published>2010-02-05T20:56:00.003-02:00</published><updated>2010-02-05T20:56:05.149-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Quando criança, tive um cachorro. Vira-lata branco, com uma ou outra mancha marrom. Por muito tempo foi meu melhor e único amigo e sua morte, provocada por infecção até hoje não explicada direito, a minha maior dor até então. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava sentado no chão de terra diante da casa com ele nos braços, já frio, e minha mãe, comovida, dizia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está morto. Deixa ele ir. Deixa ele ir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu me recusava. Não queria que ele fosse, e ela insistia. Deixa ele ir. Deixa ele ir. Deixei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lembro disso agora por causa do sonho dessa noite. Que deve ter sido influenciado também pelas imagens televisivas das enchentes em São Paulo. Nele, eu me agarrava a uma árvore com uma das mãos e, com a outra, segurava um corpo que as águas tentavam carregar. Sentia a força das águas e o peso do corpo, que eu nem sabia se ainda estava vivo, e tinha consciência de que não aguentaria aquilo para sempre. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então eu ouvi, ou lembrei, ou pensei (era sonho) nas palavras de minha mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Deixa ele ir. Deixa ele ir.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E deixei o corpo ir. Quando acordei, ainda podia enxergá-lo indo embora até ser enfim engolido, deixando-me com a mão estendida para o nada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O deixar ir tem-me sido uma espécie de sina. As pessoas entram por uma porta da minha vida e ficam mais ou menos tempo dentro dela. Depois saem. Ainda que a maioria não me faça falta, há as exceções a quem, como meu cachorro, eu gostaria de me abraçar e não deixar que partissem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas elas partem. Sempre partem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7732234399421964825?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7732234399421964825/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7732234399421964825&amp;isPopup=true' title='13 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7732234399421964825'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7732234399421964825'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/quando-crianca-tive-um-cachorro.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>13</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4686145400774046413</id><published>2010-02-04T20:25:00.002-02:00</published><updated>2010-02-04T20:27:17.993-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>No ônibus, um jovem parece achar que seu espaço no assento não lhe é suficiente. Por isso avança sobre o meu. Para não viajar espremido, troco de lugar. Quase me desequilibro e por pouco não vou ao chão, pois o ônibus entra numa curva no mesmo instante em que me levanto. Tento sorrir. Há sempre alguém à espera de uma queda. Como não sei a qual desses rostos austeros devo fornecer a graça involuntária, deixo fixo no rosto o sorriso amarelado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tem feito muito calor. Dia desses faltou luz em alguns pontos no Centro do Rio. Comenta-se que houve termômetros públicos acusando 45 graus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sinto alívio ao entrar na empresa. Alívio no ar condicionado. Descubro na Internet que o condicionador de ar foi inventado em 1902, por um americano que queria fazer com que o papel de uma indústria não dilatasse com a umidade do ar no verão, absorvendo de maneira diferente as tintas e gerando trabalhos borrados. Não, não foi por causa do calor. Não foi para que ficássemos menos abafados, transpirássemos menos ou nos tornássemos mais felizes. Também achei que fosse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este ano o carnaval será no dia 16. Daqui a duas semanas. Mas na empresa é como se fosse amanhã. Não se fala em outra coisa. No meu setor duas pessoas, uma mulher e um homem, desfilarão em escolas de samba. Os dois mostraram as fotos que tiraram nos ensaios. Está na Internet. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um colega nosso retornou das férias e houve comemoração. Comemora-se tudo. O aniversário de Fulano. O nascimento do filho de Cicrano. Em dezembro, quando a mãe de um funcionário faleceu, achei que fossem dar uma festa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consegui almoçar sozinho. Houve um almoço para o tal colega que voltou das férias. Na hora em que tentei sair de fininho da sala, me convidaram para ir junto. Sorriso amarelado na cara, aceitei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos parecem muito felizes. Reclamam de impostos, de preços, do calor, do presidente, mas estão sempre fazendo piadas e gargalhando como se fossem surdos. Não quero destoar deles, então fico rindo também. De tudo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quer dizer que o Eliseu fez exame de próstata nas férias?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Gargalhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fez. E já agendou o próximo. Vai fazer toda semana.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais gargalhadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo custa a passar. Mas eu espero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às dezoito horas deixo a empresa. Com o calor, penso apenas em ir para casa. No metrô me dou conta de que não telefonei para marcar o raio-x da coluna. Esqueci. Dentro do túnel o veículo para. O ar condicionado não funciona. Sufocados, os passageiros reclamam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O tempo, o dia, a vida, custam a passar. Mas eu espero.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, toca o telefone. É o vendedor de algum banco, oferecendo um cartão de crédito com muitos benefícios para mim. Pede para que eu não desligue sem ouvir o que ele tem para me oferecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Roberta?”, pergunto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, senhor. Bruno. O senhor já conhece as vantagens do cartão que.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Onde está Roberta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ainda tenta outra vez, mas vê que não conseguirá nada comigo. Então desliga. Também tenho o direito de me divertir às vezes.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4686145400774046413?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4686145400774046413/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4686145400774046413&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4686145400774046413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4686145400774046413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/no-onibus-um-jovem-parece-achar-que-seu.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-493355398207142114</id><published>2010-02-03T18:47:00.001-02:00</published><updated>2010-02-03T18:47:39.577-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Sonhei que não tinha as pernas. E que para tudo precisava de ajuda. Amargava o constrangimento de depender dos outros, e aproveitava para chorar quando não estavam vendo. Até que, deitado na cama, precisei ir ao banheiro. Mas a babá dormia, dormia na beirada da cama. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu então permanecia, apertado, querendo mijar e torcendo para que ela acordasse sozinha. Porque eu não tinha coragem para incomodar-lhe o sono.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-493355398207142114?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/493355398207142114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=493355398207142114&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/493355398207142114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/493355398207142114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/sonhei-que-nao-tinha-as-pernas.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-492581534537464949</id><published>2010-02-02T20:30:00.002-02:00</published><updated>2010-02-02T20:30:45.672-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ontem, após o trabalho, fui à ortopedista. Saí da clínica com uma requisição para um raio-x da coluna. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já sei que um novo calvário de consultas, exames e sessões está começando, mas dessa vez isso não me incomoda tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, li novamente a mensagem recebida no domingo. Durante todo o dia ela não me saiu da cabeça. Cheguei a iniciar uma resposta, mas apaguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São 6:30. Estou tomando café diante do computador. E relendo a mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Apague isso”, diz o pequeno demônio que habita o meu ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não consigo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Apague. Apague logo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele parece não querer que eu me aproxime da autora da mensagem. Só isso já seria motivo para procurá-la. Mas ele me conhece. Também sabe que, para me fazer procurá-la, bastaria dizer isso: não a procure. Ele decerto sabe tudo o que se passa em minha cabeça. Eu é que não sei o que existe na cabeça dele. É um jogo que o agrada, e me assusta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não lhe faço mais perguntas. Sei que vai me enganar, confundir e manipular.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No trabalho imprimo a mensagem. Levo para o almoço, e releio enquanto como. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tomado de um estranho torpor. As vozes, no restaurante, na empresa, parecem todas mais distantes e sem importância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tá com cara de que vai chover mais tarde.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Logo hoje que não trouxe meu guarda-chuva.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal consigo lembrar como foi o dia de hoje no trabalho. Lembro vagamente o que fiz. Provavelmente nada. Em casa, releio a mensagem. Troco de roupa. Tomo banho. Janto. Releio a mensagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E então a apago.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perdão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-492581534537464949?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/492581534537464949/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=492581534537464949&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/492581534537464949'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/492581534537464949'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/ontem-apos-o-trabalho-fui-ortopedista.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7065540619707155241</id><published>2010-02-01T19:41:00.002-02:00</published><updated>2010-02-01T19:41:27.046-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Dor nas costas ao alvorecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o café, releio a mensagem recebida ontem por correio eletrônico. Uma mulher, também do Rio de Janeiro, diz que vem acompanhando impressionada as páginas desse diário eletrônico. Elogia a sinceridade de meu texto e afirma possuir razões sólidas para crer na veracidade de tudo o que está escrito aqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Antes que haja algum engano”, ela diz, “posso lhe garantir que não sou a proprietária da peça de roupa que foi parar em seu bolso. Não sei se felizmente ou infelizmente.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Autorizando-me a fazer o que bem entender com sua mensagem, “desde que mantenha guardada a identidade da missivista”, essa mulher de texto delicado diz compartilhar cada instante da agonia por que tenho passado desde que esses brancos na memória tiveram início.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também ela vem passando por semelhante pesadelo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Há pouco menos de quatro meses”, ela conta, “isto aconteceu-me pela primeira vez. Tal qual você descreve: o acordar no próprio quarto com a estranheza ferindo cada poro. E, na tentativa de recordar a noite anterior, a preocupante constatação: a memória só alcança até um determinado ponto, além do qual ela se apaga por completo. Não possuo, como você, um demônio no ombro para sugerir coisas, mas as dores em partes sensíveis do corpo, bem como as marcas na pele, não deixavam dúvidas. Sem saber, provavelmente sem querer, fiz sexo com alguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que você pode conceber o horror da situação. Não apenas o temor de estar desenvolvendo alguma deficiência neurológica, mas a possibilidade de ter sido contaminada por qualquer tipo de doença arrancaram-me de uma vida até então tranquila, podendo inclusive ser definida como monótona, para crises de insônia e visitas a médicos e realização de exames. Graças a Deus, todos os resultados foram negativos. Não tenho nenhuma doença, fora a que me tem corrompido a memória. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na segunda vez que aconteceu, fui obrigada a pedir licença da instituição de ensino onde leciono. Tal era a extensão das marcas no corpo, inclusive no rosto. Como você, chorei. Como você, quis morrer. Me sentia humilhada, violada por algo para o qual não tinha como reagir. Simplesmente por não lembrar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da mesma forma que você faz com esse diário na Internet, procurei alguém que recebesse o meu desabafo. Encontrei numa amiga de infância a confiança e a compreensão para expor meu drama, e ouvi dela uma sugestão que, mesmo não seguindo os preceitos da fé por mim adotada, aceitei. Fui procurar ajuda espiritual.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Segundo minha amiga, tratava-se de um homem sábio, abençoado com o dom da percepção, da compreensão e da cura. No estado de desespero em que me encontrava, não apenas acreditei como depositei neste homem as minhas esperanças. Fui até ele. Contei meu problema e chorei em seus braços. Ele me tratou como a uma filha, e disse-me coisas assustadoras a respeito de entidades que acompanham pessoas e as fazem sofrer. Disse que havia uma ao meu redor, e que ele a conseguia sentir. Era feia, escura, deformada. Era ela que soprava uma nuvem em minha mente, e então empurrava-me de encontro aos homens. Ele, no entanto, a conhecia, e sabia como livrar-se dela. Prometeu orar por mim e marcou nova consulta, onde segundo ele tentaria extrair-me o mal. Ao sair, estava mais aturdida e amedrontada do que quando cheguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A terceira crise foi a pior. Dessa vez, não recuperei a consciência entre as quatro paredes do lar. Quando acordei, constatei em pânico que estava na casa de um estranho. Deitada em sua cama. Nua. Ele ainda dormia ao meu lado, de costas para mim, também nu, e despertou quando gritei. Não pude acreditar ao ver, quando ele se virou para mim, o rosto conhecido, e descobrir que o homem a quem havia contado problemas íntimos e graves, e a quem buscara justamente para pedir socorro, era o mesmo que havia se aproveitado disso para me violar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele riu de meu horror. Disse que eu o procurara. Que me ofereci. Que estava completamente lúcida e que não havia qualquer entidade comigo quando me despi diante dele. Disse que tudo o que fizemos foi com meu consentimento. Ao perceber que, enquanto ele lembrava o que fizera, seu membro começava a reagir para uma possível repetição do ato, fugi. Me vesti o mais rápido que me foi possível, e saí de lá. Novamente humilhada. Novamente em prantos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei se essas linhas infelizes e tão distantes de seu talento com a escrita o ajudam. Creia que não foi outra a minha intenção ao corresponder-me com você: compartilhar uma história trágica e dizer-lhe que não está sozinho. Sinta-se à vontade para me procurar ou ignorar, mas aceite por favor a minha gratidão por ter me permitido conhecer a sua história.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Termino de ler o texto pela quinta vez, desde que o recebi ontem à noite. Não sei o que fazer, mas nesse instante tenho de sair. Hesito antes de desligar o computador. Sei que ela vai ler isso tudo. Deve estar lendo agora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de deixar o apartamento em direção ao trabalho, ouço uma manifestação do pequeno demônio que habita o meu ombro. Uma manifestação que me surpreende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se meta com essa mulher. Não sabe o que o espera, se for se envolver com ela.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7065540619707155241?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7065540619707155241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7065540619707155241&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7065540619707155241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7065540619707155241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/02/dor-nas-costas-ao-alvorecer.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2470832020363117558</id><published>2010-01-31T13:39:00.003-02:00</published><updated>2010-01-31T13:39:26.522-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Fada Sininho passou pela recepção desconfiada de que o homem que a revistara se aproveitou do cargo para molestá-la. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto percorria um interminável corredor repleto de portas, perguntou a si mesma se não havia uma lei determinando que revistas a mulheres só poderiam ser realizadas por mulheres. Quando chegou na empresa, ouviu comentários de casos de funcionárias que engravidaram durante a revista. Assim que terminasse o expediente, passaria na farmácia e faria um exame.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisava encontrar a porta branca. Foi a orientação recebida. Mas por onde passava, e até onde a vista alcançava, todas as portas eram azuis. Continuou andando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cansou. Resolveu arriscar uma porta qualquer e, sem bater, entrou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem mandou você entrar aqui?”, perguntou a funcionária sentada numa mesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu estava procurando a porta branca”, Fada Sininho tentou explicar-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aqui só pode entrar pessoal autorizado. A senhora está portando alguma câmera, celular ou qualquer tipo de aparelho eletrônico?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Só o celular.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sinto muito, mas a senhora terá de ser revistada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fada Sininho nem teve tempo de dizer que já havia sido revistada. Do nada surgiu um funcionário que a colocou bruscamente apoiada de frente para a parede, as pernas separadas, agindo de forma tão ou mais invasiva do que a primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A senhora pode ir. Muito obrigado pela colaboração.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pernas tremiam quando ela saiu. Já nem lembrava o que a levara a chegar até ali, mas continuou andando até um ponto em que o corredor se dividia. Olhou para um lado. Para o outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escolheu o caminho em que havia um aviso na parede. Precisava de orientação. Chegou mais perto para poder ler. Ao lado de um terminal de caixa eletrônico, o aviso dizia apenas “Em caso de incêndio, pague suas contas antes de ser consumido pelas chamas”. Ela continuou andando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando começava a ser vencida pelo cansaço, Fada Sininho viu enfim a porta branca à sua espera, a menos de quatro metros de distância. Correu até lá. Girou a maçaneta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vários funcionários, homens e mulheres, aguardavam sentados no interior da sala. Um deles era eu. Vi quando Fada Sininho entrou, despenteada, amarrotada e com a maquiagem borrada. Não parecia entender onde estava. Ficou em pé, aturdida, esperando que alguém lhe explicasse alguma coisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia um palco com palanque e microfone num dos lados da sala. Estava vazio, mas todos havíamos sido avisados de que o palestrante não tardaria. Alguém veio trazer uma cadeira para Fada Sininho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A senhora deseja alguma coisa?”, perguntaram a ela. “Um copo d’água?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim”, ela respondeu. “Um copo d’água, por favor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Infelizmente, não temos. Todos foram orientados a trazer sua própria água.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem ao meu lado usava cavanhaque e óculos com aro de tartaruga. Em comum comigo, encontrava-se num avançado estágio de calvície. De repente começou a segredar-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu estou aqui para combater o sistema. Por dentro. Há trinta anos me preparo para ingressar no serviço público, investigar-lhe todas as entranhas, localizar cada ponto fraco e minar todas as suas bases. Até chegar a hora em que a superestrutura venha abaixo. Por completo. De forma total e irreversível. Não me impus qualquer limite nesta empreitada, que considero ao mesmo tempo cívica, patriota e quixotesca.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele então pôs a mão sobre minha perna e, sem olhar para mim, mergulhou num profundo e nervoso silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguém pediu para que diminuíssem o ar condicionado, pois estava sentindo muito frio. Responderam que o ar condicionado estava desligado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começávamos a ficar inquietos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais e mais pessoas iam entrando na sala, e nada de o palestrante chegar. Eu precisava ir ao banheiro, mas não podia levantar da cadeira porque o homem de cavanhaque não tirava a mão da minha perna.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vieram as reclamações. Depois, os boatos. Toda a nossa movimentação estaria sendo filmada – e, de fato, eram visíveis as duas câmeras nos cantos opostos da sala – , para posterior avaliação de uma comissão de auditores da presidência, vindos diretamente de Brasília. Uma espécie de exame psicotécnico perverso. Um teste para ver como nos comportávamos sob pressão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bastou surgirem as palavras “avaliação” e “teste” para que alguns de nós começassem a passar mal. Houve quem desmaiasse. Ou quem lembrasse sofrer de claustrofobia e precisasse ser retirado da sala. Vi pessoas chorando. E aproveitei o instante em que o homem de cavanhaque tirou a mão da minha perna para ir ao banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não fui, no entanto, rápido o bastante. No momento em que me levantei, o palestrante chegou. Tive de sentar-me, constrangido, e novamente receber na perna a mão de meu vizinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O palestrante era um jovem executivo de terno e cabelo engomado. Trazia um sorriso que ocupava todo o espaço de seu rosto. E ocuparia mais, se mais rosto ele tivesse. Subiu em silêncio o palanque, acenando para um ou outro na platéia. Acenou para Fada Sininho, a quem parecia conhecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paralelamente à sua chegada, pequenos espelhos de mão foram distribuídos a todos nós. Eu recebi um. O homem de cavanhaque precisou largar a minha perna para receber o seu, não deixando de comentar:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Assim começa tudo. O estrangeiro vem, nos seduz com sorrisos e espelhinhos. Depois tira a nossa virgindade sem saber se pode ou se vamos suportar o tamanho de seu estandarte, leva o nosso dinheiro e ainda nos faz crer que as fezes que deixou aqui são comida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Boa tarde”, o palestrante enfim iniciou, ao microfone. “Antes de começar, eu deixei uns espelhinhos para serem entregues a vocês. Todo mundo recebeu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos havíamos recebido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ótimo”, ele prosseguiu. “Isso é muito, muito importante. Agora eu gostaria de pedir que cada um de vocês se olhe no espelho. Ponham o espelho diante dos olhos. Assim, na altura dos olhos. Estão todos olhando no espelho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos estávamos olhando no espelho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Podem me dizer o que estão vendo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora variassem na forma (“A minha cara”, “O meu reflexo”, “Eu mesmo”), as respostas foram as mesmas. Todos estávamos nos vendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ótimo, ótimo”, o palestrante parecia entusiasmado. “Perfeito. Agora eu vou pedir uma outra coisa. Por favor, troquem de espelho com o vizinho da esquerda. Isso, troquem de espelho. Recebam o dele, e entreguem o seu. Isso mesmo. Muito bom. Todos trocaram?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos trocamos. Eu estava com o espelho do homem de cavanhaque, e ele com o meu. O palestrante continuou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Agora vamos repetir o processo: coloquem o espelho diante dos olhos e digam o que estão vendo. É bem fácil. A mesma coisa que fizeram antes. Vamos lá. Todos colocaram? E agora, o que estão vendo? Não me digam, eu vou adivinhar o que vocês estão vendo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos silenciamos, à espera.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vocês estão vendo vocês mesmos! Continuam vendo vocês mesmos!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Toda a sala foi tomada por manifestações de espanto e encantamento. Alguns olhavam novamente para o espelho que tinham em mãos e confirmavam as palavras do palestrante, que se regozijava como se tivesse acabado de inventar a lâmpada elétrica. Ninguém compreendia. Mas todos estavam maravilhados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, é isso mesmo”, o palestrante ria e gesticulava. “São vocês. E eu digo mais: mesmo que vocês troquem de espelho com outras pessoas além do vizinho à esquerda, mesmo que troquem com o da direita, o resultado será o mesmo! Vocês!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora ele abria os braços para receber os aplausos do público emocionado. E prosseguia:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso tudo tem uma explicação muito simples, e eu vou contar para vocês. Sim, vou. Porque eu gostei de vocês. De coração. Mesmo. A razão de vocês estarem vendo vocês mesmos ao olhar no espelho do outro como se fosse o seu é a mesma razão de vocês estarem aqui, na empresa. Não importa o cargo que você ocupa, não importa se você é concursado, ou exerce função de confiança, só o que importa é que você é VOCÊ! Não deixe nunca, e eu digo nunca, que lhe digam que você não é você. Você é, sim. Assuma isso. Conscientize-se disso. Pois disso depende não só o seu desempenho nesta empresa. Veja bem. Disso depende o seu desempenho... para a vida.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem de cavanhaque ao meu lado havia tirado a mão da minha perna e agora enxugava as lágrimas, visivelmente comovido. De pé, todos aplaudíamos o palestrante, que começava a retirar-se enquanto um funcionário da empresa agradecia-lhe a presença e avisava ao público que todos os espelhinhos deveriam ser devolvidos à saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estupendo, ele!”, uma senhora exultava. “Estupendo!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele escreveu um livro que está na lista dos mais vendidos”, falou o homem que a acompanhava. “Vou comprar para mim, para minha filha e para o meu genro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha última visão, antes de deixar a sala, foi a de Fada Sininho sendo interpelada por um segurança. Se não me engano, ele avisava que seria necessário revistá-la.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2470832020363117558?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2470832020363117558/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2470832020363117558&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2470832020363117558'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2470832020363117558'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/fada-sininho-passou-pela-recepcao.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-8078317568742454033</id><published>2010-01-30T18:02:00.002-02:00</published><updated>2010-01-30T18:02:49.476-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;i&gt;Quando me vi diante do mar,&lt;br /&gt;jurei para mim mesmo&lt;br /&gt;nunca mais retornar&lt;br /&gt;para mim mesmo.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou diante do Oceano Atlântico, com Ipanema às minhas costas. Deixei por hora meus medos, traumas, crimes e falhas de memória, para ter com a paz esse breve encontro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minhas costas doem, mas não ligo. A onda quebra nas pedras do Arpoador e faz espuma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Continuo sem me lembrar da noite de quarta-feira. Pior. Temo esquecer também a manhã seguinte, e jamais descobrir, afinal, o que fiz. Temo esquecer, nos próximos minutos, a minha própria identidade. E passar, como meu avô, a vagar desmemoriado pelas ruas até que alguém se lembre de mim e venha me buscar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ninguém virá, se isso acontecer.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-8078317568742454033?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/8078317568742454033/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=8078317568742454033&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8078317568742454033'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8078317568742454033'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/quando-me-vi-diante-do-mar-jurei-para.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-6940647522816382656</id><published>2010-01-29T18:54:00.002-02:00</published><updated>2010-01-29T18:54:52.756-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A noite em claro. Povoada de incertezas que pariram pesadelos mas excluíram o sono. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às seis horas o despertador toca. Desligo e me levanto. Não há risadas no banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quem vai ser a próxima?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pequeno demônio que habita meu ombro. Não se cala. Falou a noite toda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Essa última você escolheu muito bem. Eu não faria melhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A água fria no rosto. Cada marca na cara é uma acusação. Quando fecho os olhos elas permanecem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não fala comigo? Vai ficar assim só porque comeu uma menor de idade e está com remorso?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não fiz isso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro. Você pediu a calcinha e ela deu. De graça.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não sou pedófilo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela não é uma criança. É uma pequena rameira que se deixa sodomizar nas escadas pelo namorado. E sabe-se lá por quem mais. Você mesmo já viu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não quero mais falar com você. Saia da minha casa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele ainda fica insistindo. Termino meu café em silêncio, me visto em silêncio e saio em silêncio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Afundo no elevador felizmente vazio. Bom dia para o porteiro. Enquanto espero para atravessar a rua, tento conceber meu próprio atropelamento, caso resolvesse me atirar na frente de um ônibus. Com a sorte que tenho, sobreviveria. Numa cadeira de rodas, com muita dor. Mas sobreviveria. Por muito tempo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero ser o tipo de personagem socialmente normal na superfície, e psicopata no subterrâneo. Não quero esse tipo de mistério. Não quero fazer mal a ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quero apenas ir embora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na entrada da empresa sigo cauteloso. Ainda tenho a esperança e o medo de que a dona do objeto encontrado em meu bolso trabalhe aqui. Seria preferível. Dou bom dia para a moça da limpeza. Sento diante do computador e assim permaneço. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às 8:50 os colegas começam a chegar. A massagista de dois dias atrás vem perguntar-me de novo se a dor nas costas passou. Pergunta se já experimentei acupuntura. Não descobri ainda suas intenções, se quer apenas fazer o funcionário deslocado se enturmar, movida por desinteressada gentileza, ou se busca desvendar os segredos que ela pensa que guardo atrás de tanta reserva. É a única no setor que age assim. Os outros, todos bem mais novos do que eu, apenas me ignoram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Para quando você agendou o ortopedista?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Segunda-feira.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela deve te recomendar fisioterapia, ou acupuntura. Ou RPG. Ou de repente pilates.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela então começa a falar de cada tratamento. Finjo que ouço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No restaurante procuro prestar atenção na garçonete, que sempre pergunta se desejo beber alguma coisa para acompanhar a refeição. E na dona do estabelecimento. Nenhuma delas aparenta ter deixado a roupa de baixo no meu bolso. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em outra mesa, uma mulher solitária lê um livro enquanto come. Na faixa dos quarenta, quarenta e cinco. Olha-me com espanto, ao perceber que procuro alguma coisa no vão de sua saia. Peço desculpas e volto a comer, constrangido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já estou me prestando ao ridículo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De volta ao trabalho, percebo que muitas das mulheres vestem calças cuja cintura está abaixo do que seria o recomendado para manter protegida a sua privacidade. Quando se curvam no bebedouro, ou se abaixam para pegar alguma pasta no arquivo, o tecido íntimo se sobressai. Às vezes, outra coisa. Surpreende-me, no entanto, a frequência da cor vermelha dentre as primeiras. Moda, talvez. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não quero ter uma mancha, chama ou bomba engavetada dentro de minha aparente normalidade. Quero que minha normalidade não seja apenas aparente. No metrô, vejo os passageiros que falam alto, que se comportam de maneira espalhafatosa, e procuro a direção oposta. A história do médico e do monstro, bem como de qualquer um que tenha perdido a sanidade mental, vem me assombrando desde a infância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu avô era dado a perturbações. Às vezes desaparecia, e íamos encontrá-lo perambulando pelas ruas, desmemoriado. Achávamos que era coisa de velho, e não dávamos a devida importância. Num desses desaparecimentos, fui eu o incumbido de encontrá-lo. Encontrei. Meu avô estava esparramado no banco da praça onde costumava ficar sempre, depois do almoço. Sozinho. Achei que estivesse dormindo. Não estava. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tinha, então, treze anos de idade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando entro em casa, me rendo ao cansaço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-6940647522816382656?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/6940647522816382656/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=6940647522816382656&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6940647522816382656'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/6940647522816382656'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/noite-em-claro.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5679317939061037372</id><published>2010-01-28T19:08:00.000-02:00</published><updated>2010-01-28T19:08:11.533-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O despertador me acorda às seis da manhã. O gosto de terra na boca é a segunda coisa que sinto. A primeira é a cabeça latejando como se alvo de pedradas. Continuo imóvel na cama, ouvindo o alarme do despertador que não cessa. É com muito pesar que começo a abrir os olhos. E, quando abro, a visão que me espera leva-me a desconfiar de que ainda estou dormindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pode ser.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para minha surpresa, ainda estou com a mesma camisa, calça e sapatos que vestia ontem. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pode ser. Repito várias vezes que não pode ser. O temor de novamente ter feito algo e não lembrar afasta qualquer resquício de sono. Ao mesmo tempo, o som de risadas femininas vindo do banheiro junta-se ao toque do despertador, num barulho alucinado e de mau gosto. Me pergunto o que está acontecendo. Agora, com medo. Desligo o despertador. Levanto-me. Corro em direção às risadas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ninguém. O banheiro está vazio. Apenas o perfume e eu, o que confirmo diante do espelho. O que está acontecendo, torno a perguntar. O reflexo de olhos vermelhos à minha frente não responde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A noite foi boa”, comenta o pequeno demônio que habita meu ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vá embora. Não aconteceu nada. Saia daqui.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não está sentindo nada de diferente?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou ótimo. Saia. Saia”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Já verificou no bolso da calça?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como assim, no bolso da.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mesmo sabendo que não existe nada para verificar no bolso de minha calça, enfio a mão quase que involuntariamente. Quando retiro, há entre os cinco dedos um pedaço de pano que jamais poderia estar ali. Pano vermelho. Fino. Delicado. Seguro aturdido a pequena peça rendada de roupa esperando que ela me responda como foi parar dentro do meu bolso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Imagino em que estado você deixou a dona dessa calcinha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso não é possível. Foi você quem pôs isso no meu bolso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ah, sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não posso ter feito nada. Eu não me lembro. Eu não fiz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Claro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pare de debochar de mim!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;No trabalho, sinto medo até de olhar para os lados. Como se a qualquer momento possa alguém se aproximar e, com o nariz quase tocando o meu, falar de coisas que não lembro de ter feito. E pedindo a calcinha de volta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E a dor nas costas”, recorda a massagista de ontem. “Melhorou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Melhorou. Obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nenhuma mudança de comportamento. Ela manteve a mesma maneira de me tratar. A calcinha não deve ser dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De minha mesa vejo a nova assessora do chefe. Fada Sininho. Até agora só trocamos um bom dia, quando de sua chegada à empresa. Também não pode ser dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A agonia dura todo o expediente, e continuo sem saber o que aconteceu na noite passada. No metrô, a sensação é a de que, a qualquer instante, uma mulher vai apontar-me o dedo acusador e gritar “Devolva a minha calcinha”. Com medo do escândalo, não olho para ninguém e desço aliviado na minha estação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego em casa. O porteiro comenta alguma coisa sobre o tempo.&amp;nbsp; Não ouvi o quê, mas concordo mesmo assim. Entro no elevador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes que a porta pantográfica de metal se feche, a de madeira se abre. Duas pessoas entram no elevador, junto comigo. Duas vizinhas. Mãe e filha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O pavor por pouco não me causa um desmaio, quando percebo que a filha, uma adolescente com possíveis dezesseis anos, não me olha nos olhos ao me cumprimentar, como gentilmente faz a mãe. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não pode ser. Ela não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio do elevador respirando com dificuldade. Precisando segurar na parede para não cair. Ela não. Entro no apartamento como se a sala estivesse em chamas. E sem poder voltar, pois lá fora também queima. Como se o mundo inteiro ardesse em chamas. Eu sei que ela não é inocente. Já a vi na escada com o namorado. Vi o que faziam. Mas ela não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quarto, a cabeça abafada no travesseiro, grito. Garganta em chamas. Não vou parar de gritar. Grito até que a garganta rasgue. Até que ninguém ouça.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5679317939061037372?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5679317939061037372/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5679317939061037372&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5679317939061037372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5679317939061037372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/o-despertador-me-acorda-as-seis-da.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-1458774882735275408</id><published>2010-01-27T20:13:00.002-02:00</published><updated>2010-01-27T20:13:51.937-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A sede fez-me levantar da cadeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No corredor da empresa, caminhei até o bebedouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Curvei-me, e pronto. Dor nas costas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pontada forte. Mau jeito. Precisei me apoiar na parede. Almas caridosas me ajudaram a retornar, envergonhado, ao meu setor. Logo todos estavam na porta, atraídos pela curiosidade mórbida da possibilidade de um colega estar morrendo. Mas, como se tratava apenas de uma dor lombar, retornavam decepcionados a seus postos. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou bem, estou bem.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estava. Cada tentativa de voltar à postura correta era novo motivo para uma careta de dor. Uma colega começou a massagear-me os ombros, mas a dor não era ali. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fica quietinho que já vai passar”, ela falou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dor não passa. Apenas espera. Enquanto telefonava para marcar uma consulta num ortopedista, meus colegas retornavam a seus lugares. Exceto a massagista, que insistia em apertar-me os ombros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A idade é fogo. Mas aposto que já está se sentindo melhor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não estava. Tampouco me interessavam seu conhecimento e conselhos acerca de problemas de coluna, ergonomia e nervo ciático, que ela desfiava atrás de mim enquanto eu tentava escutar a gravação ao telefone.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mantenha à mão o número da sua matrícula de associado, lápis e papel. Se você deseja agendar uma consulta em São Paulo, tecle dois. Se deseja agendar no Rio de Janeiro, tecle três.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está melhor?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou. Bem melhor, obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mentira. Mentira deslavada. Mas funcionou. A massagista voltou para sua mesa, e pude ficar em paz com minha idade e minha dor lombar. Um analgésico me fez suportar até o final do dia, quando então me arrastei para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E outra vez minha memória pareceu se apagar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-1458774882735275408?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/1458774882735275408/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=1458774882735275408&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1458774882735275408'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1458774882735275408'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/sede-fez-me-levantar-da-cadeira.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5308253634817960133</id><published>2010-01-26T19:04:00.001-02:00</published><updated>2010-01-26T19:04:14.891-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Na rua a caminho do trabalho flagrei o trecho de um diálogo. A mãe com o filho nos braços despedia-se do marido, que ia sabe-se lá para onde. A criança, com seus três, quatro anos, choramingava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você volta, papai, você volta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Volto, filho. Papai promete que volta logo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não esperei para ver, mas o papai deve ter ido embora mesmo. E o menino deve ter ficado lá, com o coração apertado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Embora não tendo nada a ver com o menino, também o meu coração às vezes padece de aperto semelhante.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5308253634817960133?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5308253634817960133/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5308253634817960133&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5308253634817960133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5308253634817960133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/na-rua-caminho-do-trabalho-flagrei-o.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4401452584187171950</id><published>2010-01-25T19:27:00.002-02:00</published><updated>2010-01-25T19:27:41.477-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A nova assessora do chefe é mesmo mais nova do que a anterior. Parece, na verdade, mais nova até do que os adolescentes contratados como estagiários. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Loura. Cabelos curtos e finos. Pequenina. Logo ganhou dos colegas, pelas costas, o apelido de Fada Sininho. Como sua antecessora, não encontrou dificuldade em enturmar-se. O ambiente era mais do que favorável, e todos queriam dar-lhe as boas vindas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meu setor, esgotado o assunto da funcionária nova, meus colegas decidiram requentar um assunto velho. Para meu desconforto, voltaram como fantasmas o nome da outra e as especulações sobre a sua saída. Cogitou-se razões financeiras, sexuais, familiares, até um acesso de loucura da pobre. Ninguém olhou para mim, embora a culpa continuasse esbofeteando minha mente com a afirmação de que eles sabiam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pelo menos a menção à loucura serviu como deixa para mudança de pauta, e logo estávamos – eu, praticamente como um espectador silencioso – relembrando casos de conhecidos que enlouqueceram, na empresa e fora dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Os mais antigos”, disse alguém. “Os mais antigos devem lembrar do Pedro Paulo Braga. Depois que se separou da mulher, nunca mais foi o mesmo. Nunca mais. Vivia resmungando pelos cantos. Às vezes soltava uns berros, que assustavam quem estava perto. A coisa chegou a um ponto em que tiveram que mandar a segurança tirar o Pedro Paulo lá do terraço do edifício. O infeliz tava lá, completamente nu, gritando &lt;i&gt;Cafajestes &lt;/i&gt;pra quem quisesse ouvir. Foi até internado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tive uma tia que mandou internar a filha, porque ela era ninfomaníaca. Queria dar pra todo mundo. Na época ainda se aplicava choque elétrico em maluco, e o que eu sei é que a menina tomou tanto choque que ficou sem sobrancelha. Os pelinhos caíram todos, e nunca mais cresceram ali. Ela disfarçava com lápis.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na minha família teve um caso de uma mulher que cismou que era hospedeira de um monte de vermes. Vivia cuspindo em todo lugar, na cama, na mesa, nas roupas. Porque sentia um gosto ruim na boca. E porque achava que os vermes estavam lhe subindo pela garganta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que foi meu primo, ou tio, que dizia que tinha um encosto no ombro. Ele jurava que era um diabinho que ficava lhe soprando besteiras no ouvido.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que tipo de besteiras?”, eu finalmente falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Atrocidades. Perversões. Tipo coma a sua irmã, queime a escritura do apartamento. Coisas bacanas.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele queimou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. E acho que também não comeu a irmã.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Em casa relatei a conversa do trabalho para o pequeno demônio que habita o meu ombro. Estava curioso em saber se era o mesmo demônio, ou se havia um ramo na hierarquia dos demônios que habitavam ombros e davam maus conselhos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A resposta foi antecedida de uma gargalhada:&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele comeu a irmã, sim.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4401452584187171950?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4401452584187171950/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4401452584187171950&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4401452584187171950'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4401452584187171950'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/nova-assessora-do-chefe-e-mesmo-mais.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-955992282259153763</id><published>2010-01-24T17:38:00.001-02:00</published><updated>2010-01-24T17:38:19.715-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>“Você deseja agradar a todos, não deseja?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Quero dizer, sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você deseja ser querido. Amado. Desejado. Cobiçado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. Não, espere. Cobiçado, desejado, não. Acho que não. Não quero ser desejado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que não me sinto confortável como objeto de desejo de quem quer que seja.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por timidez? Medo? Vergonha?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Acho que sim. Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Também se sente desconfortável desejando alguém?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. Não. Não. Acho que não desejo ninguém.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está olhando para as minhas pernas. Não é desejo o que está sentindo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Não. Desculpe. Não vou olhar mais.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que está colocando a almofada no seu colo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada. Por nada. Não sei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se importa em tirá-la daí?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tirá-la? Por quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tire-a, por favor. Coloque-a de volta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Achei que talvez ela...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Coloque-a de volta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, senhora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E isso, o que é?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Isso o quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“No meio das suas pernas. Por que está assim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desculpe, desculpe. É muito constrangedor.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É constrangedor ficar assim ou é constrangedor que eu veja que está assim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim. Sim. Desculpe. Talvez eu deva ir embora. Talvez.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fique.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Posso pelo menos ir ao banheiro?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Fique. Você não precisa ir ao banheiro.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sei. Quero dizer, não. Eu preciso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Diga por que está assim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não é nada. Eu. Desculpe. Não sei o que está acontecendo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olhe para mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Desculpe, desculpe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olhe para mim enquanto fala.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou muito embaraçado. Tem certeza de que não posso ir embora? Preciso de um pouco de água.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu pego para você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Obrigado. Obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está olhando para mim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não. Não. Não estou. Desculpe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Veja. Aquele espelho ali. Quando virei as costas para você e me curvei para pegar a água, pude ver pelo reflexo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Espelho?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pude ver você me olhando. O que você viu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não vi nada. Eu juro. Não vi nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É impossível. Pela maneira exagerada como me abaixei à sua frente, você deve ter visto alguma coisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu não vi. Não olhei. Eu juro. Me desculpe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Por que deseja que eu o desculpe? O que fez contra mim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nada. Nada. Desculpe. Estou pedindo desculpas de novo. Me perdoe.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você está transpirando. Por quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estou constrangido. Muito. ”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Quer que aumente o ar condicionado?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não precisa. Obrigado.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tire a camisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A camisa. Tire. E a calça. E os sapatos. Tire tudo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu. Eu não posso. Se fizer isso, vou ficar nu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não se preocupe. Eu vou ficar também.”&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-955992282259153763?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/955992282259153763/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=955992282259153763&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/955992282259153763'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/955992282259153763'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/voce-deseja-agradar-todos-nao-deseja.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5482038980146084735</id><published>2010-01-23T16:54:00.003-02:00</published><updated>2010-01-23T16:55:45.529-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Dia de supermercado. Entre as prateleiras, vi uma colega de faculdade. Ela não me reconheceu, ou fingiu que não. Seguia sozinha e vagarosa, empurrando seu carrinho como se cumprisse uma maldição. Não parecia bem. Na verdade, parecia destruída. Parecia uma sombra. Parecia uma coisa velha e mofada. Estava, certamente, pior do que eu, apesar de ser mais nova.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A pele da face havia sido vitimada por um sem número de cirurgias. Os braços muito finos, desproporcionais à barriga protuberante. O cabelo curto pintado de preto e o pescoço estrangulado por um lenço rosa, em pleno verão de quarenta graus do Rio de Janeiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há uma razão para tanto detalhe. Aquela mulher que ia se afastando penosamente pelos corredores do supermercado foi meu primeiro amor. Digo primeiro, porque não se deve contar os amores tidos e sofridos até a adolescência. Esses não valem. Um ser só se torna humano quando deixa a adolescência. Alguns conseguem mais cedo, outros jamais chegam lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois essa mulher, cujo nome não importa, foi a primeira namorada que amei de forma tempestuosa, sólida e viril. A primeira a atar laços com o objetivo de jamais rompê-los. A primeira a protagonizar planos para o futuro. Viriam outras, depois, mas aquela foi a primeira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vivemos meses de pura felicidade, exibida desavergonhadamente aos olhos de todos. Éramos o casal perfeito, em tudo compatíveis, aqueles que você jamais imagina que um dia possam se separar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois nos separamos. Com um ano de namoro a erva daninha da insatisfação já havia tomado todo o organismo de minha amada, e de uma maneira nada compatível com o comportamento dos meses anteriores ela me abandonou. Enquanto ela foi seguir sua vida sem mim, eu mergulhei na tristeza com todas as minhas forças (ou fraquezas), e sofri. Sofri. Fiquei numa merda miserável, dessas da qual se custa a sair. E nunca se sai ileso. Eu não saí ileso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje o tempo resolveu nos reunir por alguns segundos sob um mesmo teto. Mostrou no que resultamos: ambos sozinhos e pavorosos. Um futuro que o universitário que eu fui jamais seria capaz de prever. Nem de sacanagem. Ela seguiu rumo ao caixa sem nem dar uma olhadinha para trás. Eu fui então para a seção de frios.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5482038980146084735?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5482038980146084735/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5482038980146084735&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5482038980146084735'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5482038980146084735'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/23-de-janeiro-de-2010.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-3765923039137542283</id><published>2010-01-23T07:16:00.000-02:00</published><updated>2010-01-23T07:16:44.148-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;i&gt;Aos que estranharam a ausência de uma nova postagem ontem, peço humildes desculpas.&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;A região em que moro foi vitimada pela falta de luz proporcionada pela forte chuva, e com isso fiquei sem computador.&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Vou postar o texto de ontem, agora. O de hoje seguirá no decorrer do dia.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Mais uma vez, desculpem.&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;22 de janeiro de 2010. Sexta-feira.&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio da madrugada, acordo com risadas vindas do banheiro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me mexo. Sono demais para levantar. Aborrecido demais para voltar a dormir. Agora, qualquer ruído soa catastrófico, do barulho do ventilador ao carro passando na rua. Numa tentativa de fuga que pode ser tudo, menos útil, me viro de lado na cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De novo a risada. Voz de mulher. O que pode haver de tão divertido no banheiro é o que fico me perguntando, até que o sono aos poucos retorne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo com o despertador, às seis da manhã. Não é possível que já sejam seis da manhã. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levanto-me penosamente e dou os nove passos até o banheiro. Primeira coisa que sinto ao entrar, o perfume feminino me confunde. Sensação de estar entrando no banheiro errado. Me desequilibro ao tirar a bermuda do pijama, mas quando a água fria do chuveiro desaba sobre minha cabeça o mundo inteiro se resume nesse alívio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Café, vestir, sair. Andar, tropeçar, tossir. Falta uma melodia em cima dessa rotina diária. O ônibus custa a chegar, então eu espero. O calor está de matar, então eu suporto. A tristeza parou na banca de jornais, então eu tento sorrir. Um pequeno espaço colorido abriu-se no meio de tanto pensamento cinza. Entro no ônibus depois de ceder a vez para uma idosa e sua neta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas ao atravessar a roleta e olhar distraído para a rua, levo um susto. Do lado de fora, parada no ponto de ônibus, lá está ela. A criança de olhos vazios. De novo, sempre sozinha, sempre olhando o nada. Me entorto todo na janela do ônibus para vê-la, até sua imagem ser devorada por completo pela distância. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espalhado em seu assento, o cobrador assovia “Jesus Cristo”, do Roberto Carlos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que entro em meu setor na empresa, imagino que vou encontrar sobre a mesa um bilhete igual aos que deixava para ela, a assessora do chefe. Às vezes penso que são essas pequenas gotas de sobrenatural que fazem valer a pena os meus infelizes dias. Enquanto estou me perguntando quem está rindo em meu banheiro, ou quem é a criança de olhos vazios, ou o que vai aprontar o pequeno demônio em meu ombro, não estou chorando. Perguntar é uma forma de não morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Se você não entendeu, pergunte.)&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-3765923039137542283?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/3765923039137542283/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=3765923039137542283&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3765923039137542283'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3765923039137542283'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/aos-que-estranharam-ausencia-de-uma.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4764720777564544695</id><published>2010-01-21T19:41:00.001-02:00</published><updated>2010-01-21T19:41:32.383-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Acordo cansado. Sempre cansado. Hoje separei uns minutos para ficar na janela. Um dia tão bonito e não consigo me emocionar com isso. Talvez amanhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O mesmo deslocar-se diário. Não há individualidade, personalidade ou identidade que resistam. Você vira nada. Ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bom dia não quer dizer nada. É quase um grunhido involuntário. Como gases expelidos na cara do interlocutor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Que nojo.”&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao contrário do que se pode pensar, dizer bom dia não significa “Estou desejando que o seu dia seja bom”. Na verdade, seu verdadeiro significado é “Eu já disse bom dia, agora me deixe em paz”. Com o passar dos séculos, a expressão deixou de ser um cumprimento para tornar-se uma barreira, um escudo, um mecanismo de defesa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia, como vão as coisas? E a família? E a esposa?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você tá bem, hein? Tá com a aparência saudável, a cara boa. Tá ganhando bem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Serviço público, né? É aquela moleza. Fica sem fazer nada o dia inteiro, só na mordomia.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Bom dia! Bom dia! Bom dia!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bom dia é um mecanismo de defesa nem sempre eficaz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4764720777564544695?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4764720777564544695/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4764720777564544695&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4764720777564544695'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4764720777564544695'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/acordo-cansado.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-5206056273806601270</id><published>2010-01-20T18:58:00.002-02:00</published><updated>2010-01-20T18:58:25.739-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>O elevador não parava de descer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estamos aqui há quanto tempo?”, perguntou a vizinha ao marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O Júnior tinha acabado de nascer”, foi a resposta do marido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E quantos meses tem o Júnior?”, eu perguntei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai fazer quatro anos.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o elevador enfim parou e a porta pantográfica abriu-se automaticamente, ofereci a vez para que o casal saísse primeiro. Mas a mulher recusou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Querido”, ela disse ao marido. “Precisamos subir de novo. Esqueci minha juventude lá em cima.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás de mim, o elevador fechou a porta e subiu, levando os pais do Júnior a um andar do edifício que talvez eles só atingissem depois de mortos. Prossegui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Precisava trabalhar. Afazeres me aguardavam esfomeados, e a fome alheia sempre foi motivo de convulsão social. O céu estava branco como leite quente. O ar, quente que abafava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem aguardava no ponto de ônibus, e ao me aproximar vi que o conhecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pai?”, exclamei, com espanto, pois sabia que ele estava morto.”Você também vai trabalhar?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu pai olhava para o chão. Havia um cachorro, um vira-lata, lambendo as feridas nas ancas. Parecia bastante infeliz. Como eu. Meu pai então pôs a mão sobre meu ombro e perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você já foi pra cama com uma mulher velha? Uma mulher velha e doente, você já foi? Vá. Não existe coisa melhor nesse mundo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o ônibus enfim chegou, entrei sozinho. Meu pai ficou, não sem antes dar seu derradeiro conselho:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não vai viver muito. Vá pra cama com uma mulher velha e doente. E senil. Estou avisando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, papai. Sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sonhar com meu pai sempre me deixa arrasado. Levanto-me da cama com a alma em prantos e prevendo um dia daqueles. Um animal comprido, de muitas patas, aparece morto no piso do banheiro. Recolho-o com papel higiênico e o deposito no cesto de lixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No ônibus fico tentando esquecer o sonho com meu pai. Da janela, vejo as marcas da ventania de ontem à noite: árvores partidas nas ruas, calçadas forradas de folhas. Pequenas destruições. Pela porta de trás, um aleijado entrou no ônibus. A deficiência nas duas pernas o leva a arrastar-se pelo corredor, pedindo esmolas aos passageiros. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O senhor alto e forte ao meu lado confidencia-me:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vê? Ele sorri. Precisa rastejar para se locomover, e ainda assim o faz sorrindo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“É verdade.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu tenho sessenta e nove anos. Sou saudável, me alimento bem e meu pênis funciona perfeitamente. Mas há trinta anos não dou um sorriso.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço do ônibus. Ando. Chego no edifício onde trabalho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para entrar na empresa, é preciso identificar-se na portaria. Encosta-se o crachá de plástico num dispositivo eletrônico e a roleta é liberada. Em todos os setores comuns há câmeras de vigilância, e os elevadores são tão inteligentes que não apenas sabem falar, mas também sabem evitar conversas irrelevantes. Todas as minhas tentativas de contato foram ignoradas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Segunda-feira chega a nova assessora”, um colega me informa no elevador. “O Lincoln já mandou chamar. Parece que é mais nova do que a que saiu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que um dia ela não passará de uma imagem esmaecida. Quase um farelo na lembrança. Quando a esquecer, espero que seja rápido e indolor.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-5206056273806601270?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/5206056273806601270/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=5206056273806601270&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5206056273806601270'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/5206056273806601270'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/o-elevador-nao-parava-de-descer.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-1970826955738393692</id><published>2010-01-19T20:41:00.003-02:00</published><updated>2010-01-19T20:41:28.213-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Acordo sempre cedo. Como cedo madrugo, Deus deveria me ajudar. Acordo sempre cedo e tomo sempre o mesmo café forte e com adoçante. E pão francês, margarina e um iogurte. Depois molho as plantas, passo o fio dental, escovo os dentes, tomo um banho e me visto para o trabalho. Vou sempre de ônibus. Na volta é que pego o metrô. Quando chove. Trabalho no centro do Rio de Janeiro, numa empresa pública.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maioria dos rostos dentro do ônibus me é familiar. São pessoas que diariamente fazem o mesmo trajeto que eu. Que compartilham todos os dias esses mesmos minutos dentro do mesmo coletivo no mesmo horário. E, no entanto, não nos tornamos amigos. Jamais nos tornaremos. Sequer nos cumprimentamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A noite da última sexta-feira continua sendo um mistério. Da mesma forma que é um mistério a saída da assessora do chefe. Se eu fosse outra pessoa, a procuraria. Perguntaria o que eu disse e fiz, e imploraria por seu perdão. Mas eu não sou outra pessoa. Sou assustado. Sou covarde. Um simples aperto de mão seguido de um sorriso me custa um terrível esforço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na empresa ainda tem gente falando dela. É assunto para a semana. Nessa hora todos têm algo a contar. Os homens, principalmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu ouvi dizer que não era só o diretor que pegava ela.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguns vão além:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha, eu já comi. Chamei ela pro motel, ela topou. Meti a noite toda.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Penso – claro, apenas penso – em perguntar por que tais confidências são feitas logo a mim. O que eu tenho a ver com isso. Faz um belo dia lá fora. O sol poderia inspirar as pessoas. Mas ninguém acorda de manhã, olha o sol na janela e, iluminado, decide: “Vou ser uma pessoa melhor”. Piorar é o verbo que melhor define o ser humano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O lugar dela continuará vazio, mas já me informaram que não por muito tempo. Até sexta-feira deve chegar uma substituta. Ninguém é insubstituível. Ninguém é essencial. Ninguém deixa saudade. O sol entra pela janela e eu quero chorar, mas me controlo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia acaba. Custou muito a passar. Amanhã é dia do padroeiro da cidade, feriado para muitos.&amp;nbsp; Não para mim. Voltei direto para casa e caí na cama. Não consigo fechar os olhos. Nem abrir. Não me mexo. Não respiro. Não vivo. Não quero.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-1970826955738393692?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/1970826955738393692/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=1970826955738393692&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1970826955738393692'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1970826955738393692'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/acordo-sempre-cedo.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-7192832298455019435</id><published>2010-01-18T20:31:00.002-02:00</published><updated>2010-01-18T20:31:12.566-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>São dez horas e ela ainda não chegou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passo mais tempo olhando a ausência na sala dela do que trabalhando. Em meu setor, os comentários não tardam. Parece até que o pequeno demônio que habita o meu ombro possuiu meus colegas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela ainda não veio.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O fim de semana deve ter sido longo.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com a roupa que ela tava na sexta-feira, certamente foi.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Alguém viu com quem ela saiu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aquela roupa é boa pra despertar instintos primitivos. Se ela caiu em mãos erradas, não quero nem pensar no que aconteceu.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Logo saberemos, quando ela chegar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se ela chegar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escuto calado as maledicências e as risadas. Calado e apreensivo, à medida que o tempo passa e ela não aparece. Um poço escuro começa a surgir em minha mente, e na garganta que se abre vão caindo todos os pensamentos tranquilos do fim de semana. Todos. Até restar apenas a certeza da qual eu venho fugindo com covardia e cinismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aconteceu alguma coisa com ela na sexta-feira. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Alguma coisa que eu fiz. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E no entanto eu continuo sem poder lembrar. Como um vira-lata faminto, vasculho no saco de lixo da memória, e dentre restos e rascunhos apenas a desconfiança de que algo se perdeu. Penso em ir embora. Preciso voltar para casa. Mas não consigo levantar da cadeira e nem olhar meus colegas. A culpa, ensandecida e desesperada, é a primeira a gritar: eles já sabem. Eles já sabem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo fugir. Na hora do almoço, no lugar de ir para a estação do metrô, minhas pernas me levam ao restaurante. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entro perdido. O lugar de sempre está ocupado, e o restaurante parece cheio hoje. Caminho até uma das mesas. Nela está apenas um senhor, fazendo sozinho a refeição.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com licença”, eu tento ser gentil. “Esse lugar está ocupado?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Está”, ele diz. “Aqui está a minha esposa, e aqui a minha filha. Não está vendo?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não há ninguém na mesa com ele. Mas eu peço desculpas e vou sentar-me em outro lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Meu corpo novamente me desobedeceu, e depois do almoço eis-me de volta à empresa. Enquanto escovo os dentes, um colega entra no banheiro e vai para o mictório.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Viu só quem pediu demissão?”, ele pergunta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ão”, eu respondo, com a boca cheia de creme dental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A assessora do diretor. Apareceu durante o almoço, ficou vinte minutos fechada com ele na sala e foi embora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como assim?”, pergunto, após cuspir o creme dental na pia. “Embora pra onde?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Parece que ela vai voltar pra casa dos pais, em São Paulo. Ela é de lá. Já veio com a carta de demissão pronta, e se mandou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após sair do mictório e vir até a pia lavar as mãos, o meu colega volta-se da porta do banheiro e, antes de ir embora, diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esquisito, não?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-7192832298455019435?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/7192832298455019435/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=7192832298455019435&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7192832298455019435'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/7192832298455019435'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/sao-dez-horas-e-ela-ainda-nao-chegou.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4360425363375466936</id><published>2010-01-17T17:50:00.002-02:00</published><updated>2010-01-17T17:50:16.680-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Os caminhos todos sugerem desvio. Eu não desvio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escadas intermináveis. Sempre subindo. Intrincadas como uma obra de Escher. Becos opressores. As pessoas me olhando. Olhando o estranho que sobe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me sinto personagem de uma história impossível. O que eu quero está lá em cima, e por isso subo essas escadas intermináveis debaixo de sol quente. Faço de conta que não me canso. Viver não dói. O sofrimento é breve. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chego ao alto do morro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O barraco parece um estômago. Apertado, úmido e cheirando mal. A porta está aberta e eu entro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Com licença?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode entrar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A voz vem lá do fundo. Ele está sentado numa cadeira de balanço num dos cantos. Não sei se quem range é a cadeira ou se é Ele. Me aproximo com cuidado. Sinto que me olha de alto a baixo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Como me encontrou?”, Ele quis saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Google”, respondo. “E perguntei lá fora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O que quer de mim?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor é mesmo Deus?”, pergunto, me enchendo de coragem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele então se levanta. Caminhando lentamente, fica diante de mim. É baixinho. Cara de poucos amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem dizer nada, me enfia um tapa na cara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ei, qualé, Deus!”, reclamo, a face esquerda dolorida. “Olha a folga.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Outro tapa. Tento revidar o tapa de Deus, mas ele me imobiliza e me dá uma surra. Bota-me para fora do barraco debaixo de pontapés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E dê graças a Deus por ainda estar vivo!”, foi a despedida d’Ele. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto vou embora, mancando, cheio de hematomas e cuspindo sangue, murmuro, com a fé renovada: “Amém”.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4360425363375466936?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4360425363375466936/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4360425363375466936&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4360425363375466936'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4360425363375466936'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/os-caminhos-todos-sugerem-desvio.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-713937446405794415</id><published>2010-01-16T20:06:00.002-02:00</published><updated>2010-01-16T20:06:31.046-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Eu sempre acordo às seis da manhã. Mesmo nos sábados e domingos. Temo perder o sono, à noite, caso acorde mais tarde. E desregular assim o meu relógio biológico. Sim, eu sigo rotinas. Tenho camisas iguais no armário. Separo a comida no prato. Coloco etiquetas nos objetos. Guardo recortes de jornais. Demoro para lavar as mãos. E acordo sempre às seis da manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, no entanto, despertei ao meio-dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda deitado. Na cabeça, nenhum espaço para o que não seja dor. Até a memória foi despejada. Não recordo de nada além do que escrevi. Nem do que escrevi. Se tento lembrar, a dor me corta e paralisa. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dificuldade em formular pensamentos. Se inicio uma pergunta, me confundo. Desisto antes mesmo da interrogação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha língua está com gosto de areia. Areia que desce garganta abaixo como em uma ampulheta fosca. Também não consigo falar. Apenas olho, ainda me acostumando à claridade do dia, para o teto. Para mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando olho para mim, não vejo roupas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sempre durmo de pijama. É uma de minhas rotinas. Se está muito quente, tiro a camisa. Mas nunca deixo descoberta a genitália. Me causa desconforto. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não durmo nu. Não posso estar nu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me levanto. Me visto. Me concentro. Não consigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O banheiro parece distante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu preciso de um banho. Preciso acordar. Não quero sonhar esse sonho. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Há lugares que evitamos pisar. Pontos para além dos quais não queremos ir. Eu possuo, em mim, um lugar assim. E recuo cada vez que ele avança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O dia correu sem que eu me lembrasse da noite de ontem. Prefiro crer que ela jamais existiu. Que, após o trabalho, retornei para casa, terminei meus afazeres e dormi. Como sempre. Talvez por causa do calor, algum alimento não me tenha feito bem. Posso ter passado mal durante a noite, e por isso acordei mais tarde. Não aconteceu nada que não caiba numa explicação razoável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Exceto o pau que você esqueceu de guardar dentro da calça”, interrompe o pequeno demônio que habita o meu ombro e inferniza a minha vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não quero falar com você.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Aposto que nesse instante ela está em casa sem poder sentar direito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pare com isso. Não respeita ninguém?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela deve estar diante do espelho, pensando em como vai esconder as manchas roxas no pescoço.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vá embora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Até que enfim você agiu como um homem. Estou muito orgulhoso do que fez.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não fiz nada.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Depois dessa, tem de escolher a próxima vítima. No setor de informática tem uma loirinha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pare!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Certo, agora vai começar a chorar. Idiota.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Uma bela noite. Após um belo dia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada aconteceu. Tenho certeza de que nada aconteceu. Nada poderia ter acontecido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Posso encostar a cabeça no travesseiro e dormir em paz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-713937446405794415?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/713937446405794415/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=713937446405794415&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/713937446405794415'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/713937446405794415'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/eu-sempre-acordo-as-seis-da-manha.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4591304977996381351</id><published>2010-01-15T20:08:00.003-02:00</published><updated>2010-01-15T20:18:24.663-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>8:30.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No quinto andar da empresa, sou sempre o primeiro a chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei a noite em claro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De minha mesa, vejo a sala dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante, os robôs Spirit e Opportunity estão no solo de Marte. Lá não tem esquinas nem relógios nem janelas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem vizinhos nem ansiedade nem suor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem gente. Nem remorso. Nem pavor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nem ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às nove horas ela vai chegar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Marte, o dia dura 24 horas e 37 minutos. Aprendi isso &lt;a href="http://www.todooceu.com/detalhamento/exploracao_marte.html"&gt;aqui&lt;/a&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Consigo pensar numa infinidade de eventos que poderiam acontecer agora. Espero. Nenhum deles acontece. Continuo esperando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;8:45. O barulho do elevador é imediatamente seguido de vozes. Não sou mais o único funcionário no andar. Meus colegas chegaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estão todos animados. Hoje é sexta-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje é sexta-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela chega às 9:23. Usa um vestido preto, justo e decotado. Para que todos a olhem. E todos a olham. Alguns a seguem até a sala. Ela está brilhante, sorridente. Conversa com todos. Recebe elogios de todos. Olhou rapidamente para cá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em minha sala, uma das mulheres não perde tempo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela hoje veio vestida pra matar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O telefone toca. Gaguejo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cálculos na tela do computador. Erro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Papéis na minha mesa. Perco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Almoço sem apetite e retorno não querendo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Querendo apenas estar em Marte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cada cumprimento me apavora. Uma floresta de espinhos atravesso: portaria, elevador, corredor e sala. Ela ainda não voltou do almoço. Quando volta, volta acompanhada. Hoje, todos os homens a desejam. No banheiro, prefiro não sair. Mas, quando saio, dou com ela no corredor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não falou comigo hoje.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Marte, Spirit e Opportunity ficam andando pra lá e pra cá olhando pedras e tirando fotografias.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não disse se gostou do vestido que eu botei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em Marte não tem buzinas, campainhas nem cachorros latindo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E eu botei especialmente para o nosso jantar de hoje.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não. Em Marte não tem nada disso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Sentado em minha mesa. Vão dar seis horas. Meus colegas já estão desligando seus computadores. Hoje é sexta-feira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero até as seis em ponto. A sala dela está vazia. Desligo tudo e saio. O elevador lotado. Os andares aparecem em vermelho do lado esquerdo da porta. As pessoas não param de falar. Não consigo entender o que dizem. O elevador não chega nunca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando as portas se abrem, a primeira coisa que vejo é ela. Na portaria. Sozinha. Não tenho como sair por outro lado. Ela me vê e sorri.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então”, ela diz. “Vamos para onde?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lá fora, apenas alguns pingos de chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aqui dentro, trovoadas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4591304977996381351?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4591304977996381351/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4591304977996381351&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4591304977996381351'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4591304977996381351'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/830.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-1370384612407694098</id><published>2010-01-14T20:19:00.005-02:00</published><updated>2010-01-14T20:21:16.121-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;div style="color: black;"&gt;&lt;i&gt;A culpa é do teu olhar&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="color: black;"&gt;&lt;i&gt;que me reflete em estilhaços&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="color: black;"&gt;&lt;i&gt;ou da cabeça que me leva&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="color: black;"&gt;&lt;i&gt;a agir como palhaço?&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje evitei a assessora do chefe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deveria explicar a ela. Mas não expliquei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deveria falar. Mas não falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deveria pular da janela e sair voando. Mas não pulei. Nem saí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passei o dia torcendo para o dia passar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os braços abertos esperando o céu derrubar uma solução.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em vão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos os esconderijos estão ocupados.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-1370384612407694098?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/1370384612407694098/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=1370384612407694098&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1370384612407694098'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/1370384612407694098'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/culpa-e-do-teu-olhar-que-me-reflete-em.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-109903752516378118</id><published>2010-01-13T20:15:00.002-02:00</published><updated>2010-01-13T20:15:29.221-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Estou com problemas. Graves.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje a assessora (no serviço público, secretária chama-se assessora) do chefe me puxou num canto, depois de passar um bom tempo me olhando da sala dela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sobre aquela conversa de ontem...”, ela começou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Conversa de ontem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fala baixo. Sobre aquilo que você falou... Eu pensei muito no assunto.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Comecei a ficar preocupado. Não tivemos nenhuma conversa ontem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu quero dizer que nunca havia pensado no que você falou... Nunca tinha visto as coisas sob esse ponto de vista...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A preocupação foi cedendo lugar ao medo. Cabia esclarecer, e logo, qual de nós estava ficando louco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Foi uma grande surpresa para mim... Eu não esperava... Mas eu...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela então me olhou nos olhos. Profundamente. Não consegui sustentar o olhar, e fiquei procurando algo errado em meus sapatos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu vou ser sincera com você”, ela continuou. “Você não é um homem que a gente pode chamar de... normal. Você não se enturma. Tá sempre calado. Não participa das comemorações. Não sai conosco depois do trabalho. Eu admito que nunca havia visto você de outro jeito.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa hora senti minha camisa empapar de suor, mesmo com o ar condicionado funcionando perfeitamente. Rezava para que alguém a chamasse, e ela fosse embora. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas eu acho”, ela não parava. “Eu acho que a gente deve estar aberta para tudo. As pessoas nunca são o que a gente pensa que elas são.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dessa última frase eu lembrava vagamente. Era possível, então, que a tal conversa tivesse mesmo ocorrido. Procurei uma parede para me apoiar, enquanto ela continuava falando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você ontem mostrou pra mim um lado seu que eu não conhecia. E se mostrou só pra mim, e não pra outra pessoa, é porque algum motivo você teve pra fazer isso. Algum motivo em mim. Eu acredito muito nas coisas que o destino traça. Por isso eu fui até o Recursos Humanos e olhei a sua ficha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A minha ficha?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sim, eu queria saber a data do seu nascimento. Você é de capricórnio, né? Eu sabia. Você é introspectivo. Na sua. Mas guarda algo muito bom aí dentro. Todo capricorniano é assim. O Dr. Lincoln é assim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Dr. Lincoln era o nosso diretor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E é por isso tudo... Que eu decidi aceitar a sua proposta.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“A minha proposta?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Na sexta-feira nós podemos jantar juntos, sim. Eu quero conhecer você melhor. Acho que será bom. Mas depois nos falamos, preciso ir agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com um olhar luminoso de ternura ela se despediu e entrou em sua sala. Antes que mais alguém aparecesse falando de coisas que eu teria feito ontem, voltei logo para a minha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;“É claro que não é caso pra procurar médico”, disse o pequeno diabo que habita o meu ombro. “É de um motel que você precisa.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você se diverte, mas eu estou enlouquecendo”, as lágrimas rolavam enquanto eu falava. “Eu me perco nas ruas, faço coisas que não faria, e depois não me lembro de ter feito. Perco a razão, perco a razão.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O meu desespero só aumentava o prazer dele. Enquanto eu me encolhia na cama aos prantos, ele ia descrevendo a noite de prazer que eu teria com a assessora, e dava-me dicas do que fazer com ela. Mordidas no pescoço, puxadas na crina, ofensas terríveis e violências físicas que – ele garantia – ela ia adorar. Já estava mesmo na hora de eu voltar a ser homem, ele reclamava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pare com isso”, falei. “Eu não vou jantar com ela. Não posso. Não quero.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Vai sim!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Seu viado!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Viado é você!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sei que há meios mais glamurosos para se iniciar um processo de loucura. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o meu começou assim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-109903752516378118?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/109903752516378118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=109903752516378118&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/109903752516378118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/109903752516378118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/estou-com-problemas.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2227540877666242393</id><published>2010-01-12T19:30:00.003-02:00</published><updated>2010-01-13T07:07:07.309-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Não sei quanto tempo permaneci, ontem, desmemoriado e em pânico. Mas a memória voltou, e, antes que ela fugisse de novo, retornei correndo para casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Era uma fila que atravessava ruas e estendia-se até o horizonte. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava nela. Provavelmente há dias. Eu e milhões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O calor provocava aquela deformação característica na paisagem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu apenas esperava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Todos possuíamos senhas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atrás de mim havia uma mulher. Foi ela quem perguntou:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor é o Lopes?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Virei-me para responder:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não, não sou o Lopes.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“As pessoas nunca são aquilo que achamos que elas são”, a mulher finalizou.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordo com uma mão tocando-me o ombro. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou no ônibus, e um jovem surdo-mudo me entrega um papel pedindo dinheiro. Digo que não tenho, mas ele não escuta. De qualquer forma, entende.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desço do ônibus olhando para os lados, com medo de alguma bicicleta desgovernada. Viro uma esquina, outra, e mais outra. Dou bom dia para o segurança, para o ascensorista e para a moça da limpeza no corredor. Entro na sala, ligo os computadores e a impressora. A mesa cheia de papel. Mal me ajeito na cadeira, o telefone começa a tocar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;(Vi na internet. Sonhar com fila significa que vou ter aborrecimento com meus parentes.)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os outros funcionários vão chegando aos poucos. Assisto condoído o silêncio morrendo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Durante o almoço, meu lugar de sempre – no canto do restaurante, o mais isolado – está ocupado. Perco alguns instantes decidindo onde sentar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pequenas mudanças na rotina me desequilibram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico intimidado quando alguém decide ficar me encarando. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um grupo de seis pessoas, homens e mulheres, entra no restaurante. Todos trabalham na mesma empresa que eu, mas só os conheço de vista. Falam alto, e os homens olham as mulheres da mesma maneira faminta com&amp;nbsp; que olham seus pratos. Quando elas se levantam e vão juntas ao banheiro, eles ficam comentando. Um deles solta gargalhadas descontroladas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para ir até o caixa, passo fatalmente pela mesa do grupo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sério, eu juro!”, exclama uma das mulheres, rindo. “A abelha picou bem na minha bunda!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Então mostra!”, gritam os rapazes, em coro. “Mostra a bunda aí!”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A senhora que fica no caixa é a dona do restaurante. Às vezes é o marido quem executa essa tarefa. Ela é muito branca, com grossas sobrancelhas pretas e cabelo da mesma cor. Sotaque português. Ele é ruivo, mais branco do que ela, muito magro e está sempre suado. Embora sejam extremamente gentis e a comida de boa qualidade, desconfio muito de um dono de restaurante que seja magro como ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Retorno à empresa saudoso do ar condicionado.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2227540877666242393?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2227540877666242393/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2227540877666242393&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2227540877666242393'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2227540877666242393'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/nao-sei-quanto-tempo-permaneci-ontem.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-8839073952678147527</id><published>2010-01-11T17:40:00.001-02:00</published><updated>2010-01-11T17:40:34.634-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Não vou trabalhar hoje. Mas terei de ir ao médico, ao menos para conseguir um atestado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Peça para o médico te dar uns dois dias”, disse o pequeno demônio que habita o meu ombro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Enfim apareceu”, falei. “Precisei muito de você ontem”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Estava ocupado”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Fazendo o quê?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Preparando os seus próximos dias.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um banho lento, apoiado na parede. Ficar de pé cansa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me sinto amassado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ontem ouvi risadas aqui dentro, no banheiro. E agora tenho certeza de que alguém esteve aqui, pois deixou um perfume que não reconheço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mal piso na calçada, e já estou com a camisa cheia de manchas de suor. Caminho com vergonha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por pouco não sou atropelado. Ao tentar entrar no ônibus, me assusto com a freada de uma bicicleta a menos de um palmo do meu corpo. O olhar do menino que pedalava não deixa dúvidas. O errado sou eu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Peço desculpas ao menino. Ele já vai longe. Eu entro. Nunca mais nos veremos de novo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentro do ônibus, fico tentando não esbarrar o braço suado na mulher com quem divido o banco. Ela fala no celular. Insulta a irmã. Diz que está tendo um dia horrível. Não sou só eu, todos ao redor ouvimos o que ela diz. Até o cobrador está ouvindo. Me dou conta, então, que o perfume que ela está usando é o mesmo que senti no meu banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O médico que me atende é um garotão com idade para ser meu filho. Dr. Marcelo. Ficamos um tempo em silêncio, até que ele resolve falar. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Me diga exatamente o que o senhor está sentindo”, ele diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo que estou sentindo exatamente febre e dores na garganta e no corpo. Ele silencia, pensativo. Depois pergunta;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não tem diarréia? Vômitos?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Tem certeza?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes de responder que tenho certeza, penso que ou devo estar com cara de quem andou vomitando, ou estou fedendo a merda. O doutor novamente se cala, imerso em pensamentos obscuros.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse instante entra uma enfermeira. Traz alguma coisa na mão, que entrega ao médico.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Olha só o que deixaram aqui”, ela diz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Oba”, diz ele, animado. “Plástico-bolha.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O doutor fica então estourando o plástico-bolha na minha frente. Tec. Tec. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tec.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não demora e começo a me sentir incomodado com tanto tec. Limpo a garganta algumas vezes, para tentar competir com os estalos das bolhas sendo estouradas. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tec.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Me ajeito na cadeira como um náufrago que vê um avião passar. O médico parece então lembrar-se do que estamos fazendo ali, e, sem parar de estourar as bolhas, profere enfim o diagnóstico que ninguém seria capaz de prever.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor está com uma virose.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tec.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele me receita um comprimido, assina o atestado e fica lá, extremamente concentrado nas bolhas que precisam ser estouradas por ele. Antes que outro o faça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saio da rua pensando em não escrever sobre o doutor Marcelo. Ninguém vai acreditar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nesse instante que acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu saio da clínica, dou dois passos e paro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou perdido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É a mesma rua, o mesmo bairro. Tantas vezes circulei por aqui. Ou nunca circulei. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A clínica é um casarão. O ponto de ônibus está do outro lado da rua. Foi de lá que eu vim. Ou não foi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não consigo lembrar onde moro. Tento forçar a memória a trabalhar. Não consigo. Não lembro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começo a sentir medo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Recuo até a porta da clínica. Ando de costas, até as costas tocarem na parede. E fico quieto. Esperando ajuda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não aparece ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou com medo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-8839073952678147527?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/8839073952678147527/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=8839073952678147527&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8839073952678147527'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8839073952678147527'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/nao-vou-trabalhar-hoje.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-4284109242180837047</id><published>2010-01-10T18:40:00.001-02:00</published><updated>2010-01-10T18:40:10.747-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Continuo prostrado em minha cama quente. A febre passou, mas a garganta teima em doer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Às vezes me levanto, e me arrasto até a janela. Esperando que algo aconteça. Nada acontece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se hoje não é o dia mais quente do ano, imaginar o que vem por aí é um exercício de terror.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na hora do remédio, eu tomo o remédio.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por repetidas vezes, percorro todos os canais da televisão. E retorno. E recomeço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Repetidas vezes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso beber. Preciso aprender a beber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso aprender a gostar de beber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ouço risadas vindas do banheiro. Alguém está rindo dentro da minha casa, mas meu corpo pesa demais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Venha rir no meu quarto”, tento falar. Mas minha voz se ausentou. Tudo em mim se ausentou, só a dor permanece companheira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tento chamar o pequeno demônio que habita o meu ombro. Converse comigo. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nem ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se Roberta ligasse agora oferecendo cartão de crédito, eu aceitaria. Só para que ela conversasse comigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Minha mão segurando o controle remoto treme.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Do nada, começo a chorar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-4284109242180837047?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/4284109242180837047/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=4284109242180837047&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4284109242180837047'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/4284109242180837047'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/continuo-prostrado-em-minha-cama-quente.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-2323680786127858278</id><published>2010-01-09T18:21:00.000-02:00</published><updated>2010-01-09T18:21:09.061-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;i&gt;“Na verdade, em nossa sociedade há um grande número de pessoas que vão do berço à cova sem comer mulher nenhuma. Ficam sentadas em quartinhos apertados e fazem objetos de papel laminado, que penduram na janela, e ficam vendo o sol batendo neles, vendo eles se virarem no vento...”&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estou febril.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho dores no corpo e a garganta inflamada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como o travesseiro e o colchão, me tornei parte integrante da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A citação acima é de Charles Bukowski. Está num dos contos do livro “Numa Fria”, e o exemplar em minha estante traz na capa um desenho de Robert Crumb.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sempre que adoeço, o pequeno demônio que habita o meu ombro me recorda a quantidade de anos que venho me dedicando a não ter ninguém. Dessa vez desencavou essa frase.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não sei o que ele quer com isso. Se a minha danação eterna, ou o meu bem, ou apenas a sua satisfação pessoal. Talvez o pequeno demônio que habita o meu ombro seja voyeur.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você é voyeur?”, perguntei. “Ficaria excitado me vendo na cama com uma mulher?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ficaria”, ele respondeu. “Se você a fizesse sofrer.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Levantei-me da cama. Precisava ir ao banheiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não sei fazer ninguém sofrer”, falei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Sabe, sim. Primeiro você a faz sofrer na cama. Maltrata-a. Faz com que ela sinta dor na penetração. Diz palavras hostis. Usa da força. Obriga-a a fazer tudo aquilo que desperte nela a repulsa ou a vergonha. Faz com que ela ceda. Até ela gostar, e apaixonar-se por você. Depois você a abandona.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Nem pensar”, falei, em pé, diante do vaso sanitário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas a ideia o agradou.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Se não agradasse, essa ereção não estaria onde está agora.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não tem ereção nenhuma, me deixe em paz.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;A roupa de cama molhada do meu suor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Preciso trocar. Depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Atendo o telefone que toca. Do outro lado da linha, uma jovem chamada Roberta oferece-me um cartão de crédito. Digo que não quero. Ela insiste. Pronuncia o meu nome como se fôssemos íntimos. Recuso de novo, agradeço e desligo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Novamente o pequeno demônio vem me atentar. A vítima agora tem nome. E voz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ela poderia estar aqui. Agora. A Roberta. De joelhos à sua frente. Você não consegue imaginar a pobre Roberta a seus pés, implorando para que a deixe ir, jurando que nunca fez isso? Não consegue ouvi-la dizendo? E imaginar-se rompendo a resistência dela, você consegue?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Respondo que não. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não sei se ele acreditou.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-2323680786127858278?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/2323680786127858278/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=2323680786127858278&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2323680786127858278'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/2323680786127858278'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/na-verdade-em-nossa-sociedade-ha-um.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-8728251457338153212</id><published>2010-01-08T22:57:00.000-02:00</published><updated>2010-01-08T22:57:01.528-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Enquanto me sinto sozinho, tudo bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Hoje, no entanto, após alguns minutos de contemplação a um casal dentro do ônibus, me dei conta de ter perdido alguns minutos de contemplação a um casal dentro do ônibus. E me dei conta, ainda, de que a paz e a cumplicidade que emanavam do meio daqueles dois estavam me incomodando.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentir inveja de um casal feliz não é bom sinal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na pressa da paisagem ensolarada que ia se exibindo na janela procurei então um susto, um sopro, um milagre. Qualquer coisa que me fizesse esquecer o quão sozinho estava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas justamente hoje o Rio de Janeiro resolveu amanhecer repleto de casais apaixonados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Depois do almoço, conversei com um funcionário da limpeza. Tinha inquietações a me perturbar o desempenho profissional, e precisava que alguém me esclarecesse, mesmo que através da mentira, um mistério qualquer da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Interrompendo a limpeza da porta de vidro da recepção, ele voltou-se para mim quando, apreensivo, perguntei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Esse extintor de incêndio, funciona?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Funciona. Claro que funciona.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele olhou para o extintor, antes de responder. Como que procurando uma cola para a resposta certa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o suficiente para aumentar a minha desconfiança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Mas o senhor já viu ele funcionando? Já testou?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Ele vem testado da fábrica. Tá funcionando sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O funcionário da limpeza é um rapaz fechado, talvez tímido. Que fala e ri baixo, quando ri. Deve ter algum problema ou trauma. Deve ser solitário ou infeliz. Sinto-me mais confortável lidando com tipos como ele do que com gente alegre e falante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“O senhor confia nisso?”, insisti. “Porque hoje os serviços andam tão precários, que me parece que qualquer um pode fraudar um selo de qualidade e vender um produto totalmente ineficaz. Esse extintor, por exemplo. Qualquer extintor. Eu nunca vi um extintor funcionando, o senhor já viu?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não”, ele respondeu. “Mas esse aí tá funcionando sim.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com isso, ele virou-me as costas, voltou a seus afazeres e decretou o encerramento de nossa conversa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-8728251457338153212?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/8728251457338153212/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=8728251457338153212&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8728251457338153212'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/8728251457338153212'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/enquanto-me-sinto-sozinho-tudo-bem.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-3072188675512209965</id><published>2010-01-07T20:33:00.000-02:00</published><updated>2010-01-07T20:34:48.895-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>A nova funcionária veio procurar-me novamente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu precisava falar com você em particular.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pode falar.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu preciso que você me dê o endereço de uma boa clínica de aborto. Mas tem que ser boa. No livrinho do plano de saúde não tem nada, eu já olhei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É nisso que dá ser o funcionário estranho da empresa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Para que você quer fazer um aborto? E o príncipe de Brasília?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“To achando que não vai rolar. Falei com o subgerente júnior do setor de transferência, e ele disse que só posso pedir transferência depois de um ano trabalhando aqui. Tremenda sacanagem. Até lá, a criança já vai estar andando.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E por que o aborto? Você não contou para o pai que ele vai ser pai?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Contei.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E ele não ficou feliz?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Pediu exame de DNA.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“E qual o problema? Faça o exame.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não posso. O filho não é dele, é do meu ex. Anda, dá o endereço da clínica, você não tem?”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não tenho.”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;*&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;"Que merda: dois lixeiros desejando felicidades do alto da suas vassouras. Dois lixeiros... O mais baixo na escala do trabalho".&lt;/i&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ironia das ironias: na rua, ao sair do trabalho, flagrei um gari recolhendo do chão uma revista aberta exatamente em página que destacava a foto de Boris Casoy, o jornalista que cometeu em rede nacional a frase acima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tranquilamente, o gari olhou sem muito interesse para a foto e, como que tivesse mais com que se preocupar, jogou a revista na lixeira.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-3072188675512209965?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/3072188675512209965/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=3072188675512209965&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3072188675512209965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3072188675512209965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/nova-funcionaria-veio-procurar-me.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='32' src='http://3.bp.blogspot.com/_dFyuPxpiLU8/S1OQLRNQTuI/AAAAAAAAAAM/vQgh9XkFqfI/S220/avatar.jpg'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7150316941932477738.post-3479008642446042291</id><published>2010-01-06T20:15:00.001-02:00</published><updated>2010-01-06T20:15:33.815-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Como que a comprovar a relação, comentada ontem, que mantenho com a memória, hoje ela me pregou uma bela peça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No lugar de fazer-me esquecer, como de praxe, trouxe de volta à superfície de minhas lembranças nada menos que um amor do passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse ponto da leitura, é perfeitamente compreensível a dificuldade do leitor em conceber que alguém como eu possa ter tido um amor. No seu lugar, eu também duvidaria da veracidade desse texto. Mas nesse caso, peço um pouco de sua boa vontade. Esse amor existiu mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ela foi uma grande amiga dos tempos de pré-vestibular. Nos conhecemos durante os intervalos das aulas, e logo eu não me satisfazia mais com a amizade desinteressada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Descobrir que estava amando não foi prazeroso. Eu a olhava sem jamais permitir que detectasse a minha paixão. Escondia atrás do humor cada sinal de desejo, cada gota suada de nervoso quando junto dela. Mas prestava atenção nos gestos, nas frases, nos olhares que ela dirigia a mim e eu recebia como se estivesse fazendo aniversário. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre tantos presentes, porém, jamais encontrei uma única fagulha de paixão, por menor que fosse. Amizade, sim. Afeto. Fraternidade. Não havia amor, e eu, sem coragem nem experiência que me levassem à aventura de tentar seduzi-la, aceitei calado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminaríamos por nos afastar. Depois do ingresso na faculdade, nossas vidas tomariam rumos diferentes. Nossos passeios de bicicleta cessariam. Nossas conversas telefônicas seriam intercaladas por intervalos cada vez maiores, até silenciarem de vez. Quando sofri o acidente que por pouco não me matou, já havíamos perdido contato.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Antes amor da minha vida, a colega de curso acabaria tornando-se apenas mais uma lembrança.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Isso por quinze anos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Num gesto que até hoje não sei se movido por simpatia, por deboche ou por perversidade, o destino nos colocaria trabalhando no mesmo bairro. A uma quadra de distância um do outro. Um reencontro seria fatal, e ele de fato aconteceu. Por acaso, em plena rua. Com direito a troca de telefones, celulares, emails. E um – desta vez sincero – “Vamos marcar alguma coisa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tudo levava a crer que nos tornaríamos novamente amigos. Exceto pelo fato de que eu não pretendia repetir o silêncio da pós-adolescência. De novo me apaixonei. E dessa vez não estava sozinho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seguiu-se então tudo aquilo que ninguém acredita que possa acontecer na vida real. Rimos todos os risos, juramos todas as juras, gememos todos os gemidos, e cumprimos todos os ciclos de uma paixão. Que, como toda paixão, acabou. Um ano e um mês depois.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem viu “Blade Runner” talvez lembre a cena em que o replicante interpretado por Rutger Hauer vai em busca de seu criador e recebe, como justificativa para seu pouco tempo de vida, a frase “A luz que brilha mais é também a que dura menos”. &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nessa hora eu peço encarecidamente à memória que leve embora os momentos da separação. Me deixe só com as horas de felicidade, que é como quero lembrar da última mulher que amei, da última com quem fui pra cama, e da única que gostaria de reencontrar. Nem que fosse apenas para dar-lhe um abraço e saber que está feliz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7150316941932477738-3479008642446042291?l=mal-localizado.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mal-localizado.blogspot.com/feeds/3479008642446042291/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7150316941932477738&amp;postID=3479008642446042291&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3479008642446042291'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7150316941932477738/posts/default/3479008642446042291'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mal-localizado.blogspot.com/2010/01/como-que-comprovar-relacao-comentada.html' title=''/><author><name>Com ninguém</name><uri>http://www.blogger.com/profile/08281339657189610232</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' wid
