terça-feira, 10 de agosto de 2010

Olá.

Para quem gostou desse blog e quer saber o que o autor anda fazendo, 
pode me procurar aqui.

Abraços,
Maurício

sábado, 10 de abril de 2010

Olá,

Meu nome é Maurício. Sou o autor das postagens do blog Mal Localizado, cujas atividades foram encerradas em 5 de abril de 2010.

Essa postagem é um agradecimento, um balanço e uma explicação. Não nessa ordem.

Mal Localizado é um romance que ainda estou finalizando. Além de reler o que já está pronto, falta inserir um prólogo e um epílogo, mostrando as circunstâncias em que o diário do Sr. J foi encontrado e que consequências trouxe para quem o encontrou. Nem o prólogo, nem o epílogo, serão postados aqui.

Quem escreve, sabe o quão solitária é essa atividade. A internet trouxe o prazer de compartilhar a escrita já no nascedouro, poder mostrar e observar a reação de quem lê.

A opção pelo anonimato (criticada em alguns mails recebidos) se deve a um desejo do autor em não ser confundido com o personagem, situação já enfrentada. Em experiência anterior, publiquei contos na internet e diversas vezes o espaço de comentários trazia coisas como “Ah, não acho que você seja assim” ou “Você não faria isso”, como se o texto representasse apenas a verdade e nada ali houvesse de criação. Não nego a presença da experiência pessoal no que escrevo, mas certamente sua porcentagem é bem menor do que espera ou deseja o leitor.

Na verdade, imagino que escritores vaidosos não gostem muito de tal confusão. Ela acaba sugerindo que o autor só é capaz de escrever em cima de fatos que aconteceram, e que a imaginação não dá conta de criar sozinha uma personalidade, um evento ou um cenário. Mas ela dá.

Por isso, por não querer que o texto em si ficasse em segundo plano diante da curiosidade quanto até onde o autor está inventando e até onde está se expondo, preferi esconder meu nome e não mostrar Mal Localizado para pessoas conhecidas. Pesquisei em blogs literários pessoas que talvez se interessassem pelo que estava sendo escrito aqui e as incluí na mala direta. A resposta, embora quantitativamente bem menor do que o esperado (apesar dos 110 seguidores do blog, a média diária de visitantes não passou de 20 leitores), surpreendeu-me na qualidade. A identificação, a sensibilidade e a inteligência de alguns comentários não raro me comoveram, e não há como não citar – e agradecer – especificamente a presença do leitor SSS, dono de uma simpatia e profundidade que deixavam não apenas a mim, como aos outros leitores, ansiosos por sua participação. Para alguns que me perguntaram via email, informo categoricamente que eu não sou o SSS. A propósito, ainda espero conhecê-lo pessoalmente.

Não pretendo manter esse blog. Meus planos são informar, via email, do andamento do romance. Acredito ter feito alguns amigos por aqui, cujo contato espero não perder com o fim do blog. O endereço comninguem@gmail.com continuará ativo, e responderei qualquer comentário, sugestão ou crítica. Também gostei muito da experiência, mesmo sendo desgastante a tarefa de escrever um texto novo por dia, e não descarto a possibilidade de vir a repeti-la no futuro, em um novo livro.

A todos os que chegaram até aqui, o meu muito obrigado e, espero, até breve.

Abraços,
Maurício

segunda-feira, 5 de abril de 2010

“Os demônios não deixaram você em paz. Não esqueceram você.”

Eu apenas ouço, sem me mexer.

“Você não está livre. Não está livre agora e nem estará jamais.”

Abro os olhos. Não era sonho. Eu não estava dormindo.

As últimas palavras ainda ecoam em meus ouvidos.

“Logo você estará junto de nós.”

No telefone, tento novamente falar com os vizinhos. Ninguém atende.

Resolvo então ligar para a empresa. Lá atendem. Mas também eles estão falando naquele idioma que não conheço.

Talvez eu é que esteja me distanciando, e perdendo a compreensão das coisas. Talvez esse distanciamento faça parte do processo.

Hoje finalmente aconteceu. Tentei lembrar-me do seu rosto e não consegui.

Lembro de um sentimento muito comovente. Mas não consigo sentir isso de novo. O sabor do seu nome se desvaneceu no céu da minha memória.

Deveria doer muito. Mas nem isso estou conseguindo sentir.

Em todo caso, a vida não me vale a pena sem essa lembrança.

Começo a arrumar minhas coisas. Penso em agradecer, mas não tenho a quem. Sequer o nome da mulher a quem dedicaria este diário eu consigo lembrar. Na verdade, já nem estou bem certo se ela realmente existiu, ou se uma face romântica minha a criou, para dar um mínimo de significado a uma vida infeliz.

Deixarei o diário sobre a mesa. Sei que alguém vai encontrá-lo um dia. Espero que ao menos se divirta. Agora vou me deitar. Posso sentir que eles estão chegando para me buscar.

domingo, 4 de abril de 2010

Quando chamados às pressas pela mãe, o casal de irmãos achou que haviam descoberto o seu segredo.

Chegaram diante dela, que os esperava na frente da casa, cabisbaixos e amedrontados. Estavam de mãos dadas.

“Onde vocês estavam?”, a mãe perguntou com irritação.

“Brincando”, responderam quase ao mesmo tempo.

“Vão ter com seu pai. Ele quer falar com vocês dois agora.”

Limparam os sapatinhos no capacho, passaram pela mãe e entraram na casa. Atravessaram a sala, percorreram o pequeno corredor e pararam na porta do quarto.

O pai estava deitado. Há um mês não saía daquela cama. Doente.

“Papai?”

“Entrem.”

O quarto cheirava a hospital. Os irmãos puseram-se de um lado da cama, o lado em que o pai estava, e esperaram.

O pai começou a tossir.

“Feche a porta”, disse ao menino. Ele foi, fechou e voltou ao mesmo lugar ao lado da irmã.

“Filhos. O pai de vocês está morrendo.”

A frase, profunda demais para a cabeça de uma criança, não teve o efeito desejado pelo patriarca enfermo. Os irmãos apenas arregalaram os olhos e permaneceram em silêncio. Não sabiam o que fazer.

Um adulto não saberia.

“Vocês precisam me ajudar”, ele enfim continuou. “Eu estou morrendo, e não posso, não quero morrer desse jeito.”

“O senhor está doente, papai?”, a menina perguntou.

“Pior do que isso, minha filha. Papai está sendo assassinado. Estão me envenenando. Estão matando o pai de vocês. Gente muito má, muito cruel.”

Agora a menina chorava. O menino ainda conseguia se conter.

“Quem está fazendo isso com o senhor, papai?”

“A mãe de vocês. Ela está me envenenando com a ajuda daquele médico que vem sempre aqui. O doutor Quintanilha. Eu sei porque eu descobri tudo. Os dois tem um caso. O médico e a mãe de vocês. Os desgraçados.”

As duas crianças não sabiam ainda o que significava ter um caso. Mas entenderam que era errado.

“Agora querem se livrar de mim. Não se satisfazem com a minha desonra. É preciso que eu morra para que o seu êxtase seja completo. Com a minha morte, a desonra se alastrará. Tomará esta casa. Tomará vocês dois, meus filhos e herdeiros.”

O cenário pintado pelo pai, ainda que um ou outro vocábulo não tenha sido de todo compreendido pelas crianças, incutiu nelas o horror pretendido. Os irmãos entenderam que havia uma ameaça, e que era preciso se defender dela.

“Mas o que podemos fazer, papai?”, as lágrimas ainda escorriam dos olhos da filha.

O pai teve nova crise de tosse, e então respondeu.

“Vocês precisam matar sua mãe.”

Agora eram as duas crianças que choravam convulsivamente. Na cozinha, a mãe ouviu os berros e foi até o quarto ver o que estava acontecendo. Deu com a cena grotesca das crianças chorando e do marido tossindo, e achou melhor retirar os filhos dali.

“O que você disse que os deixou daquele jeito?”, ela perguntou, depois que ficou a sós com o marido.

“A verdade. Que eu vou morrer. Meus filhos me amam. Não querem ficar sem o pai.”

“Eles não vão ficar sem o pai. Você logo vai estar bom.”

“Foi o doutor Quintanilha que disse isso?”

“Foi.”

Nesse instante as duas crianças entraram correndo no quarto, atirando-se sobre a mãe.

Cada uma carregava um pedaço de pau.

Caíram os três, mãe e filhos no chão. O pai recomeçou a tossir sem parar. Da posição em que se encontrava, apenas ouvia os gritos da mãe e o barulho seco das pancadas em seu corpo. As crianças também gritavam, enquanto batiam com toda a força. Continuaram batendo mesmo depois que a mãe parou de reagir.

Quando o doutor Quintanilha chegou, a porta de casa estava aberta. Ninguém respondeu ao seu “ô de casa”, então o doutor Quintanilha entrou.

Encontrou o marido e a mulher no quarto. Ele na cama, ela no chão. Ambos mortos. Mas nenhum sinal dos filhos.

A polícia foi encontrar os dois abraçados e apavorados, aos pés de uma árvore no meio do mato. Havia sangue materno em suas roupas.

*

Unidos na data da morte, marido e esposa permaneceriam juntos após o desfecho de sua história em comum. Lado a lado no cemitério, as sepulturas com seus nomes iriam se tornar, ironicamente, local de peregrinação de casais e solitários apaixonados, que enxergaram na tragédia familiar o exemplo de um amor que durou até o fim.

Ninguém jamais soube ao certo a razão do crime.

Menores de idade, os irmãos foram levados a diferentes instituições para tratamento. O menino, ao saber que ficaria separado da irmã, enforcou-se com um fio de tomada.

O doutor Quintanilha assumiu a guarda da menina, que foi morar com ele depois de receber alta.

As primeiras flores da primavera começam a despontar na paisagem.

A menina entra em casa. O doutor Quintanilha interrompe a leitura do jornal para vê-la passar pela sala e fechar-se no quarto. Toda vez que ela passa, o suspiro dele a persegue.

A semelhança entre ela e a mãe jamais deixará de surpreendê-lo. É como se a morte da outra não passasse de sonho, delírio, boato. Como se apenas o marido tivesse morrido, e enfim deixado em paz aqueles que verdadeiramente se amavam.

A menina, no entanto, não fala mais. Desde o suicídio do irmão que não pronuncia uma palavra sequer. O doutor Quintanilha cuida dela. Alimenta-a. Coloca-a para dormir. Dá-lhe banho como a uma criança. Suas mãos tremem quando em contato com a pele da enteada. Sua cabeça gira quando a envolve com a toalha, e o perfume dela lhe invade as narinas. Quase embriagado.

Numa dessas ocasiões ele não resiste e comete estupro.

*

Ele vai todas as noites ao quarto da enteada.

Um dia, amanhece com tosse. Garganta ressecada, febre, amargor na boca. Um amigo, médico como ele, vem visitá-lo e o examina.

“Gripe. Uma gripe forte. Não tem com que se preocupar.”

Mas no dia seguinte a tosse piora, e ele perde o movimento das pernas. Desesperado, grita o nome da enteada.

“Foi você?”, ele pergunta, com lágrimas nos olhos, quando ela entra no quarto. “Depois de tudo o que fizemos”

Tarde demais ele se dá conta de que a mãe e a filha não são a mesma mulher, e que não foi por amor que a segunda o recebeu todas as noites dentro de si.

A enteada fica olhando o doutor Quintanilha morrer. Ele ainda demora, tosse, esbraveja, pede socorro. Ela não se importa. Não tem pressa.

Seus pensamentos, na verdade, estão longe dali. Estão no filho, que ela sabe que um dia virá para purificar a sua vida. Um filho belo, saudável e seu. E que trará o nome de seu irmão falecido.

sábado, 3 de abril de 2010

A mulher que arruma o apartamento acabou de perguntar pela segunda vez se eu estou bem.

Eu nunca estive bem, e ela nunca perguntou nada. Agora repetiu a mesma frase duas vezes no mesmo dia.

“Estou bem, obrigado. E a senhora, está bem?”

“Estou.”

Ela fala algumas coisas que não compreendo. Talvez misture idiomas. Ou invente palavras. É uma mulher esquista.

Estou sentado no sofá enquanto ela limpa a sala. Às vezes deixo-a sozinha trabalhando e vou para a praça. Mas hoje estou com medo de sair e esquecer o caminho de volta.

“O senhor não vai caminhar?”

“Não. Está com cara de chuva.”

“Chuva? Que chuva? Está um dia lindo de sol lá fora.”

Ela então começa a falar as palavras estranhas a que eu respondo com acenos de cabeça, fingindo que entendo tudo.

Imagino até que ponto também ela não apenas finge me compreender.

“Se encontrar pelo de gato por aí, não se espante. A gata dos vizinhos às vezes foge e vem para cá.”

“Pelo de gato.”

“Gato branco. O nome do bicho é Nefertiti. A senhora achou algum pelo?”

“Não.”

“Os gatos são animais asseados. Eles se lavam. A senhora tem cara de quem não gosta de gatos. Acertei?”

“Acertou.”

“Não encontrou nenhum pelo de gato na casa, então?”

“Não.”

“Pelo branco, não?”

“Não. O senhor vai atender o telefone ou quer que eu atenda?”

É verdade, o telefone está tocando e eu nem percebi. Me levanto para atender, imaginando que irei escutar a voz da vizinha.

Mas não escuto. Do outro lado da linha, além de chiados, ouço uma voz muito distante falando num idioma que não domino.

“Alô?”

A voz desconhecida continua falando e eu não entendo. Então desligo.

“Quem era?”, pergunta a mulher da limpeza.

“Trote.”

Vou para o banheiro. Enquanto urino, ouço o telefone tocar de novo. Dessa vez, a mulher da limpeza é quem atende.

Chego a segurar a bexiga, para escutar. E escuto, claramente, ela falando ao telefone com alguém, nesse idioma que não conheço.

Termino minha necessidade. Aperto o botão da descarga. Lavo as mãos com sabonete, depois seco.

“Vai sair?”, ela pergunta, quando abro a porta.

“Vou.”

“Vai para a praça?”

Finjo que não ouvi, e fecho a porta.

Dessa vez, não hesito. Bato na porta dos vizinhos. Ninguém, no entanto, atende.

A praça deveria servir de refúgio. Não serve. Até aqui sinto medo.

Passa por mim uma criança. Dando aquilo que provavelmente são seus primeiros passos. A mãe a acompanha de perto. Ambas sorriem para mim. O velhinho simpático que observa e retribui o sorriso. Até aqui sinto vergonha.

Volto para casa.

A mulher da limpeza já foi embora.

O demônio que habita o meu ombro foi embora.

Os vizinhos foram embora.

Talvez seja hora de eu ir, também.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

Em minha história pouca coisa escapa da sucessão de erros, silêncios e remorsos.

O que deixei de fazer diz mais de mim do que o efetivamente feito.

E o que fiz, não fiz direito.

Nunca me senti à vontade com pessoas que falam demais, e sempre fugi de quem fala de menos. Nunca encontrei a beleza num cenário do qual eu fizesse parte. Nunca quis fazer parte.

Sempre olhei de longe.

Sempre obedeci.

Agora me sinto preso a essa falsa liberdade, autenticada num memorando e registrada numa folha de ponto. Estou de férias para fugir. Mas depois das férias devo voltar.

Eu não sinto fome.

O céu escurece.

Quem me quase enxerga quase acerta, e quase erra. Eu sou bem menos do que aparento.

Sou menor do que o diminutivo.

Sou aquele que decepciona.

Eu me acovardo e termino engolindo a mensagem. O silêncio que fica é de desconforto.

Estou me lembrando de frases e gestos que há quarenta anos deveriam ter sido cometidos e não foram. Ainda hoje me perseguem como moscas em dia quente.

Talvez eu não saia mais dessa cama. Talvez não deva sair. Talvez não precise sair. Talvez não saiba sair. Talvez jamais tenha saído.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

O mau funcionamento de minha mente me preocupa.

Primeiro, a memória me priva da existência de um dia inteiro. O dia de ontem.

Logo de mim, que tão poucos dias tenho pela frente.

Não consigo me lembrar do dia de ontem. Sei apenas que ele existiu porque está no calendário. Mas não sei onde, em minha vida, ele se perdeu. O que fiz ou o que deixei de fazer, talvez só saiba quando as consequências começarem a aparecer na minha frente.

E segundo.

Hoje, como sempre faço, acordei às seis da manhã. Cumpri todas as tarefas de minha rotina diária e saí.

Dentro do ônibus, o desinteresse pela paisagem me fez fechar os olhos e acomodar a cabeça no encosto do banco. Quando começava a relaxar, a lembrança me atingiu como uma lança com a ponta em chamas.

“Eu estou de férias”, pensei. “Não deveria estar nesse ônibus.”

Saltei, atravessei a pista e peguei o ônibus de volta. Praguejando.

Ao sair do elevador, pensei em procurar os vizinhos. Cheguei a ficar diante de sua porta. Mas voltei para o meu apartamento.

Hoje passei o dia à espera de notícias. E as notícias me deixaram esperando.